Sábado, 31 de Dezembro de 2011

UM DIA MAIS, UM DIA A MENOS

A dor ergue-se como lava de vulcão com o corroer lento do tempo. Vejo o riso do ontem submerso pela lágrima do hoje e do amanhã. Cada dia é um centímetro a menos na curvatura incontornável do arrastão colossal pedido pela morte. É a sorte dos instantes joviais que são colossais alentos de ilusão, enquanto um coração ofegante arfa pela acalmia.
Um novo ano, de 2012. Eterno retorno. Aqui na terra onde tudo converge ignora-se mundos galácticos. Porquê pensar na crise diária minúscula ignorando a poeira estrelar… onde almas omissas cantam entre amores perdidos.

Tudo permanece sem sentido. Enjeito a gravata, ajeito o cabelo para mais uma jornada maquinal sem saber para onde conduzo o esqueleto. Baixo progressivo, porque a terra emana magnetismo e procura fertilizante. Já não iludo o peito com hipotéticas primaveras ou promessas egocêntricas sinceras. Um bem-estar conquistado ao quotidiano hipnótico. Matriz de rotinado bailado. Ouço notas belas, guitarras esquecidas pelo vulgo. Pedaços de um passado inexistente fora do meu horizonte.
Um dia mais num ano mais. Sempre a dor maior, a descida… já não sou Ícaro insano, antes Orfeu mundano. Mas o doce embalar da mente derrete o gelo sempre presente. Novo Ano e novo suspiro, agora bem conseguido.
Um dia mais , um dia a menos.

Quinta-feira, 15 de Dezembro de 2011

CITADAS LATITUDES DO AMOR

"...Passou tempo e eu não esperava que, um dia, chegasses. Mas passou tempo. Um dia, chegaste.
Caminhávamos na rua. Eu pensava em qualquer coisa que não era a ideia de chegares,
como uma avalanche que arrasta tudo à sua passagem, como uma multidão a pisar cada pedaço
de terra. E a rua ficou deserta quando nos aproximámos. Éramos desconhecidos no instante
em que olhámos um para o outro. Passou esse instante e, dentro de nós conhecemo-nos.
Chegaste. Eu não te esperava. Contigo trouxeste a ternura, o desejo e, mais tarde, o medo.
Chegaste e eu não conhecia essa ternura, esse desejo. Em casa, no meu quarto, neste quarto,
revi os teus olhos na memória, a ternura, o desejo. E, depois, aquilo que eu sabia, o medo.
E passou tempo. Eu e tu sentimos esse tempo a passar mas, quando nos encontrámos de novo,
soubemos que não nos tínhamos separado..."
José Luis Peixoto

Segunda-feira, 22 de Agosto de 2011

PERFECT LOVE SONG

I could take all the craziness out of you
That's what I loved you for
Take away all the orange, greens and blues
That's what I loved you for

you said
Take a look at me
You think it really could be that easy?
come on, take a look at me
You think it really could be that easy for you?

I know about guys, I know where they live
And i am just the same
The ones that matter fight against themselves
But it's so hard to change
Hey, I could love you
Take all that love away from you
Hey, I could love you
Put you in this box I've made for two

So you could take all this craziness out of me
That's what you love me for
Well, I don't mean to laugh
But if you know all this
You must be halfway there

Well, like that dress tonight, you won't know as it falls from you
Turn around and it's winter, darling
Look in the mirror and it won't be you

cos i am another dog
I've been around the block
So many times
And it's the same old turns
Same old feelings straight down the line
Yeah, I can love you
Grab that leash and drag you to a place you'd never known
I know where my bones are buried
May take me a while, but I'd find my way home

(BURIED BONES, by Tindersticks)

