sábado, 21 de junho de 2008

Saudade


Volta espuma negra que consome o peito agora lembrado do passado ofuscante e sufocante onde pássaros negros de cores rosadas dançam por colinas que são sábias que são altas próximas do além uno
E o sentimento de saudade a saudade sempre quente mas esquecida da
(felicidade efémera e melancólica)
Sempre serei esgar dessa espuma vulto curvado oriundo da terra que é feita de mágoa dobrada de água Olho perco a olhada num tempo eterno de madrugada nocturna e soturna sentindo o fundo do peito cada vez mais perto porque aberto desperto ameno calor noite de amor esquecida na lua perdida
A vida que fura por entre devaneios obtusos dormentes gestos sonhos lestos
Arestas de amor feitas de letais vértices de dor amargo vaguear
E à noite durmo por entre pontos curvos pintados sonhando ter encontrado enfim
Assim
Como este som grave autocarro de almas que não querem ficar aqui
Neste tempo
Tormento
Lento
Volta.
(rodriguez Maio 2008)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Crise

A crise faz-nos vaguear por uma existência limitada em termos materiais, obviamente; atormenta-nos o sono e as horas imensas de trabalho, que se arrasta até a um quase pôr-do-sol que é uma vaga de ar fresco ao fim de mais uma jornada onde tudo parece cinzento, repetitivo, rotineiro ao limite. Rotineiro porque não parece haver esperança.
O maldito crédito subprime americano, que é indissociável da hedionda subida das taxas de juro e da baixa dos mercados bolsistas que conduz ao aumento brusco do preço do petróleo, alterou toda a economia mundial. Este claro sinal da globalização imposta progressivamente pelos americanos é paradigma de uma nova ditadura que, apesar de tudo, nem é capaz de chegar aos países produtores de crude, cuja flexibilidade na oferta desse produto é como se sabe limitada. Daí a subida desenfreada do ouro negro.
Sem querer entrar em teorias políticas para as quais não creio ter vocação, sempre considero a globalização um factor de desagregação, não só cultural, mas também económica. Porque a liberdade comercial sai claramente afectada nesta dependência dos mercados americanos, como se uma peça de dominó caísse e fizesse desmoronar todo o resto. Enquanto português e europeu, sinto-me obviamente condicionado pela americanização do mundo onde vivemos, onde os mais poderosos ditam leis. Aquele adormecimento de que falava no início do texto é resultante do fenómeno anterior. Tudo é monótono e previsível, como se o nosso planeta fosse uma laranja mecânica onde tudo funciona em aparente harmonia. Aparente, sim, apenas. Estamos cada vez mais próximos da realidade profetizada pelos irmãos Wachowski, onde o ser humano é controlado por uma máquina que, neste caso, é uma máquina humana e de interesses económicos. Será a mente humana capaz de se libertar da opressão do tédio americano? Creio que sim, porque é uma mente complexa e inventiva, que passa por estados de adormecimento para depois acordar e se revoltar. A história prova-nos isso. A crise será fugaz também, acredito.
Portugal, pobre país da fragilizada Europa, sofre. Sofre porque a gasolina é mais cara do que em Espanha enquanto o salário mínimo é mais baixo. Que destino cruel este de um povo que parece ter a vertigem do sofrimento, o fado que também se arrasta pelo tempo fora. Já senti muitas vezes que teria sido benéfico para nós se essa mesma história nos tivesse conduzido a uma ausência de D. Afonso Henriques, a um país-potência que teria sido a Península Ibérica. Mas depois penso numa identidade que é de facto forte dentro da sua fragilidade. Portugueses são homens bravos que lutam pela vida como guerreiros cujo poder é incerto porque sofre com circunstâncias adversas. Lembro-me de palavras proferidas por génios lusos, desde Pessoa até Virgílio Ferreira ou Sophia. E sinto algo cá dentro, como quando se ouve o hino num campo verde rodeado de uma turba embalada pelo sentimento patriótico. Acredito que esta nossa capacidade de sofrimento, espírito de sacrifício é um dom tão belo como o fado. A bonança virá, só pode vir.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Mais Música

PLACEBO
Almas gémeas que perduram
Lembro-me de ouvir Nancy boy pela primeira vez por volta de 96 ou 97, no Bergantim, ou Bergas para os clientes habituais, aqueles que se recolhiam de mente abafada às 9h da matina, depois de uma noite por entre fumo de tabaco (?) e vodka, whisky, cerveja, Smiths, The Cure ou Depeche mode. E soou-me muito bem, aquele rock frenético de acordes neo-punk, a lembrar Pixies. Aquela voz feminina agreste de um Brian Molko ainda na fase declaradamente andrógina e travestida. A agressividade dessa voz “caprina” (perdoem-me a analogia) que arranhava a guitarra vibrante do próprio e o baixo de Olsdale, entrando-nos pelos ouvidos num ritmo a suscitar movimento depressivo, numa dança decadente e voluntariamente pessimista e underground.
Há quem o apelide de emo, mas o que é certo é que Molko quer afundar-nos na coqueterie e no glamour do seu rock de nuances pop e atmosfera obscura e depressiva, criando paralelamente ambiências de um romantismo subtil e claramente noctívago, que se funde com bares nocturnos de Londres ou chama a si um revivalismo da cultura Hacienda do início dos anos 80.
Como eu dizia, ouvia Nancy boy, e depois Teenage Angst, e perguntava-me como era possível criar sonoridades rock de tal forma agrestes e ao mesmo tempo voluptuosas e vibrantes. O purismo da voz e da guitarra de Molko em fusão com um baixo proeminente (nunca um baixo teve tal presença) de Stefan Olsdale, a criar faixas de ambiências pop-rock-punk de vertigens electrónicas: tem sido assim a carreira dos Placebo desde que foram criados em 1995 por um belga (Brian Molko) e por um sueco (Stefan Olsdale).
Apesar da associação a Londres, Os Placebo gostam de ser reconhecidos como uma banda europeia. Na verdade, os três elementos iniciais incluíam ainda o suíço Robert Schultzberg, que depressa daria lugar ao britânico Steve Hewitt. De resto, têm vindo a conquistar fama mundial à medida que vêm lançando álbuns de originais. “Without You I’m Nothing”(1998) vem consolidar um estatuto de banda referência do rock alternativo dos anos 90, já atingido com o álbum homónimo de 1996. Este trabalho prepara ainda os seguidores Indie para uma evolução - que já se vislumbrava no obscuro Pure Morning - por caminhos electrónicos que vão dar a “Black Market Music”(2000) e aos albuns subsequentes.
Além da componente electrónica, o terceiro álbum de originais oferece faixas de um rock progressivamente pacificado, de riffs inicialmente agressivos (Days before you came), posteriormente muito pop, e de letras sobre histórias de traumas sexuais de infância mescladas com clichés do mundo contemporâneo. Slave to the wage lembra Sonic Youth e até mesmo Joy Division, mas tem uma dinâmica e um ritmo muito próprios, seguindo uma cadência que impele para a dança, para a adrenalina pura.
“Sleeping with ghosts ”(2003) oferece-nos algumas das mais excitantes faixas pop do início do milénio. This Picture é o ícone do romantismo kitsh que se abateu sobre a banda. Mas a electrónica continua lá, e sairá vencedora em “Meds”(2006), talvez o melhor álbum de uma banda que soube manter uma coerência evolutiva inteligente, um pouco a lembrar o percurso de Depeche Mode.
Ouço hoje Placebo com o mesmo fascínio e entusiasmo do jovem estudante que procurava e descobria bandas independentes nos tempos de faculdade. Porque o tempo passa, mas há coisas (boas) que ficam. Placebo é uma delas. As almas gémeas perduram.
Rodriguez (Maio 2008)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Parágrafo (conto)

