segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

DIA 1: TINDERSTICKS




Os Tindersticks actuaram na Casa da Música

Dia de São Valentim, 23h, Casa da Música. A entrada para a sala Suggia processa-se a uma lentidão incomodativa. Os bares e locais itinerantes que a circundam a isso ajudam, mas os hábitos dos portugueses continuam a negligenciar uma pontualidade que devia ser herança dos nossos aliados de sempre. Ingleses. Tindersticks. Começam a actuar às 00h30, depois de um rapaz de voz à Dylan e guitarra afinada ter trauteado umas letras bem interessantes em ritmo que me lembrou muito Spain.
Os Tindersticks, como dizia, são bem ingleses, mas têm muito em comum com a alma mal fadada lusitana. A melancolia que é deles também é nossa, o pessimismo e a dor, sempre a dor amarga e soturna. Continuam como nos velhos tempos, talvez menos pessimistas, mas ultra-românticos na pose, clássicos nos arranjos musicais. As composições orquestrais luxuosas e extremamente elegantes só poderiam ter complemento perfeito na voz grave, soturna, aveludada, danificada pelo Whisky e pelos cigarros, de Stuart Staples.
Já referi neste blog que se ouve Tindersticks e se chora um destino romântico adverso, se cai na depressão e na melancolia. Mas é uma melancolia que é doce e macia. Um sentimento de orgulho na dor, na dependência do amor.
O concerto foi aquilo que esperava, nada de novo, nenhuma desilusão. Apenas o lamento pela ausência de vozes femininas como Isabella Rosselini, Ann Magnusson ou Nancy Sinatra, pelo silêncio de "Buried bones", "Jism" ou "Marbles". De resto, os Tindersticks intercalaram velhas faixas como "Dying Slowly", "Sleepy song", "She's gone" ou "Her" com praticamente todas as faixas do último Hungry Saw. Destaco "Yesterday tomorrows", "The flicker of a little girl" ou esse hino aos apaixonados que é "Boobar, come back to me".
No final, alguma mágoa pessoal pelo ambiente de quase adeus aos Tindersticks ao vivo, a emoção de "Tiny tears" e a conviccção de que a maturidade estará próxima, tão próxima como estiveram os cabelos grisalhos de Staples.
Belo dia de S. Valentim, sim.
(fotos Blitz)






quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

TÉDIO BOYS


Banda de Coimbra com uma história ímpar em Portugal. Apesar de não terem tido grande mediatismo a sua influência na música portuguesa é enorme, por ter gerado várias bandas como d3Ö, Wraygunn e Bunnyranch. Nasceram como um lado B da banda É Mas Foice
Começaram por tocar nas ruas da cidade de Coimbra, tendo sido expulsos pela polícia. Mais tarde tocam no palco da Queima das fitas, espetáculo que ficou marcado pela actuação em nudez dos seus elementos.
O nome da banda vêm, segundo o vocalista Toni Fortuna, do tédio que se vivia na cidade de Coimbra na altura.
O grande sucesso da banda fez-se nos EUA, onde fizeram várias digressões.
"Filhos do Tédio", é um documentário com cerca de 48 minutos de Rodrigo Fernandes e Rita Alcaire sobre o percurso desta mítica banda.
Actualmente, os vários elementos têm outros projectos. Toni canta nos d3Ö, Kaló está nos Bunnyranch como baterista e vocalista. O guitarrista Vitinho agitou Londres com The Parkisons e Paulo Furtado conhece o êxito com os WrayGunn e o seu projecto a solo Lengendary Tiger Man.
Wikipedia


Os Tédio Boys eram uma referência musical sempre presente quando vagueava por Coimbra em tempos estudantis. Espécie de bandeira cosmopolita de circuitos independentes da música coimbrã, constava que os Tédio tinham sucesso nos liceus americanos como ninguém, mas o que é certo é que a música estridente de cariz rockabilly da banda do actual Legendary Tiger Man ecoava pelas noites tertulianas de atmosfera mais freakItálico e pelas latadas que acabavam em Maio.
Recordo especialmente um concerto a que assisti no célebre (mini) auditório da AAC com o meu amigo João Paublita. Era, se bem me recordo, um dia de semana ao fim da tarde, ambiente até nada propício a esse tipo de eventos. Várias pessoas foram enchendo o auditório, não seriam mais do que umas 50, porque aquilo não levava mais.
Os Tédio Boys entraram como qualquer banda, mas a determinada altura lembro-me de cadeiras amontoadas no canto do auditório, outras ainda a voar para o mesmo sítio e o pessoal em saltos e gritos demoníacos, tal era o frenesim causado pelo som dos rapazes do rock. Ainda hoje recordo a metamorfose repentina que foi aquele micro-concerto, a dimensão gigantesca que de repente ganhou, com as janelas tapadas por caras ávidas para entrar.
E este é o melhor elogio que posso fazer à rapaziada que acompanhava um Paulo Furtado de pose serena e imperturbável, o único que mantinha a compostura.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cinema