Sexta-feira, 5 de Agosto de 2011

prefer a feast of friends to the millionaire solitude

Desço a calçada ardente olhando o casario doente. Um pedaço de lixo esvoaçante provoca arrepio pela dança que transporta a impressão do gesto humano e sua presença térrea. O som do auto rádio é belo, semente de amargura sentida, um veludo que roça a alma. E vou por ali abaixo olhando o passado de peças de puzzle desencaixadas e à espera de harmonia. Às vezes sinto-me feliz, porque alguém me sorriu com vontade. Mesmo naquele momento. Foi lindo.
Outras choro por dentro, onde por fora sorrio. É sempre assim. Um dia vou dormir e depois o sorriso eterno mais não será que ironia vã. Quem deixei para trás talvez não merecesse outra coisa. Quando me dizem que lhe dêem um punhado de notas e farão uma fortaleza à prova de dor, um mundo de felicidade e amor, penso que é sim, talvez eu fizesse o mesmo! Mas depressa me baixo sob o peso do sol ardente. Curvado perante o vazio que é a incompreensão. Ansiando por abraço antigo, por palavras de amigo.
Prefiro o sonho de alguém que me afague a nuca, por entre uma música que flutua entre sussurros. Sorrisos mudos. Sinceros e cúmplices olhares, ternos esgares… sonho a liberdade de um peito cheio de ar numa manhã de visitas surpresas, alegria sobre as mesas numa comunhão de afectos que não é falsa, é feliz. Sonho ser homem que não pede perdão por respirar mais alto, não se curva à espera de reconhecimento do global conceito.
Acordo e a vida recomeça. Mais um dia, mais uma luta. Um dia será assim.

Sábado, 18 de Junho de 2011

flashes intermitentes

Quando uma trégua é embalada por um esgar rosado

Perfeitos flashes que prolongam anseios saboreados

Ao som da vela clamorosa que assombra uma janela abismal

Sorriso maquinal

Às vezes é térreo o sabor ingénuo

Outras… derrete semblantes maquiavélicos

Sempre a fustigar anseios de acalmia

Magia sombria na noite fria e cansada

Esperando o nada

Supero temporais amargos até quando cansado estarei deitado no gelo improvisado

E folhas húmidas trarão uma gratidão dissimulada, talvez um choro sincero

Afagar-me a face escura, Perfeita metáfora da amargura

Virá como trem que chega um instante avante

E deixa um passageiro errante

No porto onde espera ainda pelo suspiro profundo, sentido, do mundo

Onde ainda merece uma prece.

Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

praying lyric

Come to me, oh sacred woman in the red dress
Be my guest in this night of rain
Hide the pain, spread the rain

You, my popcorn dream in the bitter nights
Rise the sun when the moon is hiding its eyes
Hide the pain, spread the rain

Be wild, be insane
Falling tears, pleasure fears
No more in the sun
Regain my heart, please do not fall apart
Hide the pain, spread the rain

Don’t let me cry in vain
Be the treasure of my never-ending sadness
Carry my eyes from this valley of darkness
Take my pain, make me sane.

Terça-feira, 13 de Julho de 2010

FINAL ÉPICO DE LOST

Jack Shephard tinha que ficar com o papel preponderante no desenlace, porque era a personagem consensual (o abraço de Sawyer, único ao longo de toda a série, comprovam-no por inteiro). Autêntico pastor de homens, conduziu o seu rebanho e “salvou-o” através da manutenção da Luz, uma luz divina símbolo teológico onde cada um busca a paz.
Explicação: O mundo paralelo do “mundo real”, onde as personagens mergulharam após a explosão provocada pelo mesmo Jack não tem tempo, é composto por uma acção que funciona como um purgatório bíblico, onde se resolvem as coisas mal resolvidas das vidas. A Ilha… bem, a Ilha parece um autêntico “centro de comando”, génese de um mundo real com sombras (Platão e a Alegoria da Caverna?), mas um centro de comando que parece também ele orgânico. Como diz Christian (metáfora de Cristo) a Jack na sacristia, “o mais importante da tua vida foi o tempo que passaste com essas pessoas”.
Final: o espectador chora, não porque tenham surgido as revelações bombásticas, mas porque passou 6 anos a acompanhar os dramas daquelas almas perdidas. A técnica narrativa é só por isto excelente: todos esqueceram as explicações que esperavam, porque a paixão não se explica. O Bem triunfou sobre o Mal. O pastor afastou o Fumo Negro do seu rebanho no epílogo de uma luta excelsa entre Deus e o Diabo. A Luz foi preservada e as almas puderam enfim partir em paz.
A cena penúltima dificilmente poderia ser mais bem conseguida e arquitectada: uma Igreja irradiante de luminosidade, a alegoria da entrada no Paraíso. O reencontro entre os amigos verdadeiros numa epifania magistral de sentimentos de lágrimas flutuantes. A redenção de Ben depois de múltiplas metamorfoses é outro dos pontos altos do final, além, claro da assunção definitiva de Kate do seu amor a Jack, a componente romântica central da série.
Tal como durante o período-escotilha, Desmond tem papel fulcral na manutenção do Bem que emana da Ilha. Ele é “activador” da mortalidade do Locke “possuído”, bem como o Mercúrio que convoca os protagonistas para o Concílio final, como um mensageiro de um Deus Maior, que perfaz milagres e dá segundas oportunidades aos pecadores.
Excelente final.