Maria sabia que não podia utilizar mais palavras para convencer o pai que dera abrigo àquele pobre homem porque ele estava encharcado e com aspecto muito decadente e frágil. O pai era muito severo, tinha a aura dos líderes incautos, ditadores caseiros que ferem com um simples olhar. Maria temia as represálias. Silenciou a voz suplicante mas terna e irradiante de honestidade. Era tarde, ele até estava fatigado pela faina da liderança rústica. Então ela respirou fundo e enfrentou a hora com coragem. Era uma moça consciente da responsabilidade com que a vida a tinha marcado. Enquanto mulher-divindade, tinha a castidade mas o furor da juventude, era humana, era carne e isso é um fardo. O mísero vulto que batera à porta seria a representação de um mito, o pedinte desprotegido, banido pela classe social que vagueia mais ou menos à toa pelos amargos e incertos ramos da planta mestra de tudo o que existe. Procurava talvez a torre onde tudo é decifrável, de rosto maleável e gasto pelos caprichos das horas. Bateu, de um bater incerto e forçado pelo instinto. Ela abriu, num movimento veemente e ardente, ansiando por Primavera. A máscara do pobre aparente homem caíra no preciso momento em que disse algumas palavras desarticuladas. Maria entregou o seu olhar àquele coração. Suspirou e lamentou interiormente sua sorte. O amor é um sentimento traidor, porque não tem condição nem princípios. O homem temia ter encontrado a morte naquele dia de atmosfera sombria. Desejou-a como quem deseja uma mulher voluptuosa e susceptível. Era a sua salvação. Mas Maria era vida. Entrou a pedido dela. Falou-lhe do seu destino de infortúnio e dor. Amor, nunca tinha conhecido, porque soube cair no seu estado marginal com competência. Nenhuma mulher alguma vez olharia para ele sem o sentimento da piedade. Bebeu um café que cheirava a rosas secas e ao sorvê-lo sentiu uma doce pulsação que podia entreabrir naquele instante as portas ao amor. Bastava um olhar terno. Mas o olhar não chegou naquela fracção de segundo. O Acaso, sempre leviano, impediu de forma descarada o florescer desse sentimento tão ardente quanto letal. A competência venceu mais uma vez. Mas a sorte é efémera. Um dia o mendigo seria vencido. Talvez pelo amor. Talvez pelo Acaso.
(27 Jan. 2008)

terça-feira, 13 de maio de 2008

FINALMENTE FALO DE MÚSICA...

Descobri Cousteau há uns anos quando um amigo, que não era propriamente um fã da vida submarina, falava muito nesse nome. Os Cousteau são uma banda londrina cujo primeiro álbum, homónimo, data de 2000. depois do abandono do compositor Davey Ray Moor, a banda é composta basicamente por 3 elementos: Liam McKahey (lyrics, vocals, percussion), Robin Brown (guitars) e Joe Peet (bass guitar, violin).
Quando se ouve faixas como Last good day of the year (Cousteau, 2000) ou Nothing so bad (Sirena, 2002) sentimos uma cumplicidade e um aconchego de alma que nos faz sentir bem sendo pessoas tristes. O Romantismo não é propriamente uma doença, antes um estilo nublado de sentir emoções fortes, uma forma de encanto etéreo que nos transporta ao limite da essência humana. E o Romantismo está na voz grave de McKahey como em nenhuma outra, voz cuja essência é whisky misturado com cigarros, é melancolia nocturna de desilusões turvadas por uma ânsia de novo amor. Black heart of mine (Nova Scotia, 2005) (sim, o nome deste blogue foi tirado daqui…) é a música do ano (2005), melodia épica que se transforma em música pop de matizes rock. A soberba guitarra de Robin Brown atinge patamares arrepiantes e, pese embora as devidas diferenças, as mutações da faixa quase lembram Paranoid Android (Radiohead). De resto, é notória uma viragem em Nova Scotia relativamente aos trabalhos anteriores, mais intimistas e acústicos, onde a voz de Liam McKahey se impunha como elemento proeminente. Nova Scotia cresce em teclas e bateria, como escurece nas letras, tornando-se um álbum claramente mais eléctrico e ao mesmo tempo mais obscuro do que os anteriores.
Cousteau tem tanto de Tindersticks como de David Bowie, de Burt Bacharach ou mesmo de Nick Cave, numa música a lembrar cortinas de rosas nubladas que tapam janelas de dias cinzentos e melancólicos. Hei-de falar aqui de Tindersticks, sim Senhor, mas para já começo esta “página musical” em grande, com uma banda marcante que aconselho vivamente.
Black Heart Of Mine
Sunny arid noon
It's the kind of day
That makes you pay for believing
In love
I can only ruin
Can the devil see
What's inside of me
How long can it be
I’ll see him soon
There's no fight left in me
I long for the touch of a valkyrie
But no heroe's feast is waiting down below
This blackheart of mine
Is stained beyond redemption
But I'm hoping your love will shine
And you'll make this one exception
Forgiving and divine
That is your reputation
But you're taking your time
Regarding my salvation
Cold lonely moon
Shines the kind of light that makes the night
Seem so evil These voices in my room
The whispers tell
Of an empty shell
Where my soul did dwell
Now the darkness looms
(Cousteau, Nova Scotia)