DEAD MAN, DE JIM JARMUSCH

Dead Man (1995) é poético na sua fotografia, poético no seu enredo, poético na filosofia que transmite, poético na música, poético no idealismo transmitido pelo seu epílogo.
William Blake (Johnny Depp), um contabilista de Clevelend faz uma viagem, física e espiritual, a um território que lhe é pouco familiar, ao encontro de um emprego que lhe fora prometido numa dessas fábricas produto da Revolução Industrial. Estamos no oeste americano, algures na segunda metade do século XIX. Perdido e ferido, encontra-se com um índio solitário e excêntrico, chamado "nobody", que acredita que Blake é o falecido poeta inglês com o mesmo nome. Nobody e William Blake seguem juntos uma viagem por situações cómicas e violentas. Contrariamente à sua natureza, as circunstâncias transformam Blake num fora-da-lei perseguido, num assassino e num homem cuja integridade física é deficitária, como um cadáver que se arrasta ao sabor da amizade, à procura da paz só encontrada numa passagem etérea final, metaforizada na viagem de barco pelo mar.
Jim Jarmusch coloca o seu foco na mutação temporal entre dois mundos: uma América “índia” que se tranforma numa selva industrial que corrompe o homem. Atirado para um mundo que se revela cruel e caótico, os olhos de William Blake abrem-se para a fragilidade que define a esfera da vida, como se abrem para o valor do amparo das relações humanas e para as crenças num além intocável.
A presença do poeta e pintor Blake, apesar de aparentemente non-sense, é nítida nos cenários e na atmosfera obscura que rodeia o filme: planos de câmara parados, uma excelente fotografia de cenários americanos a preto e branco, um humor subtil e meio bizarro, amigos famosos do cenário underground a contracenarem num gosto musical igualmente underground e bizarro à mistura. Na verdade, a banda sonora do filme resume-se a acordes de guitarra eléctrica (Neil Young) por vezes violentos e sempre sombrios. Outros grandes destaques vão inteiros para um Jonnhy Depp verdadeiramente assombroso no papel de Blake e, faça-se justiça, também para Gary Farmer, personificação perfeita dos índios americanos.
A película pode ser um enfado para o mais comum dos espectadores, e na verdade, quando dei por mim absorvido pelo seu andamento, apercebi-me que nada de surpreendente poderia acontecer, todavia não conseguia parar de ver. Cenas muitas vezes paradas, sem foco de entusiasmo, mas que prendem como num transe hipnótico poderoso. Parece a vida inevitável a desfilar diante de nós, impotentes para a fazer parar ou alterar, apenas convictos da nossa integridade moral e da certeza da justiça final. A condição humana ao melhor estilo.

Jim Jarmusch (born January 22, 1953 in Akron, Ohio)
Filmografia:
Permanent Vacation (1980)
The New World (1981)
Stranger Than Paradise (1982)
Down by Law (1983)
Coffee and Cigarettes (1986)
Mystery Train (1989)
Coffee and Cigarettes - Memphis Version (1989)
Night on Earth (1991)
Coffee and Cigarettes - Somewhere in California (1993)
Dead Man (1995)
Year of the Horse (1997)
Ghost Dog: The Way of the Samurai (1999)
Ten Minutes Older: The Trumpet (2002)
Coffee and Cigarettes (2003)
Broken Flowers (2005)


terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Também este crepúsculo...


Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.

Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.

Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.

Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.

Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?

Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.

Sempre, sempre te afastas pela tarde
Para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.

Pablo Neruda

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

"Ela sorriu, e Ele foi atrás"

João Aguardela (1969-2009)

A rádio trouxe uma notícia triste pelo amanhecer escuro e frio, como uma naifa gélida a cortar corações aquecidos. Faleceu em Lisboa com 39 anos João Aguardela, artista na verdadeira acepção, criador de sonhos que são canções tradutoras de uma essência nova e ancestral.
Talvez o maior visionário moderno da música portuguesa, Aguardela trouxe-nos temas de uma portugalidade de metamorfoses cosmopolitas, sempre a misturar notas de guitarra portuguesa triste com o festivo acordeão, numa dança inovadora a absorver tendências universais. A evolução da música portuguesa.

Há muito que não acompanhava de perto os trabalhos do fundador dos Sitiados, mas sabia que estava ali, a ensaiar a dança da música pop, a contar histórias de tristezas saltitantes e fugidías.
Era adolescente quando ouvia a "Vida de Marinheiro", a "Cabana do pai Tomás" ou até "Vamos ao circo". Lembro-me de 2 concertos marcantes, na Figueira da Foz, onde Aguardela transpirava numa apoteose que era para mim a expressão do orgulho musical nacional. Na verdade, um casal como ele e Sandra Baptista (sua mulher) arrastavam o público para a farra, para a dança imparável, como que a desafiar as notas retrógradas do acordeão para ritmos pop modernos.
Depois veio ainda o projecto Megafone e A Naifa, sempre a inovar na defesa da Língua de Camões, das raízes que nos correm no sangue, a nós lusos.
Guardo o LP homónimo cuja compra me terá custado umas calças novas. Valeu a pena, porque o disco continua, perdura num gira-discos que conhece bem os Sitiados. E a Vida de Marinheiro continua pelo tempo fora, sempre alegre, sempre exaltante, a activar memórias, a contar histórias que são bem nossas.
Então, João, leva contigo o acordeão, porque o conheces como ninguém. Por cá, não posso deixar de cair no feliz cliché: "Os dias sem ti / são todos iguais / são estrelas sem brilho / são dias a mais".