Terça-feira, 11 de Maio de 2010

CHAGAS



O Grito, 1893. Munch

Caminho ausente sobre o fogo do presente
Pisando folhas azuis onde caíram chuvas salgadas naquele tempo de céu rosado
A silhueta que segue curvada é rainha do nada, sempre solta, sempre aguda
Escavando na alma chagas e no peito grutas sem fundo
Este mundo.
A beleza é finda, o fogo extinto
Certeza fugidia
Evadiu-se a alegria sadia
Como aquela visão que tive um dia
Eis a presente cegueira.
Porque é o pesar que me conduz pelas chuvas azuis
Folhas salgadas afundam-se em pauis
De afagar ânsias moribundas
Melancolias profundas.
Sentado olho o telhado de uma casa que já foi feliz
Daqui não vislumbro a raíz
Fantasma sigo. Sombra.
Baloiçante na espuma dos dias. Amanhã. Outro suspiro.
A amarga fé em renascer persigo.

Março 2010

Quarta-feira, 28 de Abril de 2010

CLUBITE AGUDA

O Benfica vai ser campeão, parabéns. Mas não é nada de especial, depois de anos a penar, até confesso que gosto de ver os lampiões todos lampeiros e eufóricos a degustar o sabor da vitória como se fosse inacreditável para tal clube chegar ao topo da classificação, como se fosse mesmo a primeira! Deste trono privilegiado onde o portista se senta, olho em volta pelo estatuto que o meu clube ostenta de títulos e títulos aquém e “além mar”; rio-me eu até por vezes perante tal “pobreza” de festejar tanto e tanto quando nem sequer se é totalista da Champions, apenas se ganhou um simples campeonato. Mas as televisões andam loucas de ansiedade, o Record vende páginas e páginas com a ida ao WC do David Luís, o Araújo Pereira desespera por emprego... perdão, por vestir a camisola. Resta-me ao menos o Aleixo, que penso ser portista, apesar de não ostentar.
Na verdade, regozijo-me por às vezes sentir umas saudadezinhas maldosas dessa sensação da travessia do deserto e da vitória após o jejum…terá outro sabor? Olhando para a lampionagem, creio que sim. Como não sei o que isso é desde que me conheço por nascido, pode ser que agora aconteça. Não é que eu queira, obviamente; se há coisa que não sou em regra é hipócrita, todavia penso sempre que os maus momentos têm algo de bom e após uma noite de lágrimas há sempre a bonança apregoada.
Há no entanto um fenómeno que verifico relativamente aos adeptos do clube do “regime”: as vitórias por decreto que os 6 milhões sempre apregoam quando se pavoneiam “ofendidinhos” como enganados diante das glórias do FCP. Ele é os árbitros, os apitos dourados, os não sei mais o quê. Não me lembro nunca de ver um único benfiquista a admitir que o FCP foi melhor e isso é o não saber perder, como aquela mentalidade mesquinha portuguesa de se conformar com o fatalismo e nada fazer para ter sucesso. A crise também está aí. Mas não é tanto esta, mas sim aquela deixada pelo coitado do jovem Sebastião, que dura desde 1578. Mas por que raio haveria um rei teenager de ganhar uma guerra qualquer no meio dos desertos, quando nem sequer devia para lá ter ido, tão pouco a preparou convenientemente. Só pela insana vontade de dominar? Como se fosse decreto?
O Porto vai voltar a ganhar, mas para já, temos que aceitar a derrota porque eles foram melhores. Mas o século é nosso! Isso não há conselho de justiça ou túnel que nos tire.