sexta-feira, 9 de maio de 2008

COUPLING

PARA OS AMANTES DE SEINFELD...
Coupling é hilariante no criar de situações a partir das complicadas relações entre os casais. O sexo, o amor, a insegurança masculina e a leviandade feminina mesclada com uma sagacidade relativamente ao sexo são aspectos muito bem tratados num jeito bem britânico de fazer humor. Não se pense que se trata aqui do típico humor inglês de Monty Python, por vezes rebuscado ou “erudito”. A série é um desfilar de personagens e situações modernas bem à maneira de “Seinfeld”, por vezes meio patetas (não tanto como em Seinfeld, sabemos como os americanos são imbatíveis na patetice…), mas sem dúvida inteligentes e corrosivas.
Jeff é uma espécie de fusão britânica de um George Constanza e de um Kramer, apesar das diferenças físicas relativamente ao primeiro: os seus caracteres têm muito em comum na insegurança perante o sexo oposto (Jeff-George), numa maturidade bem típica de uma criança de 10 anos (Jeff-Kramer-George), na versatilidade enquanto personagens puramente cómicas de gestos bizarros (Jeff-Kramer). De resto, poderíamos encontrar paralelo em algumas outras personagens de ambas as séries. Mesmo sendo fã incondicional de Seinfeld, considero Coupling mais inteligente. Pena que se tenha ficado, segundo sei, pela 4ª série, isto apesar de considerar que as últimas séries de Seinfeld estão gastas e claramente forçadas.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

LOST

A série tem os ingredientes ideais para cativar a atenção de um espectador cansado das imagens actuais carregadas de tecnologia informática e de labirintos de investigações. Uma ilha paradisíaca onde parecemos mergulhar como numas férias impensáveis. À partida tudo parece entretenimento. Puro. Mas não é só. Está lá o imaginário de Júlio Verne, mas está muito mais. Está mistério, um mistério que parece indecifrável, mas que causa vertigem à medida que os episódios avançam em catadupa. Está lá essa fantástica técnica da analepse aplicada ao cinema em estilo de flash-back, utilizado em Lost com mestria e de uma forma inovadora, cruzando-se inclusivamente com os flash-forwards. A mistura resulta bem quando não é exagerada.
A 1ª série foi a melhor. O mistério e o suspense estavam em índices máximos, porque tudo era possível, todas as hipóteses pertinentes, mas logo improváveis, porque afinal nada se sabia de concreto acerca da ilha. As personagens muito boas. Jack é o herói romântico, cuja queda pelo abismo lhe dá o encanto dos grandes heróis imperfeitos. Locke é complexo dentro da sua instintiva sede de sobrevivência, tem um charme e uma postura que lhe garantem uma presença muito forte na série. Os outros, todos desfilam nas suas histórias de encontros e desencontros, almas que estavam perdidas na vida do mundo cosmopolita, onde toda a comunicação é possível; que se encontram a si próprios e aos outros na ilha, numa forma de comunicação primitiva que realça a sua essência verdadeira.
Desde X-Files que não via uma série que me entusiasmasse tanto. Na verdade, os últimos tempos têm sido perdidos na série e sinto-me agora perdido. Porque os episódios da 4ª série estão a chegar ao fim, mas principalmente porque ela entrou num compassar lento e desinteressante. Os episódios arrastam-se entre flash-backs e flash-forwards cruzados ao extremo para confundir o espectador menos atento. de resto, o exagero das analepses e prolepses serve claramente objectivos comerciais. Em termos de argumento, nada de novo, tardam as revelações e cada vez mais é notório que essas revelações são previsíveis.
Para quem nunca acompanhou a série, aconselho vivamente porque suplanta de longe as séries sobre médicos e hospitais preferidas (começam a faltar doenças para o Dr. House tratar) dos espectadores. Mas previno que a excitante viagem ao desconhecido só dura até à 3ª série. Depois… é para os fãs se despedirem sem que fique a sensação de vazio.


segunda-feira, 21 de abril de 2008

Pinto Da Costa e a democracia no futebol (crónica)


Lembro-me da forma como sentia as vitórias e as derrotas do FCP em criança. Vibrava como nenhum outro portista. Ficava eufórico quando o FCP ganhava. Chorava por dentro quando perdia, os dias a seguir às derrotas eram penosos... o FCP era quase uma doença que, ora era vibrante como uma febre positiva, uma espécie de ópio que dá moral, confiança, grande "élan"; ora abatia, fazia cair no fundo como numa depressão sonolenta e negra que nos oprime.
Era sempre assim. Poucas outras coisas me afectavam tanto como o meu clube de sempre. Ainda recordo o dia em que me tornei portista: era muito pequeno, não gostava de futebol, detestava mesmo, porque numa época em que a televisão ainda era um fenómeno emergente, um objecto raro, os desenhos animados faziam as delícias dos mais pequenos, e eu não era excepção. O futebol, quando aparecia, estragava esses momentos. Até que um dia... lembro-me que jogava uma equipa vestida de branco listado vertical escuro, não sei se era azul, porque a televisão era naturalmente a preto e branco. Não sei que jogo era, hoje creio que terá sido uma partida das competições europeias. Lembro-me de ver um guarda-redes fabuloso a fazer uma defesa a punhos e a ficar lesionado, largos minutos no chão. Aquele episódio marcou-me, não sei bem porquê, e o meu gosto pelo futebol tinha nascido ali, o meu clube para a vida estava encontrado. Ah, o guarda-redes era o Zé Beto...
Hoje sinto um enorme regozijo e um orgulho incomensurável por ter tido a sorte de, num zapping entre a RTP1 e a RTP2, cair naquele jogo. Não interessa quem era o adversário, nem o resultado (até creio que o FCP perdeu), apenas o momento feliz de ter encontrado um clube que até aí era um desconhecido. Os grandes amores nascem assim.
O FCP acaba de vencer mais um campeonato ou "Liga", e foi um campeonato fácil no campo mas difícil fora dele. Neste país de invejas e sentimentos mesquinhos, existem lobbies e jogos de influência a empurrar o povo para ideologias singulares, para o clube do regime. Sempre foi assim. Para os mais amnésicos ou desconhecedores convenientes da história do futebol em Portugal, recordo as décadas em que o SLB era empurrado pelos Calabotes da arbitragem e pelos Salazares da política, enquanto o FCP era o bobo da corte, o bombo da festa... Não havia reclamações nem apitos dourados, porque o povo e a pressão da imprensa... esses, eram pelo "glorioso", o resto era conversa.
Bom, tempo chegou em que o bobo da corte se fez rei. e fez-se rei à custa de décadas de guerra pela independência, de luta contra a "ditadura". Nas guerras pela democracia, sempre existirão golpes menos éticos, mas a luta é por uma boa causa. Hoje fala-se do Pinto Da Costa e do saneamento do futebol português que tem que acontecer à custa dele. Esse saneamento é o regresso à ditadura, o processo é uma artimanha vil da comunicação social lisboeta que tem eco e apoio na população maioritariamente benfiquista. Por isso tudo é normal e aceitável. O Vieira é o patrono da "limpeza". Só que o Vieira esqueceu-se da mística portista. Esqueceu-se da classe enorme da equipa campeã. Esqueceu-se da organização ímpar de um clube de nível mundial, que ainda há bem pouco tempo arrecadou a Champions league. E o Sr. Vieira está a pagar pela sua conduta. Se Deus existe, ele não dorme, e o resultado está à vista.
Somos os campeões. Ontem custou-me ver a equipa do Benfica a arrastar-se pelo estádio do Dragão. Mas é o sinal dos tempos. O FCP manda dentro dos relvados. Perdoem-me os 6 milhões, mas... os gloriosos somos nós.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Os "meus" filmes