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

TINDERSTICKS REGRESSAM AO PORTO


Os Tindesticks vão voltar ao Porto no dia 14 de Fevereiro. Excelente notícia para os namorados, que podem dar prolongamento a um jantar romântico dirigindo-se à Casa da Música para ver e ouvir um Stuart Staples cuja voz é veludo, mas um velúdo melancólico e pessimista. Mas não é assim mesmo o Romantismo?
Romantismo negro explícito e sem precedentes. É assim mesmo a música de Staples, que fez furor em circuitos mais independentes nos anos 90 e continua ainda hoje a encantar os mais sentimentais. Quem não se apaixonou por "Curtains", quem não caiu numa melancolia depressiva ao ouvir "Marbles"? Quem não deixou fugir uma lágrima ao som de "Let's pretend"? - Eu sim.
Já vi Tindersticks ao vivo em tempos de Coimbra, mas considero-a uma banda de espectáculo de interior, pelo tom intimista da sua música, pela atmosfera fechada e nocturna que consegue transmitir.
Vamos à Casa da Música ver os Tindersticks. Será um prévio agasalho, um aperitivo suave 24 horas antes da viagem à capital para os Oasis.

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

roma ed ameoP


Quando moribundo te vi sob teus cabelos
Que incendeiam noites amargas e soturnas,
Foi uma flor de néctar, vidrada
Num espelho onde mergulho como
Em água cristalina feita de prata.
Depois o feitiço em tua voz
É de doce encanto, a mais eterna
Melodia, aquela que faz
Adormecer os fantasmas necrófagos.
Ainda não consigo imaginar a tua face
Imagem longínqua, irreal, que não existe mesmo
Mas sei que as rosas que respiras
São o incenso melancólico que me alimenta.

Agora. Queria poder oferecer-te a mais bela
E delicada dádiva, aquela que pusesse um sorriso
Sincero em teu olhar. Que eu recordo a cada dia.
E que a tristeza jamais habitasse o teu gesto
E que as tuas mãos de veludo incandescente
Tocassem o meu coração até
Que a morte nos voltasse a unir…
Até que a infelicidade estivesse para vir.
Rodriguez (2004)

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A "doença" da bola


Venho aqui falar mais uma vez de futebol ou, como às vezes me dizem da "doença da bola", da qual eu padeço. Para falar de bola só podia falar do meu FC Porto que; contra ventos e marés, contra opiniões públicas e comunicações sociais que só vêem o Benfica e querem fazer dessa equipa o dream team do futebol mundial; que, dizia eu, continua - até contra as minhas expectativas - a fazer jus ao estatuto que consquistou de equipa de grande nível europeu. Vi este artigo, assinado por Cátia Gonçalves, no site de futebol "Relvado" e não pude deixar de me regozijar. Aí vai:


"Entre os muitos comentários que se vai lendo por aqui pelo relvado , de cada vez que se fazem artigos relacionados com o FC Porto e os seus jogos, um dos comentários mais frequentes tem que ver com o facto de internacionalmente toda a gente ver o FC Porto como um clube mafioso e de corruptos... ora muito bem, a revista francesa "So Foot", especializada em futebol, escreveu um artigo com o nome « O Furor do Dragão », e sem querer parecer muito religioso, rezava assim:

« Quando se pensa na Champions League, ou em futebol e benefícios, pensa-se no Real Madrid ou no Manchester United. É um erro. Existe um clube na Europa que, em dez anos, vendeu jogadores por cerca de 250 milhões de euros e que conquistou cerca de catorze títulos. Esse clube chama-se Futebol Clube do Porto ».

domingo, 7 de dezembro de 2008

Música


FLAMING STARS

(PARA ILUMINAR NOITES MORTAS)

Dei por mim a pensar em tempos antigos em que ouvia Flaming Stars e pensava em romance obscuro saído de uma disco underground. Os Flaming Stars são uma banda que me faz revisitar os tempos áureos de Nick Cave, mas num tom mais suave e romântico, sim senhor. Um som que afaga uma atmosfera alcoólica a irradiar amor por uma mulher noctívaga...
Noites de whiskies e paixões de leve trago amargo, um pouco a suavizar Tindersticks. Na verdade, as teclas e as maracas misturadas num estilo pós-punk e alternativo dos anos 90, tudo complementado com uma voz à Staples: estrelas flamejantes a soltar notas que encantam noites frias e sóbrias.
Quem gosta de Tindersticks, Bowie ou Cousteau, quem já gostava de Gallon Drunk (antiga banda de Max Décharné) facilmente se apaixona por hinos como Hospital, Heaven or Hell ou The Face On The Bar Room Floor. Ouçam, é bom.