Quarta-feira, 7 de Abril de 2010

GRAVES

Robert Graves, o poeta, não o físico

Doença tiroideia descrita por Robert Graves em 1835, a doença de graves é uma doença auto-imune (tipo de doença na qual nosso corpo ataca a si próprio, criando auto-anticorpos). A doença pode acometer todo o corpo, mas classicamente envolve os olhos, a tireóide e as pernas (chamados respectivamente de oftamopatia de graves, hipertireoidismo e mixedema pré-tibial), apesar de ser raro os pacientes apresentarem estas três ao mesmo tempo. Aproximadamente uma em cada 1.000 mulheres apresenta a doença e os homens são cerca de cinco vezes menos acometidos. Destes pacientes apenas 5% vão apresentar doença grave nos olhos.
Muitas pessoas apresentam a doença nos olhos e exames de tireóide normais, algumas delas vão apresentar alteração nos exames depois de anos da doença e outras sempre terão exames normais. A medicina ainda não tem explicação para isto.
A doença geralmente não afeta diretamente o olho, mas os músculos ao redor dele, chamados de músculos extra-oculares. Estes músculos são responsáveis pelos movimentos dos olhos. Como conseqüência da doença os músculos ficam inflamados e depois retraem, podendo causar limitação da movimentação do olho e visão dupla ou estrabismo (quando um olho parece desalinhado em relação ao outro).

Sintomas:
Exoftalmo (olhos saltados), retração das pálpebras (também dão impressão de olhos saltados ou arregalados), olhos vermelhos, inchaço ao redor dos olhos, sensação de olhos secos ou de pressão nos olhos e, mais raramente, perda de visão e problemas na córnea. Pode envolver apenas um olho ou os dois.
Quando se suspeita de alteração ocular deste tipo são solicitados exames de tireóide e, no caso de alteração o paciente passa a ser acompanhado também por um endocrinologista.

Tratamento:
Depende da fase da doença. Remédios ajudam a controlar a função da tireóide e a inflamação dos músculos extra-oculares. Se houver estrabismo ou os músculos estiverem muito inchados pode ser necessário cirurgia para corrigir o problema. Às vezes o paciente deseja uma correção da aparência e pode ser realizada cirurgia plástica pelo oftalmologista para diminuir a aparência de olhos saltados. Raramente pode ser necessária radioterapia para controlar a glândula tireóide ou o inchaço dos músculos ao redor do olho.

clínica Belfort

Segunda-feira, 15 de Março de 2010

O REENCONTRO DA RACLETTE

Há muito tempo que não tinha um jantar tão marcante, porque reuniu dois GRANDES amigos de longa data, dos velhos e bons tempos de Coimbra (e também da Figueira). Um que está longe, daí a tristeza e a saudade na hora da despedida, apesar das vitórias e das medalhas; outro que está perto, mas longe também, porque nem sempre o convívio é possível com a frequência que desejaria.
(O Campeão da natação)
Enfim, a raclette e a sangria, misturadas com mais uma série de coisas bem comestíveis e outras bebíveis, bem preparadas pela Daniela, claro está, mas com a minha ajuda também, que isto é preciso ajudar as gajas porque senão depois...enfim, é uma chatice. Finalmente a recordação de velhos episódios ainda bem frescos na memória, todos hilariantes, e no final a despedida e a certeza da repetição.