Quando comecei a entrar na atmosfera criada pelo filme, senti-me a vaguear no meu próprio mundo, tais são as cores pintadas na tela em que me revejo, o silêncio que amiúde me invade numa melancolia sonolenta e pessimista. Na verdade, Sofia coppola realiza uma película magistral quanto à criação de estados de alma adormecidos, solitários e incompreendidos.
Tóquio serve de ambiente perfeito para que as personagens se percam na tradução, na incompreensão da língua, no isolamento que é mais do que aquele do estrangeiro num país estranho. É o isolamento nas relações. Uma belíssima Scarlett Johansson é Charlotte, acompanhada pelo marido fotógrafo no Japão, mas abandonada pelo mesmo por questões profissionais. Vagueia pelo hotel até encontrar Bob (Bill Murray no seu melhor), um actor de meia idade cujas relações humanas gelaram. Ambos se arrastam “abandonados” à sua sorte, num lugar remoto onde o silêncio forçado corta a comunicação com o mundo humano “exterior”. Envolvem-se na sua tristeza e silêncios. Procuram o sentido para as suas vidas por entre sussurros e suspiros contidos. Amizade? Amor? A resposta é incerta e camuflada, como o ambiente.
O filme é uma espécie de sonho de contornos vagos. Um sonho onde ressaltam interrogações relativamente à nossa essência, ao nosso caminho a percorrer num mundo indecifrável, de respostas frágeis. A emoção galopa ao longo do longo suspiro que é a película, mas é um suspiro hipnótico e cansado, tendo como pano de fundo as cores garridas de uma Tóquio de néons nocturnos ou de suave pastel diurno. No final, o silêncio que se arrastou desde o início, a incerteza quanto ao desfecho que é a certeza do percurso escolhido, do sentido atingido.
O silêncio, o minimalismo dos diálogos contrastam claramente com a opulência da banda sonora, onde se destacam nomes como Air, My Bloody Valentine ou The Jesus and Mary Chain. De resto, “Lost in Translation” não é apenas a sequência do interessante caminho que Sofia Coppola está a seguir no cinema. Trata-se de um filme humanamente enriquecedor e tão tumultuoso quanto apaziguador. Absolutamente incontornável.

Lost in Translation
Realização: Sofia Coppola
Intérpretes: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris
EUA, 2003

quinta-feira, 17 de abril de 2008

Poema do retorno derradeiro

Bem sei que por mais que faça tudo o que faço
O negro é sempre a cor que reina
Cores invento com meus olhos que sinto ternos
Mas são cores pálidas num calor de Inverno
São cores tortas, distorcidas, mortas
Que só encontram corações que são de aço

Às vezes é alegre o meu andar
É desejoso de felicidade e flores festivas
É optimista nas horas da vigília ao serão
E quer saltar, quer sonhar, quer voar

Um dia sei que a tristeza vai voltar para ficar
Um dia sei que as cores vão fugir com os amores
Um dia sei que vou olhar para as minhas mãos de água
Mãos trémulas, ressequidas, chagadas de amargas dores
E vou chorar outra vez, vou sentir a solidão de outrora
Mas agora é para valer, agora chegou a Hora.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Os que são doutores e os que tiram telemóveis: a sociedade actual (artigo de opinião)