The Band:

Studio albums
Songs From the Bar Room Floor (Vinyl Japan 1996)
Sell Your Soul to the Flaming Stars (Vinyl Japan 1999)
Pathway (Vinyl Japan 1999)
A Walk on the Wired Side (Vinyl Japan 2001)
Sunset & Void (Vinyl Japan 2002)
Named and Shamed (Vinyl Japan 2004)
Born Under A Bad Neon Sign (Big Beat, 2006)

Singles/ EPs
Hospital, Heaven or Hell" (Vinyl Japan, March 1995)
The Face On The Bar Room Floor" (Vinyl Japan, August 1995)
Money To Burn" (Vinyl Japan, December 1995)
Downhill Without Brakes (Vinyl Japan, May 1996)
Ten Feet Tall" (Vinyl Japan, December 1996)
Bury My Heart At Pier 13" (Vinyl Japan, March 1997)
New Hope For The Dead" (Vinyl Japan, October 1997)
The Day The Earth Caught Fire / Sweet Smell Of Success" (Vinyl Japan, April 1998)
Only Tonight" (Vinyl Japan, November 1999)
You Dont Always Want What You Get" (Vinyl Japan, January 2001)
One Lonely Night / Days Like This" (Alternative Tentacles, September 2001)
A Little Bit Like You" (Vinyl Japan, September 2002)
Spilled Your Pint" (Vinyl Japan, Bang! Records, 2004)
Stranger On the Fifth Floor" (Vinyl Japan 2005

Other albums
The Six John Peel Sessions (Vinyl Japan, 2000)
Tijuana Bible', (Nippon Columbia, July 2000) (Japanese release only)
Ginmill Perfume, (Alternative Tentacles, 2000) (North American release only)
Bring Me the Rest of Alfredo Garcia (Singles 1995-1996) (Vinyl Japan, 2003)
London After Midnight: Singles, Rarities and Bar Room Floor-Fillers 1995-2005 (Big Beat Records, 2006)

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

ANALEPSES DA DOR (PARTE 1)

I
E depois continuei a ter fome de letras belas como quando só se come uma vez por dia, porque sendo assim nem mesmo quem é rico consegue empanturrar-se com textos e mais textos que não são mais do que sopas de letras destemperadas, sem sal nem consistência.

Era muito pequeno e já queria ser grande, pensava que um dia seria
Como o astro da tv, porque tinha uma cara bonita e falava bem.
Mas sentava-me à espera, uma quimera, era o que era…
Brinquei com todos, até com a rapariga dos cabelos de ouro, que eram um tesouro. Sentia-me feliz porque, como qualquer petiz, gostava muito de jogar à bola. Marquei 3 ou 4 golos. Rematei mesmo com força. Acho que foram 3.
Saudade da bola.

Mas também quando era domingo ia à missa e ficava sempre cá atrás. O padre era gordo e consta que teve cancro na garganta. Mesmo assim continuava a falar. Mas não falava muito bem, porque as velhotas tinham os olhos parados. Quase fechados mesmo, só sabiam quando era para levantar. Eu não gostava de estar de pé. Só quando jogava à bola. Nunca ia tomar a hóstia, porque ficava colada ao céu da boca. Mas as velhotas iam. E algumas até aceitavam a hóstia com a mão.

Ia sempre presente à catequese ler textos muito pouco belos sobre Jesus. A catequista não era bonita, mas fui escolhido para ler na comunhão. Foi o padre gordo. Afinal foram 4.
II
Às vezes perco-me na bruma dos objectos que me lembram de uma estrela que via quando assistia ao programa a preto e branco. Era noite e havia água. Não era preciso ir ao encontro do medo que no escuro sussurrava ameaças mortais.

Uma lança no peito recebia no leito de farrapos. Artefactos de pobreza que nem sempre vinham para a mesa.

Mas até via estrelinhas quando fechava os olhos brilhantes secos de lágrimas vindouras. Porque raramente chovia neles. E quando havia chuva era passageira e sem substracto.

III
Sei que agora há horas que vejo douradas e horas que me fazem olhar para o vazio pungente onde coloco o coração. Um dia pára e finda a dor. A dor que abençoa muitos dos que não a suportam porque a têm por companheira eterna.
IV

Realmente hoje não há sol que me aqueça.
Talvez à noite adormeça e embale pelo campo fora.
V

Vou marcar 5 e acordar feliz.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