Sexta-feira, 5 de Fevereiro de 2010

TINDERSTICKS, VILA FLOR




Fotos: Maisportugal.com Portal Guimarães
Vilaflor, centro cultural, Guimarães. Mesmo público sempre maduro, nada de sub30. Stuart Staples e mais 6 instrumentistas a decorar o palco, como sempre. Não morrem os Tindersticks, antes se renovam e mantêm vivos coerentemente. Registo lento e deferente ao som-silêncio, pois claro.
Venha quem quiser dizer que é uma monotonia enfadonha e depressiva, pois eu mando esses deixar de ouvir os Stings e os U2s da família gigante. É bem uma dor dispensável ouvir aquelas orquestrações, mas os momentos felizes não seriam tão belos sem elas.
Mais um álbum do mesmo: melodias inesquecíveis no cetim que lançam aos ouvidos ébrios do espectador-ouvinte. São sempre assim os Tindersticks, é sempre uma voz inesquecível a de Stuart Staples.
Nestes outros tempos, outros acordes que se pretendem joviais na profunda e interminável mágoa social. Mas também o fado sofrido é nosso, daí…
Tindersticks. A pose saudosa dos tempos 90, revivalista na alma que quer ser melancólica quando a felicidade é efémera. Como um romantismo que é uma doença sem cura e um peso que nos verga perante a beleza saudosa.
Tecnicamente, pouco a acrescentar, músicos de nível elevado, numa maturidade cuja harmonia se solta nos acordes. Às vezes pergunto-me como é possível tal acerto, mas depois lembro-me que parece que foi ontem, mas já lá vão 20 anos desde o primeiro homónimo.

Momentos mais marcantes da noite: “Marbles”, inesperado e doce; o genial “Mother dear” e, claro, o novíssimo portento “Factory girls”. No final 2+1 encores, de entre os quais o inevitável emblemático “City sickness”e as saudades que estão já aí.

Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

AÍ ESTÁ MAIS UM REGRESSO DA MELANCOLIA

Os Tindersticks, pois claro! Depois do macio "Hungry Saw" do ano passado, eis que Stuart Staples parece ter reencontrado - após as anteriores aventuras a solo - a harmonia junto dos seus comparsas de outrora...
Um album para ouvir e chorar outra vez...

Domingo, 20 de Dezembro de 2009

Domingo, 22 de Novembro de 2009

SEAN RILEY & THE SLOWRIDERS




Os Slowriders são introspectivos na atmosfera melancólica que patenteia o som que produzem. A voz é de Dylan, sim senhor, apesar de Afonso (Sean Riley) sempre negar a semelhança entre a sua música e a do mentor do folk. A verdade é que Afonso não pode nunca negar a força e a imponência da sua voz, que marca indelevelmente a música da sua banda.
Sean Riley and the Slowriders não são todavia, felizmente, só a voz do seu vocalista. Há folk, blues e rock nos acordes, há um som acústico muito marcado. No entanto, o além vem nas guitarras eléctricas que contrariam um pouco a tradição e o sonho americano, revelando um cariz mais europeu da banda.
Multi-instrumentistas que brincam muitas vezes com os instrumentos, numa roda-viva trepidante, estes rapazes de Coimbra (e Leiria) oferecem-nos músicas de uma alma maior, como se a vida desfilasse por corredores decorados por cores obscuras e impregnadas de sentimentos. No seu primeiro “Farewell”, a acústica é sombra preponderante, com Dylan e Waits bem presentes e um purismo ingénuo e inexperiente bem patente. Mas em “Only time will tell” surge uma sofisticação crescente, um esgar pretencioso e ambicioso, até pela preocupação em integrar convidados mais experientes.
Faixas como “Hold on” (o primeiro single) ou “Tell me why” trazem-me à memória tempos de glória, especialmente a última, para mim bem remniscente de “One of these things first” de Nick Drake. “Tell me why” será, de facto a minha música preferida, já “This woman” é um tema romântico por excelência, muito “Coheniano” no tom e até a lembrar Tindersticks e principalmente Flaming Stars ("A hell of a woman") na essência amargurada e pessimista das letras. De resto, “Working nights” será uma viagem ao Oeste Americano, aos saloons de portas que se abrem e fecham para bailarinas e suas saias de roda. No fundo, o sonho americano também visível na pose dos Slowriders.