A atitude da miúda a "arrancar" o telemóvel das mãos da professora fez-me corar de vergonha e consolidar a ideia que há muito habita o meu entendimento: ser professor nesta espécie de país é pior que ser vendedor de areia no Sahara. Porque a areia é o que não falta no deserto e é uma areia gasta, seca, inútil. Um professor neste país, mesmo que seja óptimo, daqueles que fazem parte do nosso imaginário infantil, é um alvo perfeito para chacota.
Os professores encontram-se completamente expostos a uma sociedade que os criou aos milhares, a um governo que se verga perante as “ordens” dos doutores que só servem para diagnosticar gripes e receitar os brufens que mais lhes convém, pavoneando-se como alarves perante a vassalagem de um povo para quem só os médicos são dignos do título… Senhor Doutor, grande especialista… da treta, digo eu. O povo nunca ouviu falar do Derrida e da desconstrução, os doutores também não. Mas eles é que “ordenam”. Os professores são serventes da formação social, serventes em desordem, que já não servem para uma sociedade demasiado avançada em termos técnicos e científicos. A ciência é a prioridade maior deste governo. Veja-se a nova cara do site da DGRHE: um professor, mas de Matemática.
Foi a ciência quem trouxe os objectos da discórdia. Mas não foi com certeza a ciência portuguesa. Tudo começou com os ZX Spectrum, os Amiga; depois vieram os Nintendos, os Segas, as PlayStations e mais não sei o quê, e os telemóveis. Os telemóveis são objectos cujo relevo na vida do ser humano actual faz lembrar o Everest. Ninguém está sem eles, ninguém consegue sobreviver sem a sua privacidadezinha invadida. A aldeia global funciona a partir destes prismas rectangulares minúsculos, antes de se basear na Internet. A dependência deles, que vai muito além da sua utilidade – que é de facto muita – é uma questão real, mas uma questão que devia ser de adultos conscientes da primacia da máquina sobre o ser humano.
O Homem do século XXI depende mais da máquina do que vice-versa e a consciencialização deste fenómeno ainda não é uma dado adquirido, porque a evolução foi demolidora e não deu tempo ao criador para se preparar. É por isso que uma sociedade adulta mal formada ofereceu de bandeja o telemóvel aos seus filhos. O mau exemplo vem de cima, porque não existiram nunca regras claras da utilização de tais aparelhos.
Uma criança com um telemóvel na mão sente-se quase dona do mundo, porque adquire uma liberdade para a qual não está preparada e porque sabe que os pais lhe deram aquela máquina mais por vaidade do que por necessidade. Começa aqui o mau exemplo.
Os professores são pois entidades impotentes perante hábitos enraizados em casa. As crianças, quer queiramos quer não, continuarão sempre a ser um reflexo nítido dos seus progenitores, porque se revêem neles por questões biológicas e porque, em geral, o proteccionismo exacerbado faz parte da educação de qualquer bom pai que se preze.
As referências deturpadas alicerçadas em pais deformados pela sociedade de consumo criam nas crianças valores artificiais e estereotipados. O comodismo inerente à evolução económica e tecnológica fez perder-se no tempo valores humanos genuínos. Já não há humildade para obedecer a um professor como havia outrora – perdoem-me o saudosismo -, já não há o espírito de sacrifício que fez crescer grandes homens às suas custas. O consumismo colocou a Playstation onde antes havia uma bola de futebol num campo de terra negra. Era preciso sujar as mãos para a diversão, hoje suja-se a mente.
A evolução tecnológica é inevitável e útil, bem como uma democratização progressiva da educação, onde crianças têm o direito da crítica que não tinham outrora. Mas o homem actual falha em critério, falha em educação para a tecnologia, falha no abandonar de valores que já foram seus e na sua transmissão aos mais novos, falha no comodismo extremo que oferece aos seus filhos, falha na autoridade. Resultado: crianças providas de espíritos inquietos estimulados pela evolução têm falta de referências sólidas, adquiriram uma liberdade podre.
Muitos professores, à imagem dos pais, estão mal preparados para enfrentar o fenómeno. Porque foram abandonados e descredibilizados em praça pública pela carrancuda doutora ministra. Os pais encontraram nos docentes o seu bode expiatório, limpando a sua consciência de forma leviana. E os doutores continuam a receitar sem avaliação porque são poucos e bons (?) e não têm que tirar o telemóvel a ninguém.

sexta-feira, 28 de março de 2008

Romantismo Ultra


Lembro-me quando te vi naquele baile de estátuas
Rochas amargas que depois toquei em tuas mãos
Tua face era de cera lavada por água de rosas
E teus cabelos eram o fio da vela que ardia sobre ti
Depois vi-te dançar por entre os monumentos
Que foram felizes, tocavas em alguns deles
E sorriam, depois ajoelhavam-se
Já com auréolas de arco-íris
E morriam…
Tocavas sempre nos mais incolores e sombrios
Lembro-me de ouvir a melodia por ti encomendada
Era de glaciar luzente e fervente, das montanhas
Do esquecimento
Era de fumo azul-negro, de melancolia frenética
E o teu olhar…
Olhei o chão de pregos invertidos, caminhavas sobre eles
Olhei o céu da cor de chão de sangue…
Olhei enfim teus olhos
E vi o céu que outrora conhecera.

Lux. Jan. 2003

domingo, 23 de março de 2008

A Irmandade: Reflexo de Alma


Tu sabes que já cruzámos estradas distantes
Rimos na amargura, bebemos da fonte segura
Chorámos para nós, no silêncio da noite gélida.
Sei que a dor que foi tua, física, crua
Foi minha, de uma alma nua.
Quando te segurei em meus braços frágeis
Eles foram aço que ergue a glória, ontem, agora e sempre
Quando te sorri na tarde mais negra
Foi de tristeza, mas queria que visses esperança
Sempre criança, sempre a criança da minha lembrança.
Quando subtil, seguro, te vejo cumprir teu destino puro
Alegro-me, vejo as flores que pintas na Primavera.
Olho para trás e contemplo toda uma era.
Um tempo de vida colorida, cumplicidade jamais esquecida
Que perdurará no ocaso dos nossos dias.
Agora,
Mesmo quando pareço estar distante
Vejo-te seguir, qual estrela andante
Que guia o perdido caminhante.
E sigo-te, porque és o meu paradigma
Porque me habituei a contemplar-te como pedaço de minha alma
Irmão desta eterna caminhada.
Almas que seguem em frente, ora distantes ora sempre presentes
Onde um abraço e uma lágrima definem a amizade mais sábia.



Poema para o mais brilhante dos super-heróis, meu grande ídolo: João.

sexta-feira, 14 de março de 2008

Farol dissipado

Chega-se àquele porto onde
Já o Oriente é passado
Nada há a fazer agora
Que a ilusão está moribunda e
Teus olhos são o farol de uma terra distante
Impossível.
Tudo o que vai atrás são folhas de
Esplendorosos versos,
Mas já gastas, inúteis,
Uma poesia que não te encanta.
Vai,
Segue a mundana ilusão!
Se é isso que faz bater teu coração.

Oh, quem me dera poder admirar
Tua imagem maquilhada
Em vez de amar essa tua aura,
Esse teu brilho abrasador…
Que me acompanha sempre ao luar.
(Texto: Rodriguez; Foto: Rob Gonsalves)