MÚSICA

Suede
Os Suede eram uma banda da geração da apelidada Brit pop, herdeiros das influências deixadas por Bowie ou mesmo Joy Division. Mas os Suede, apesar da febre que lançaram nas ilhas britânicas na década de 90, diferenciaram-se logo à partida de uma brit pop de massas, bem conduzida por bandas como os Blur, os Oasis ou até mesmo os Pulp. Tudo porque a banda sempre soube escrever e produzir músicas intimistas e extremamente românticas. O Kitsch, passe o chavão por já muitas vezes utilizado, encaixa aqui como uma luva bem ajustada a mãos que tocam guitarras lacrimejantes. Mas é um kitsch cosmopolita, muito a lembrar Morrissey, de amores e desilusões urbanas, de pessoas que se arrastam pelas ruas de Londres, inúteis, gastas pelos sentimentos, à procura do aconchego do sexo oposto. Heróis românticos em busca do glamour das unhas pintadas, cabelos ruivos ondulantes, hálitos de cigarros e modos de aristocratas modernos. São estas as cores que pintam a atmosfera da banda de Brett Anderson.
Suede é como um elixir não de camurça, mas de setim para o desgosto amoroso. Mas é um elixir mortal, porque fere ainda mais, lembra os momentos felizes que ficam a aconchegar a alma, aconchego doce e deprimente.
Anderson é um grande escritor de canções, tal como o é também Bernard Butler, que foi substituído após o primeiro album por Richard Oakes. O diletantismo, o carácter hedonista que sempre acompanharam a postura do vocalista e demais membros do grupo aparecem patentes em temas como Lazy, Saturday night ou até mesmo trash, autêntico hino pós-moderno, ícone da cultura pop dos anos 90.
Hoje em dia já não se ouve falar nos Suede, porque os tempos mudaram as mentalidades e as estéticas acompanharam a era tecnológica até na música, mas a banda britânica teve também evolução de sonoridades, que se tornaram nos seus últimos tempos muito electrónicas (Head Music). De resto, os Suede deram lugar aos The Tears (regresso de Butler) e mais tarde aos projectos a solo de Brett Anderson.

Discografia
BRETT ANDERSON
2008 - wilderness
2007 - Brett Anderson

THE TEARS
2005 - Here come the Tears

SUEDE
2003 - Singles
2002 - A New Morning
1999 - Head Music
1997 - Sci-fi Lullabies (b-sides)
1996 - Coming Up
1994 - Dog Man Star
1993 - Suede

Europe Is Our Playground
Run with me baby, let your hair downthrough every station,
through every town
run with me baby, let's take a chance
from Heathrow to Hounslow,
from the Eastern Block to France
Europe is our playground,
London is our town
so run with me baby now
Run with me baby, let your hair down
through every station,
through every townrun with me baby,
let's make a stand
from peepshow to disco,
from Spain to Camber Sands
Europe is our playground,
London is our town
so run with me baby now...

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

JOURNÉE PARISIÈNNE











Jardin de Luxembourg, Louvre (2), Tour Eiffel, Montmartre (Moulin Rouge)




terça-feira, 21 de outubro de 2008

"dEUS é grande"

Hoje que os dEUS actuam no Porto e eu infelizmente não vou poder estar presente, apetece-me, em vez de discorrer sobre as cambiantes e estéticas musicais da banda, contar um episódio algo burlesco que marcou para sempre a minha ligação a esta banda belga de pop-rock progressivo de características mescladas onde o punk também faz aparição.
Estudava eu em Coimbra, nos tempos em que os concertos da Queima ainda se desenrolavam no parque, do lado ocidental da cidade cuja alma não dorme. Por entre garrafas e copos de cerveja e de shots, de um cheiro nauseabundo a urina e muitas vezes a vómito; os acordes do rock, da electrónica e dos sons pimba das barracas espalhavam-se numa atmosfera zonza, onde as cabeças chocavam, os sorrisos patetas vagueavam expostos por cima de capas pretas ambulantes, em câmara lenta. Sempre em câmara lenta.
Era dia dos Gene Loves Jezebel, quem não se lembra desta banda mediana? Mas para mim e para os meus dois grandes companheiros de jornada académica, os dEUS chamavam-nos ao parque, queriamos "For the roses" e "Suds & soda". Os dEUS chamavam-nos e a boémia alcoólica, entenda-se, porque a Queima era mesmo para aliviar ao extremo neurónios cansados... de quê? talvez muitas vezes de estagnação.
Descemos pela Praça da República até à Ferreira Borges e contornámos até às bilheteiras não sem antes parar num café que havia ali junto ao stand nem me lembro de que marca, para atestar os depósitos, entenda-se. Uns finos e estávamos prontos para ver deus. Grande contrariedade: a multidão descontrolada em frente aos quiosques de bilhetes. Parecia que de bilhetes gerais ninguém tinha ouvido falar. O caos. Mas nós éramos respeitadores, correctos nas questões do civismo (...). Colocámo-nos na fila que era larga... aliás, não seria bem uma vulgar bicha, mas mais um amontoado anárquico de capas pretas sem braços, apenas com cabeças zoadas à espera de ver diante de si algo parecido com uma janela falante.
Mas há sempre quem não goste de cumprir questões de ética social e vai de dar o vulgo "golpe" da fila. Assim, como quem não quer a coisa, avançando em diagonal na direcção da janelinha dourada. Passa um, passa dois, encosta daqui, amassa dali e lá estava ele colado a nós na dianteira, de sorriso subtilmente triunfante, porque queria disfarçar. Lembro-me de olhar para os meus eternos comparsas, indignado. Um deles, indignado como eu e pronto a retaliar à sua maneira, sempre uma maneira veemente e comicamente marcante, mas o outro, calmo, sereno, como se tudo fosse normal, como se fossem momentos de alívio ou prazer.
O odor a urina nem se fazia notar, mas a capa académica do "amigo" golpista ia ter dias de fragrâncias difíceis.
"Estou a mijar e ele está-se a rir"... Palavras sábias e oportunas. Os golpes só resultavam mesmo connosco, nas filas das amarelas. Ali não, porque os dEUS estavam a actuar e não mereciam traições.
PS: Quem sabe "do que eu estou a falar" que se pronuncie...