Sábado 21, Casa das Artes de Famalicão
O concerto na Casa das Artes de Famalicão foi o esperado: desfile de baladas aconchegantes e impulsos mais ritmados e sonoramente volumosos. Uma atmosfera intimista até pelas dimensões do Café concerto: pessoas sentadas no chão a 2 metros de Sean Riley e uma única fila de lugares sentados com os seus Safaris-cola e Superbocks de lata, mais umas mesas de café num patamar superior. Casais de trintões bem identificados, não só pelas bebidas, mas pelo aspecto intelectualmente altivo e pretensamente maduro: o público dos Slowriders.
A entrada com “Working nights” serviu bem para apresentar aos menos atentos a banda e a sua estética subjacente. Vieram ainda outros hits sempre muito bem interpretados, quer por Sean Riley – sempre muito grato pelos aplausos e deveras preocupado com o impacto da banda e a sua imagem: passou o concerto a apresentar-se -, quer por seus comparsas, com destaque para um novo convidado e amigo da banda, Nuno Lopes no baixo. Destaques para “Houses and wives”, “Talk tonight” (aquele início pede “I used to love her…”), “Harry Rivers” ou “Moving on”. Algum vazio pela ausência do marcante "Hold on".
No final, e depois de um ligeiro incidente com um membro do público, ainda houve tempo para dois encores. E foi assim que Sean Riley se foi após pouco mais de uma hora de actuação, prometendo voltar a Famalicão. Por mim, espero que volte também ao Porto.



Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Cinema:


THE VISITOR

The Visitor (2008) conta a história do sexagenário professor de economia Walter (Richard Jenkins), personagem soturna e melancólica, cuja vida se arrasta num marasmo só atenuado pela música clássica e pelo vinho nocturno. Walter vagueia pela tela em “câmara lenta”, quiçá esperando uma morte libertadora. Vida vazia, felicidade perdida na monotonia diária: Jenkins adormece-nos qual zombie de pulsações cardíacas inaudíveis e alerta-nos para a rotina que corrói a vontade de viver.
À medida que avança o filme vai-se revelando: Walter desloca-se a Nova Iorque para uma conferência que mal domina e instala-se no seu apartamentozinho esquecido na cidade acordada. Ao chegar, depara-se porém com um casal de imigrantes ilegais - Zainab (senegalesa) e Tarek (sírio) - estranhamente instalados em sua casa. Perante o mal-entendido, o casal deixa o apartamento desculpando-se e fica à deriva. É Aqui que de repente se vislumbra a reviravolta emocional na película: Walter concede aos estrangeiros o direito de ficarem em sua casa e passa a desenvolver-se um nicho de relações verdadeiramente marcantes e surpreendentes.
A vida lenta e desinteressante do protagonista abre-se a um novo fôlego através da amizade que vai crescendo. A compassada música clássica dá progressivamente lugar ao ritmo do Djembé, que Tarek domina e cuja paixão transfere para Walter. É o retomar das emoções pelo peito gelado do professor.
Quando Tarek é detido pelas autoridades e se prepara para ser deportado, explode definitivamente a emoção descontrolada em Walter, a qual suplanta a sua outrora quietude silenciosa. Aí ressaltam os valores da amizade, mas uma amizade exótica, improvável e pura, guiada pelo poder incontornável da música, que nos enternecem – a amizade e a música - como o kitsch mais vulgar.
O guionista e realizador Thomas McCarthy, apresenta-nos pois um argumento recheado de temas interessantes e didácticos que explicitam várias visões sociais e culturais da sociedade americana, como os ideais antagónicos de xenofobia e abertura internacional. Todavia, sinto que o que importa verdadeiramente neste filme é a perspectiva psicológica e vanguardista sobre a amizade – que se sobrepõe aqui à mentalidade pós 11 de Setembro de desconfiança aterradora dos ocidentais diante de tudo o que sugira mundo árabe -, sobre as diferentes formas de procurar novos prazeres na vida e, sobretudo, sobre a pertinência de um novo começo vivencial, a que todo o ser humano tem direito na sua busca que deve ser incessante de felicidade.
Para terminar, não podia deixar de realçar esse enorme vulto da representação (outrora escondido em papéis secundários) que é indubitavelmente Richard Jenkins.
rodriguez 2009



The Visitor
Realização: Thomas McCarthy.
Elenco: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Gurira, Hiam Abbass, Marian Seldes, Maggie Moore, Michael Cumpsty.
Nacionalidade: EUA, 2008.