quinta-feira, 13 de março de 2008

Os "meus" filmes

Corpse Bride
Corpse Bride (A Noiva Cadáverl) é um filme de animação em stop motion de 2005, produzido por Tim Burton e realizado por Tim Burton e Mike Johnson.
O argumento é clássico na sua fragilidade, valendo o filme pela atmosfera visual deslumbrante que consegue criar de raíz. As ambiências underground superiormente montadas adensam o clima romântico que se pretende juntar a essa atmosfera. De facto, "A Noiva Cadáver" continua a tradição de clássicos negros, ocultos e românticos realizados por Tim Burton, iniciada com filmes como "Eduardo Mãos de Tesoura".
Passado no século XIX numa vila europeia, "A Noiva Cadáver" é pois um filme de animação que relata a história de Victor, um jovem que vai parar a um mundo subterrâneo povoado pelos mortos e onde, devido a um juramento acidental, ele deve desposar uma misteriosa noiva falecida, enquanto a sua noiva real, Victoria, espera por ele no mundo dos vivos.
A história é baseada num conto popular russo-judaico do século XIX e é ambientada numa fictícia Inglaterra da era vitoriana. A rivalidade de classes é espelhada nos interesses de uma família aristocrata falida que tenta, através do casamento da filha, aproveitar-se de membros milionários da burguesia. De um lado, a classe e as maneiras, o bom nome e estatuto social; do outro, o poder do dinheiro, apesar das maneiras pouco educadas e mesmo grosseiras dos novos-ricos. Até mesmo aqui, o filme gera encanto e um ritmo à boa maneira dos filmes sobre diferenças e desigualdades sociais.
Tematicamente, acentue-se ainda a ideia de que o mundo dos mortos possui uma vida muito acima da dos vivos. Lá em baixo, tudo é colorido, alegre, festivo e irónico, enquanto que cá em cima reina o escuro, o taciturno, o protocolar e rígido e o jogo de interesses. Esta espécie de “monde à l’envers” reinventado pelo fantasista Burton serve uma perspectiva pouco romântica, porque optimista, relativamente à vida para além da morte. Talvez por isso o filme é tão divertido e cativante.
Uma certeza: o herói romântico Victor (voz de Johnny Depp – o actor fetiche de Tim burton) descobre que não há força neste mundo ou no próximo capaz de o afastar do seu verdadeiro amor.

Ficha técnica:
País: Reino Unido
Ano: 2005
Género: Animação, Fantástico, Comédia
RealizaçãoTim Burton, Mike Johnson

terça-feira, 4 de março de 2008

The Lie


March, 1982, Worthington, Ohio. A car rammed me from behind. I pulled over to let him pass. He got out. It was the guy from the party I just left, so I rolled down the window. "Hi", I said. He pointed the gun and cocked the hammer. "You lied, it's not your number."

(in Welcome to common Ties)

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Cave atmosphere


I was always in that cave under the death’s guardian tree’s trunk. Stuck by the bleeding roots in my ankles and wrists of tight branches. I would be soon a soul ramification; I would give wonder and spell to that murderer valley.
There you came and you were a flower… that demon tree doesn’t bear pure flowers, only buds which spout out fiery fervent blood, acid that corrodes flesh. Your silky petal’s white pierced through my timbered old heart and made him spout out that red-dark sperm which watered and changed you into the most beautiful ruddy rose ever dreamed. And so I painted your petals forever. And love ruled that valley for good.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Poema disperso na sombra da luz


4 Julho2006

A nau que vagueia à toa pelo mar ora brando ora encrespado sempre encontrou rochedos sangrentos camuflados que quase quebraram o seu casco frágil e delicado. Por um mar de encantos e desesperos, dançou pela vida fora, acertando passos e errando voltas… vida difícil onde as flores do amanhecer quase sempre murcharam e por vezes arderam ao cair da noite e do pó das estrelas.
Aí, na penumbra ofuscante, no ermo envolvente, o desabafo terno e pungente, amiúde dilacerante, espelhado em fios de letras. Em teias e redes onde alguém ia dançando e encantando a minha alma, distraindo-me do mundo da noite de trevas.
Solitário cavaleiro pela noite escura a cavalgar, comandante de uma nau à deriva no mar, sem porto, segurei-me com mãos cerradas às teias e às redes, tentando apanhar o simulacro dançante. Consegui e, embalado nessa doce melodia, vi a luz mais bela, a cujo destino pertenço.
Essa luz és tu, e eu quero esquecer a noite e seguir-te nesta Primavera feliz.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Os "meus" filmes


"City Lights" (1931)
Luzes da Cidade começa com uma espectacular e hilariante afronta à pompa e circustância e acaba com uma das imagens mais famosas de toda a história do cinema. A película é uma sequência de gags cujo eco aquece os corações e provoca as gargalhadas sentidas do espectador. Imagens enternecedoras e inquietamente românticas vão emocionando clamando por lágrimas de regozijo por uma alma humana que respira amor.
Charlie Chaplin desafiou as convenções com este “City lights”, porque já o filme mudo estava para trás e os sonoros dominavam o cinema. Fiel ao seu estilo, Chaplin deixa apenas a música e os efeitos sonoros na película. Talvez por isso, o filme tenha sido escolhido em 1998 para integrar a lista dos 100 Melhores Filmes Americanos de sempre elaborada pelo American Film Institute.
A história, que narra a tentativa do Vagabundo para encontrar o dinheiro necessário para uma operação que iria restituir a vista a uma jovem vendedora de flores cega, é pois repleta de emoções fortes e situações hilariantes. O Vagabundo transforma-se num homem do lixo, num boxeur, num falso rico, e no salvador de um milionário com intentos suicidas, milionário esse com uma “dupla personalidade” decorrente das suas aventuras alcoólicas com o herói do filme. Perante tamanha expressividade e talento de jongleur de Charles Chaplin, que paralelamente é argumentista de situações genialmente criadas, o filme não precisa de vozes para transmitir a sua mensagem, mesmo nos nossos dias. O Amor é cego e mudo.



Realizador. Charles Chaplin
Intérpretes. Virginia Cherrill. Florence Lee. Harry Myers. Al Ernest Garcia. Hank Mann. Charles Chaplin