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

PARIS JE T'AIME




Paris, a cidade do amor

Perdoem-me o cliché, mas Paris é uma cidade fantástica. A paisagem é de uma beleza desconcertante, os parisienses têm um ar arrogante mas pertinente, as parisienses possuem uma beleza que é só delas, uma coqueterie muito distinta que marca definitivamente a atmosfera da cidade do amor.
Metrópole moderna, complexa e gigantesca, a Paris dos nossos dias parece tirada de séculos anteriores, tal é o ar janota e de vestes clássicas que exibe. A arquitectura é toda ela harmoniosa, gótica ou clássica, transmite melodias de acordeão e violino. A cultura vasta é patente por toda a parte, história viva de uma Europa sábia e vaidosa.
Por entre o metro de vagabundos e pedintes que dormem à espera da luz eterna, encontram-se artistas que pedem esmola exibindo dotes de jongleurs incompreendidos, a Babilónia de seres humanos coloridos a tons escuros esquecidos de ouvir o zoar cosmopolita que a cidade emana.
Visitei o Louvre, esse antro da cultura ocidental, disfrutei das cores originais da Mona Lisa e das rochas frias e ao mesmo tempo voluptuosas da Vénus de Milo, senti o arrepio extasiante inesperado diante da maior obra da pintura romântica, Liberdade guiando o povo, de Delacroix. Soube a pouco, mas o tempo…escasso, a pedir uma nova visita.
Passeei pela Butte de Montmartre, contemplei as cores garridas e libertinas do Moulin Rouge… subi ao Sacré Coeur e vi a Torre Eiffel ao longe na paisagem urbana interminável. Tinha que subir até ao topo da dama de ferro da cidade eterna francesa. E subi, foi soberbo. Senti o amor, na visita nocturna por entre gauffres e crêpes doces, friozinho que nos faz agarrar ainda mais o que gostamos e quem gostamos.
O Quartier Latin irradia charme nos alfarrabistas e nos bistrots e restaurantes gregos, asiáticos e mais ocidentais. Sente-se a boémia que se arrasta na madrugada. Não quero ser injusto com todos os outros locais que visitei. Não divagando sobre eles, elogio-os como mágicos, encantadores até na sua tristeza ou tons cinzentos, quer seja a Notre-Dame de Paris, o Père Lachaise, o fantasma da Bastilha ou, mais para fora, Versailles.
No final, a saudade que aperta e a certeza do regresso à cidade bela, depois do regresso a um inesperado silêncio torturante do Porto.