Domingo, 4 de Outubro de 2009

Terça-feira, 8 de Setembro de 2009

AS MINHAS MELHORES

Não terá sido sensato limitar a lista de músicas de uma vida a 10, pelo menos a avaliar pelos comentários... eu próprio posso afirmar que foi terrível chegar a uma triagem de 26 músicas, das quais tive que eliminar mais 3 para chegar a umas razoáveis 23 (o número 23 é meramente casual). Daqui, tentei da forma mais justa possível elaborar o meu top-ten, se bem que olhe para ele e me venham à cabeça outras faixas que me fazem sentir extremamente injusto...
Em suma, apresento as minhas 10, consensuais ou não... é um risco que se explica pelo carácter pessoal da escolha. Muitos não concordarão, mas estou certo que todas as faixas incluídas têm um significado especial que é só nosso e que por isso legitima a sua preferência.

Top-ten:
David Bowie, Rock’n’ roll suicide
http://www.youtube.com/watch?v=9jg4ekLG9Zo

Radiohead, Paranoid Android
http://www.youtube.com/watch?v=sPLEbAVjiLA&feature=fvst
New Order, Blue Monday
http://www.youtube.com/watch?v=1BL-JCM8uMk
The Rolling Stones, Sympathy for the Devil
http://www.youtube.com/watch?v=zuTiTfbfy7Q
Serge Gainsbourg, Jane Birkin, Je t’aime… Moi non plus
http://www.youtube.com/watch?v=YL3MWmsWR_k&feature=related
Oasis, Don’t look back in anger
http://www.youtube.com/watch?v=r8OipmKFDeM
Cousteau, Black heart of mine
http://www.lastfm.com.br/music/Cousteau/Nova+Scotia/Black+Heart+of+Mine
Nick Cave and The Bad Seeds, Stagger Lee
http://www.youtube.com/watch?v=nssw909H8xE
Pixies, Where is my mind?
http://www.youtube.com/watch?v=4zP1IjgSO_E&feature=related
Joy Division, Atmosphere
http://www.youtube.com/watch?v=ZNoUi0mpBOc


Lado B:


The Beatles, Hey Jude
http://www.youtube.com/watch?v=BD3ovfZXO5Q
Iggy Pop, Lust for life
http://www.youtube.com/watch?v=jQvUBf5l7Vw
The Cure, Close to me
http://www.youtube.com/watch?v=MIDeUssDFE0
Frank Sinatra, My way
http://www.youtube.com/watch?v=8L1sg7RImyM
dEUS, For the Roses
http://www.youtube.com/watch?v=8Gj2MCf2G80&feature=related
Velvet Underground, Sweet Jane
http://www.youtube.com/watch?v=TN7pt6VWUts&feature=related
The Verve, Bitter Sweet Symphony
http://www.youtube.com/watch?v=1lyu1KKwC74&feature=related
Nancy Sinatra, Theese boots are made for walkin’
http://www.youtube.com/watch?v=yRkovnss7sg
Leonard Cohen, Hallelujah
http://www.youtube.com/watch?v=ttv5dyvtF4o&feature=fvst
Placebo, Bionic
http://www.youtube.com/watch?v=7B2C4RXORpU&feature=PlayList&p=2B1FC6A69B271443&playnext=1&playnext_from=PL&index=35
The Sound, Total recall
http://www.youtube.com/watch?v=70M5fR_8NtE&feature=related
Tindersticks, Marbles
http://www.youtube.com/watch?v=5ywm5rSnlSs
Flaming Stars, A Hell of a Woman
(sem link disponível)

Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

AS MELHORES DE SEMPRE

Clássica, jazz, pop, rock, trip-hop, dance, alternativa... as melhores faixas de sempre podem variar naturalmente de pessoa para pessoa. Relativamente a este tema, há muito que ando para publicar aqui a minha lista das 10 músicas de uma vida, mas o que é certo é que a indecisão entre colocar uma ou outra e acabar por ser injusto tem-me feito hesitar e meditar mais um pouco. De qualquer forma o meu top-ten está quase pronto e um dia destes coloco-o aqui para quem quiser consultar e deliciar-se.
Até lá estou aberto a sugestões, não vá eu esquecer-me de algum vulto incontornável. Comenta, amigo e deixa o teu voto. Não é preciso ligar para aqueles números começados por 800 e qualquer coisa, nem se paga sequer...

Segunda-feira, 17 de Agosto de 2009


Caminho ausente sobre o fogo do presente
Pisando folhas azuis onde cairam chuvas salgadas naquele tempo de sol rosado
A silhueta que segue curvada é rainha do nada, sempre solta, sempre aguda
Escavando na alma chagas e no peito grutas sem fundo
Este mundo.
A beleza é finda, o fogo extinto
Certeza fugidia
Evadiu-se a alegria sadia
Como aquela visão que tive um dia
Eis a presente cegueira.
Porque é o pesar que me conduz pelas chuvas azuis
Folhas salgadas afundam-se em pauis
De afagar ânsias moribundas
Melancolias profundas.
Sentado olho o telhado de uma casa que já foi feliz
Daqui não vislumbro a raíz
Fantasma sigo. Sombra.
Baloiçante na espuma dos dias. Amanhã. Outro suspiro.
A amarga fé em renascer persigo.
(Rodriguez2009)

Domingo, 12 de Julho de 2009

Optimus alive, dia 2


PLACEBO DE EFEITO RÁPIDO
Este festival tem muita publicidade, boa situação geográfica na capital, uma organização satisfatória para eventos do género, mas falta-lhe qualquer coisa… Confesso que não foi o que esperava. Seja porque não disfrutei do concerto dos Placebo conforme as expectativas por haver uma péssima visibilidade, mesmo furando para o meio da turba; seja porque os concertos foram curtíssimos (pelo menos foi essa a impressão com que fiquei).
Demasiadas bandas, horário demasiado alargado, um terreno em frente ao palco principal que parece descer na direcção traseira, daí a péssima visibilidade do palco, mesmo estando-se atrás de pessoas mais baixas… ou então, um palco mais baixo que o habitual. Seja como for, foram 50 euros vezes dois, mais 65 de gasolina, mais 35 de portagens, mais um regresso de cabeçadas no volante até ao Porto…300 km duríssimos… Tudo isto para ver, em condições precárias, pouco mais de uma hora de Placebo…
Mas a banda de Brian Molko actuou à sua (nova) imagem. Tiveram momentos muito bons e à altura do que esperava. O substituto de Steve Hewitt é mais jovem e enérgico, os músicos contratados dão uma nova dimensão à banda e as faixas do novo “Battle for the sun” são revivalistas nos acordes veementes das guitarras. Menos electrónica no ar, um regresso às origens em termos estéticos, mas uma maturidade crescente, até na pose mais sóbria de Molko. O belga aparece agora menos travestido e mais másculo nos movimentos e na postura. O rock é mais puro e vibrante, se bem que a marca punk-glam dos Placebo esteja visível, quer nas letras, quer mesmo nos acordes.
Em suma, uma emoção grande vê-los ali depois de 300 km e 200 euros fora do bolso, pela primeira vez, depois de anos e anos a esperar. Mas uma emoção também ela sóbria, porque afinal eles nem sequer foram cabeças de cartaz, mas principalmente porque as condições e o tempo de actuação não foram o que se esperava. Não tocaram “This picture”, nada do 1º album; pouco do segundo; nem sequer “Slave to the wage”! Do novíssimo, também ficaram no bolso o excelente “Kings of medicine” ou “Bright lights”. Em suma: Placebo fica para uma próxima, enquanto isso, há sempre o Lcd com as colunas a bombar.