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Dimensão aérea

Quando viajo de avião, dou por mim a pensar em como somos diferentes lá em cima. Lá em cima, não somos seres humanos normais, lá em cima oferecem-nos uma dose alimentícia que mais parece uma mini-bateria com sabor a hospital. Mas não é por isso que não me sinto um ser humano normal quando percorro os céus da Terra. Na verdade, é muito estranha a sensação de estar a voar numa dimensão que sinto não ser a dimensão humana. É uma luta contra a gravidade onde pareço fora do local onde tudo se passa, do lugar da minha infância e da morte dos meus pais.
Na verdade, tudo o que mais entusiasma o ser humano são trivialidades (vistas cá de cima), como entrar numa faculdade ou ver um jogo de futebol, assim como o que mais assusta nem é o reino dos porquês, o que existe além do nível das águas do mar, antes o facto de a filha chegar tarde da discoteca ou os latidos do cão. Tudo o que está cá em baixo, tão perto, tão óbvio, tão mesquinho e material. Vejamos: as estrelas do cinema e da tv estão lá em baixo, mesmo sendo estrelas. E sinto-me de facto num local que me seria inacessível à partida. Olho para baixo e vejo minúsculas casas e estradas que parecem irreais. Estarei mesmo lá em cima? Parece uma situação imaginária. Lá em baixo estão as pessoas com as suas alegrias e tristezas e amores, tudo o que importa na vida. Está tudo lá em baixo. Até as doenças e as tristezas e as traições. Lá está a vizinha com a sua casa arejada e os seus bibelots da sala sempre muito brilhantes. Para que serve aquilo, qual a sua importância e valor? Quanto valerá, visto lá de cima o Buda que tenho na sala? Sei que lá em cima não vale nada. Lá está também o meu professor de Teoria da Literatura da faculdade, com a sua sapiência brilhante como os bibelots, mas que não se vê lá do alto, da janela do meu avião.
Tudo parece muito pouco verosímil. Estamos ali, fora do mundo real, numa dimensão que nos parece, cá de baixo, inacessível. Mas é estranho verificar que toda a gente se comporta e reage como se nada fosse. As pessoas riem e falam e olham para o fundo do corredor em frente, quando o avião trepida. E comem as suas pequenas baterias em forma de pãezinhos minúsculos como os pratinhos que parecem para gatos. Tudo é leve lá em cima. A leveza não afecta os viajantes. Nem devem dar pelo facto de estarem noutra dimensão, preocupados que estão com as suas vidinhas, com os tios de França ou com a consulta do urologista. Tudo é muito pesado na mente deles. Tudo gravita. Como já muitos intelectuais do passado concluiram, o Homem é de facto um ser material, que não abandona a terra, porque inconscientemente o não consegue fazer.
E o avião aterra em Veneza e a leveza ficou lá em cima. Veneza parece um local de outro mundo e de outra dimensão. Acho que podia bem ser uma cidade aérea. Mas está cá em baixo, onde estão os bibelots.

domingo, 13 de janeiro de 2008

Atmosfera Cave


Eu estava sempre naquela caverna por debaixo do tronco da árvore guardiã da morte. Preso pelas raízes sangrentas em meus tornozelos e pulsos de ramos estreitos. Em breve seria uma ramificação de alma, daria assombro e sortilégio àquele vale assassino.
Mas tu chegaste e eras uma flor… aquela árvore demoníaca não dá flores alvas, apenas botões que brotam sangue incandescente e fervente, ácido que corrói a carne. O branco das tuas pétalas de seda trespassou meu coração de madeira envelhecida e fê-lo brotar aquele sémen vermelho-negro que te banhou e transformou na mais bela rosa rubra jamais sonhada. E assim pintei para sempre tuas pétalas. E o amor reinou para sempre no vale.

“A mulher tem isso em comum com o anjo:
os seres que sofrem pertencem-lhe” (Honoré de Balzac)

sábado, 15 de dezembro de 2007

Natal, Arte, Educação... (crónica)

Era uma vez um tempo lendário em que o Natal era uma época onde o Homem vivia a pensar que a magia era verdadeira. Chegada a quadra, tinha poderes para mudar um pouco o mundo onde vivia. Se acaso havia fome, pegava no seu poder para encher as mesas de alimento; se acaso havia doença, o poder mágico purificava o corpo. Durante o ano inteiro, o homem esperava por essa época de catarse, em que todos os males do mundo eram evacuados para um sítio recôndito, uma prisão temporária.
O homem não era contudo capaz de amaldiçoar e aprisionar a dor interior, a melancolia que lhe manchava o dia-a-dia. Então o Natal era triste. Foi triste até à descoberta da arte. Aristóteles viu um dia na arte um meio de purgar a paixão que lhe torturava a alma. Transportando esta linha para o contexto natalício, podemos então considerar que a arte passou a constituir um meio de tornar o Natal uma época pelo menos mais cromática e agradável aos sentidos. Avançando um pouco, satisfeitos os sentidos, a alma pode libertar-se e dar asas à sua alegria natural.
No presente, assiste-se a um fenómeno onde o homem já não tem poderes para apagar as doenças e a fome enquanto fenómenos globais, mesmo na sociedade civilizada. Preocupado ao extremo com as questões da guerra de poderes económicos, o homem acabou também por aprisionar nos confins da sua lembrança o dito lendário poder mágico para se purificar fisicamente e, mais grave ainda, para purificar a sua alma e, com ela, o mundo à sua volta. Por isso há fome, por isso há doenças, por isso há Homens infelizes…
Era importante que, do olhar de uma criança onde as estrelas cintilam quando ela abre o seu presente na noite de Natal, o homem pudesse retirar a chave que abre o cofre dos seus poderes ancestrais para mudar o mundo. Aí reside a verdadeira purificação da alma: tornar o Natal dos outros o mais feliz de sempre, oferecer uma história do passado ou uma imagem colorida, ou uma melodia suave e bela. Lembrar à família, o núcleo desta quadra, o quanto o amor é importante e o futuro pode ser risonho. A magia ou arte em estado puro, brilhante no olhar de uma criança, deve ser explorada pelos pais nesta quadra, para que o Natal possa ser todos os dias. Bom Natal a todos.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

Exaltação moribunda


Altivo e errante, sigo o eterno instante
Semblante de cobre, gesto compassado sobre
O trilho maldito que leva ao fado. Condenado.
Distorce uma chama
Na chuva que emana
Oblíqua e lenta
Tristeza avarenta, cinzenta e louca
Como o tempo que dorme ao sol do serão
São espadas lacadas
Docemente montadas
Em copas famintas de carícias aladas
Douradas cachopas
Que sangram licor
Demente semente que cresce ao calor.
Sem sabor.
A dor…
O amor…
O torpor.
Fim.
10-12-2007