domingo, 14 de setembro de 2008

ROMANCE, ARTE, CINEMA, PARIS, MOULIN ROUGE


Confesso alguma ansiedade pela visita à cidade de todos os sonhos, aquela a que Thomas Jefferson apelidou de segunda pátria da humanidade, que eu vejo mais como a morada onde o espírito de Vénus vagueia. Boa ideia esta de ver um filme que se enquadra na perfeição num ambiente nocturno romântico de uma cidade onde a luz não será apenas apelido.
O filme de Baz Luhrmann é uma orgia de cor, romance, música, tristeza, dor, amor. Mas vamos por partes. A película, pretensamente musical, é um hino à boémia romântica parisiense do final do século XIX. Um escritor inglês de nome Christian (Ewan McGregor), novato em Paris, talentoso aspirante aos meandros artísticos da cidade-luz, mistura-se acidentalmente na troupe boémia de, imagine-se, Toulouse-Lautrec (John Leguizamo). Zidler (Jim Broadbent), o patrão do Moulin Rouge de então dirige uma casa que é mais do que uma sala de espectáculos. Toda a nobreza e alta burguesia parisiense ali desfila nas noites quentes potenciadas por belas mulheres, dispostas a tudo. Christian é proposto para escrever uma peça para o Moulin Rouge, cujo destino depende de um poderoso Duque (Richard Roxburg).
Conflito: Satine (Nicole Kidman), a mola que tudo despoleta. A mais bela cortesã de Paris, prometida ao Duque por Zidler, apaixona-se pelo escritor inglês como quem trai a sua própria natureza, adquirida com uma vida de sexo e luxúria. Christian encanta-a com as incontornáveis palavras de poeta, que chamam o amor nas noites frias. O argumento é todo ele clássico, de tragédia grega, ou não tivesse Luhrmann rodado Romeo And Juliet.
Ideologicamente, os valores presentes não fogem da convencional salvação do artista perante o poder materialista através da liberdade, da beleza e do amor. Convencional para os preceitos das vanguardas modernistas da Belle époque, entenda-se. De Resto, em termos de mecânica intertextual, são nítidas diversas referências de certa forma codificadas a músicas ou mesmo clássicos do cinema, como é exemplo a colagem a The sound of music, de Robert Wise, (1965). Por falar em música, a banda sonora, diacronicamente estranha ou mesmo inadequada, serve imperativos interpretativos e cognitivos dirigidos ao espectador. Quando Luhrman cola uma cena do filme a uma música dos Queen ou dos Police, espera do espectador um conhecimento à-priori, que leva a um entendimento perfeito da cena em si. De resto, em termos puramente comerciais e de propaganda às ambiências do espaço Moulin Rouge, a colagem funciona na perfeição.
O charme clássico de Moulin Rouge de Luhrmann é também alicerçado em A Dama das Camélias de Dumas filho ou no mito de Orfeu, o Deus grego da música que tem que salvar a sua Eurídice do submundo. Até o coro está presente nos boémios modernistas da companhia de teatro. Tem além disso, o filme, um charme contemporâneo que nos é dado inevitavelmente pela beleza pura e ao mesmo tempo sofisticada de Kidman, autêntica deusa grega dos nossos dias, e pela banda sonora marcadamente pop, a fazer lembrar os espectáculos da Broadway ou dos Cabarets. As cores são garridas, os trajes muito mais do que provocatórios, os ambientes escuros e quentes, românticos e muitas vezes poeticamente intimistas.
Quando me preparo para visitar Paris no final do mês, senti-me claramente deslumbrado com o filme, que incompreensivelmente ainda não tinha visto. Aconselho, mesmo àqueles que desconfiam da estética massiva das grandes produções de Hollywood. Um filme verdadeiramente marcante, come what may.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Figueira que dá rosas

Terra onde o tempo acaba pelo amanhecer
Incandescente noite a dourar o sonho do pescador
A febre da vertigem do arbítrio
Lançada em damas de copas aladas
Que vão descendo até ao leito do Mondego
Se perdendo no azul gélido imenso.
Mas a maresia voa e pinta o céu de ouro
Em incandescente e festivo fogo santo
Paisagem bela sobre o embarcadouro
Onde no Verão escaldante a noite varre o quente
E a folia é esguia, cosmopolita e densa.

É preciso amar a praia das gaivotas dançantes
Sorver a aragem purificante sopro do Atlante
Presente de Vénus, perfume inebriante.
E então dormir ao luar dourado e triste
Sob pérolas suaves na noite estrelada
Contemplar a mais bela rosa, doce, rubra, encantada
Qual sereia apaixonada que, sorrindo, em terra persiste.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

LIVROS



Para quem se habituou a gostar de Henry Miller, tem a oportunidade de descobrir o universo Bukowski com esta obra surpreendente pela sensibilidade extrema que irradia. “Mulheres” não é apenas literatura erótica ou sobre a psicologia feminina. Henry Chinaski, a personagem central, não é mais do que o alter-ego de Bukowski. Estamos perante uma espécie de autobiografia transformada em romance, por onde desfilam mulheres belas, interessantes e diversas pela passerelle que é o corpo de Chinaski, um escritor de 50 anos, divorciado e com uma filha ilegítima.
A personagem, um escritor à margem da sociedade politicamente correcta, vai escrevendo de forma crua, nitidamente realista, amiúde grotesca, violenta e sempre irónica, a sua decadência física provocada pelo álcool e por uma vida completamente desregrada. Por entre as bebedeiras, as ressacas permanentes, os vómitos, as corridas de cavalo, as leituras nas universidades, as festas, as cartas de admiradoras e as esperas no aeroporto, só há tempo para sexo. Relações, rupturas, reconciliações, novas rupturas, experiências sexuais intensas… é assim a vida de Chinaski tal como o vamos conhecendo ao longo do livro. Uma vida circular, onde não há lugar ao amor, apenas à experiência, à prova, à exploração do ser feminino, um ser que é forte e frágil e tremendamente original na sua relação com o sexo oposto. Os relatos das cenas sexuais são extremamente estimulantes e eróticos, de um realismo que ultrapassa todos os limites.
“O amor só convém aos que não são capazes de suportar essa sobrecarga psíquica. É como tentar atravessar um caudal de mijo com um caixote cheio de lixo às costas.”- diz ele, mas, no fundo, Chinaski é um sentimental, uma espécie de criança em corpo enorme, que procura o peito da mãe e cujas manias e gestos por vezes marcadamente kitsh, irradiam ternura. Obra muito sensual e explícita sexualmente, prima pela atracção quase fatal e dependência que provoca no leitor.
Os que preferem o cinema à leitura podem contemplar um cheirinho do que é a atmosfera Bukowski vendo Barfly, amor marginal, de 1987, realizado por Barbet Schroeder, com Mickey Rourke e Faye Dunaway, cujo guião é escrito pelo autor de "Mulheres".