domingo, 25 de novembro de 2007

Brincadeira sobre O Segredo

No outro dia, quando fiz anos, ofereceram-me um livrinho muito curioso que, ao que parece, é já um best seller do tipo “O código Da Vinci”. Quando olhei para ele, até fiquei contente, porque me pareceu, até pelo título, ser um livro do seguinte género:
- um romance histórico cheio de enigmas;
- um livro bem descontraído;
- um belo passatempo, literariamente despretensioso;
- a solução ideal para descomprimir e entreter um cérebro cansado;
- um livro cheio de curiosidades históricas e truques psicológicos para impressionar os leigos;
- o calço ideal para o móvel da televisão;
- uma cena fixe para ter na mesinha de cabeceira.
Falo do livro “O Segredo”, de Rhonda Byrne. Venho a saber que estava redondamente enganado. A minha esposa, muito dada a métodos psicológicos que, segundo os seus autores, conduzem as pessoas ao sucesso na vida, fez questão de me dizer que aquele era um livro que desvendava um segredo acerca do sucesso pessoal, algo do género “método Silva”, um método de sucesso inventado por um brasileiro chamado…adivinhem!. Ou seja, ao lermos aquele livro, ficaremos com a chave do sucesso, da riqueza e de tudo o que possamos desejar.
Que estranho. Então a menina Rhonda pôs-se a desvendar algo que podia fazer dela a rainha do mundo? É que neste mundo sem interesse não há nenhum Homem-aranha que a pudesse deter! Ela podia facilmente fazer de nós escravos de uma matriz inventada por si própria!...
Enfim… até compreendo, ela é uma bacana… quis partilhar o segredo com todos.
O segredo tem todavia falhas. Ela fala na lei da atracção, diz que se uma pessoa pensar com muita determinação em algo que deseja, focalizar um objectivo e pensar nele no dia-a-dia, sempre com pensamento positivo, esse desejo realizar-se-á. São as energias positivas a atrair coisas positivas. F…, esta m… só acontece aos outros! Ando eu para aqui há uns 8 anos a pensar que é para o ano que vou dar aulas, não penso noutra coisa e até agora o melhor que consegui foi ser insultado por um puto que ainda nem chegou ao 3º ciclo?!! Se calhar já é um bom começo e vou tirar o aspecto positivo disto, como deve aconselhar a Rhonda. Vou tirar… quando o encontrar… vou pensar nesse objectivo… todos os dias… hei-de conseguir…
Disse-me a minha digníssima esposa também – ela apoderou-se logo do livro e está a lê-lo – que não devemos enviar energias negativas aos outros, do tipo, um gajo qualquer no trânsito obriga-nos a fazer uma travagem e nós não devemos insultá-lo, porque isso virar-se-á contra nós. Epá, agora até tenho mais cuidado nisso. Ainda hoje, quando um gajo me ultrapassou pela direita, lhe chamei filho da… (a minha mulher tossiu) pátria, filho da pátria! E depois, os gajos africanos da Académica estavam a falhar golos contra o Benfica e eu chamei-lhes pretos de m…, de Moçambique! Pretos de Moçambique, foi isso! E até me senti melhor, pensei que isso ia dar sorte à Académica, focalizei, pensei nesse objectivo com muita força! O Benfica ganhou 3-1.
E lembro-me que no outro dia, quando estava a dar o Euro-milhões, pensei que o meu grande objectivo de vida era ganhar, acertar naquelas bolinhas e ficar milionário, porque a lei da atracção diz que quando se deseja muito, isso acontece. Desejei tanto, tanto… e só depois é que me lembrei que não tinha jogado. Eu ando a ficar maluco, até já chamo Octávio (em vez de otário) ao Luís Filipe Vieira! Epá, eu bem focalizo, imagino, desejo, volto a focalizar, mas o melhor que consegui até agora, foi focalizar bem de perto um poste na rua no outro dia. Ia a caminhar e a focalizar, a desejar, a imaginar, que não reparei no poste e parti a cabeça. Um gajo ia a passar e começou a rir, mas eu nem sequer reagi, só pensei: “olha, este senhor deve estar feliz por eu andar a focalizar objectivos de vida…”.
Fogo! O que é esta m…. do segredo, c….? Então um gajo anda aqui a cumprir uma data de cenas e regras e o c…. e esta m…. não resulta??? É só para os amigos, amiga Rhonda? O livrinho está mas é viciado ou o c…. Conclusão: quem escreveu este livro pensou, focalizou um objectivo. Esse objectivo era ficar milionário. Conseguiu. Quem comprou o livro é otá…Octávio, é isso! Foi o Octávio quem comprou o livro, o meu primo Octávio.

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Poema de Lord Byron

A uma taça feita de um crânio humano
Tradução de Castro Alves

Não recues! De mim não foi-se o espírito...
Em mim verás - pobre caveira fria
-Único crânio que, ao invés dos vivos,
Só derrama alegria.

Vivi! amei! bebi qual tu: Na morte
Arrancaram da terra os ossos meus.
Não me insultes! empina-me!... que a larva
Tem beijos mais sombrios do que os teus.

Mais val guardar o sumo da parreira
Do que ao verme do chão ser pasto vil;
-Taça - levar dos Deuses a bebida,
Que o pasto do reptil.

Que este vaso, onde o espírito brilhava,
Vá nos outros o espírito acender.
Ai! Quando um crânio já não tem mais cérebro...
Podeis de vinho o encher!

Bebe, enquanto inda é tempo! Uma outra raça,
Quando tu e os teus fordes nos fossos,
Pode do abraço te livrar da terra,
E ébria folgando profanar teus ossos.
E por que não? Se no correr da vida

Tanto mal, tanta dor ai repousa?
É bom fugindo à podridão do lado
Servir na morte enfim p'ra alguma coisa!...

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Aniversário

O Tempo dança na noite das mágoas
Como um companheiro traidor
volta a cada ciclo, em seu labor
em sua dor
É Tempo de voltar ao início
É Tempo de andar em frente
O Tempo, nome próprio, nada fictício
corrói a mente, consome a gente
Horas mortas, silêncios vivos
Ressoam a abrigos no monte da morte
Monte andante, que cresce no horizonte
e que um dia vem cair defronte.

15 Nov. 2007 (ano 33)

sábado, 10 de novembro de 2007

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Volúpia (Sonho VIII)

Nuvens de cordeiros
Irrompem pela aurora hedónica
Que desce pela gigantesca cascata
Da matéria adormecida
É o início.
Depois é o perfume abrasivo
Imenso
De azul e vermelho-fogo
O palpitar frenético já lá está
Elevação virtual.
Agora é o sangue que golpeia
Pelos olhos rasgados da serpente
Sangue espesso inexplicável
Talvez o licor paradisíaco
Das Deusas bebido.

E sinto o escorrer
Por minha face de água
Mil rosas vermelhas
Presente de Vénus.

Lux. 20/07/1997
02.30 a.m.

sábado, 3 de novembro de 2007


O desenho, forma de arte espontânea como as palavras... Traço de João Rodrigues.