sábado, 2 de agosto de 2008

Latitudes da tristeza



Vazio de mim nesta hora morta
Essência perdida como perdida a vida
Ausente lembrança da feliz criança
Tristeza sentida, luz solar dorida

A noite é clara, os gestos estáticos
Silêncios erráticos
No respirar maquinal
Já nada é normal

Invento razões, desenho vagos corações
Na mente indolente
Que não quer da fosca lua absorver um raio rosado.
Morro sentado, respiro cansado.
Talvez amanhã, talvez mais uma vez
Encontre o caminho perdido outra vez
Consiga da vida sorver a razão
Chegue ao fundo de meu coração
Tirando o amor que é dor, tirando o sabor a fel
Guardando teu gesto terno no calor do Inverno.
Fora isto que é nada
A madrugada é feliz.

domingo, 20 de julho de 2008

MARÉS VIVAS
















Tim Both e os James; Ray Manzarek e Roby Krieger; Macey Gray

"EU FUI..."
A noite começou com uma francesinha, porque prometia ser longa e convinha "aconchegar" o estômago para o desgaste de energia, ainda mais quando se sabia que alguém dos míticos The Doors iriam estar mesmo ali, junto ao Douro, a esfregar guitarras e teclas como nos velhos tempos. Já lá vamos.
A organização do festival “Marés vivas” está ainda muito arcaica. Foi uma hora passada na fila para entrar, enquanto lá dentro Macey Gray soltava sons RMB e soul abafados pela turba. Mas o espírito festivaleiro faz esquecer o resto: as t-shirts de Jim Morrisson espalhavam-se pela margem do rio, penduradas em “carcaças” andantes na casa dos 20, 30, 40, 50 e até 60 anos, sentia-se o cheiro saudoso do haxixe numa atmosfera quente, o público notava-se em geral muito heterogéneo. Sinal dos tempos.
Já em frente ao palco, vi a entrada triunfal dos Riders on the Storm, onde pontificam 2 consagrados elementos da mítica banda de Jim Morrisson: Roby Krieger e Ray Manzarek, este o proclamado líder de uma banda que não é mais do que uma sombra obscura e incompreensível dos The Doors. Apesar dos acordes blues inconfundíveis, do som a lembrar flower power e sex, drugs and rock’n roll, Manzarek parece claramente senil e acaba por expor os restantes membros do grupo (Brett Scallions, ainda assim, consegue fazer lembrar Morrisson de forma nada forçada) a uma situação pouco menos que ridícula. Entoa o nome de Jim Morrisson em tom de oração inflamada, tentando cativar e entusiasmar a turba e exagera claramente no protagonismo que chama a si entre cada música, quer seja pelos gritos a lembrar James Brown, quer seja pela forma quase patética como se dirige ao público. A determinada altura, pelo discurso e pose de Manzarek, perguntei-me se os americanos já sabem que Portugal é hoje um país da moderna Europa, livre da ditadura e do atraso pelo menos cultural, em vez de uma qualquer obscura província espanhola.
Sentia-me à partida claramente entusiasmado por poder ver de perto e ouvir os míticos membros de uma das bandas que mais me marcaram a adolescência. Lembro-me de rabiscar cadernos com letras de Morrisson, de usar t-shirts, apesar de não ser contemporâneo da banda. The Doors, mais do que um estilo ou tipo musical, é um estado de espírito. É por isso que não dou por mal empregue o concerto. Apesar de penoso para os meus acompanhantes, foi emocionante qb ouvir ao vivo os acordes originais de "Light my fire", "Love me two times" ou "Love her maddly" (quem desdenharia?). Mas senti claramente as portas a fecharem-se. Fim.
James. Os James são outra referência da minha adolescência. Referência obviamente mais presente, pela contemporaneidade da banda e pela minha afinidade de longa data com a pop britânica. Estavam já 20 mil pessoas na plateia.
Banda consensual, os James conseguem fazer parar canções pop no tempo, como se o tempo não passasse e “sit down” fosse já ali. Mas não, é uma faixa de 89! Tim Booth e seus pares (destaque para um inesperado Andy Diagram de vestido vermelho) entoaram uma série infindável de autênticos hinos que ninguém ousa ignorar: “She’s a star”; "Say something", “Born of frustration”; “Out to get you”; “Sound”; “Ring the bells”; “Tomorrow” (talvez a minha faixa preferida); e o inevitável “Sometimes” (último encore antes do apoteótico “Laid”).
Os James tocaram ainda muitas mais da sua famigerada panóplia de hits pop, com destaque para o incontornável “Getting away with it all (messed up)”, tendo encaixado pelo meio, de uma forma muito apropriada, algumas faixas do novo álbum “Hey Ma”, onde se destaca o politicamente correcto single homónimo.
Viu-se em Gaia um Tim booth a irradiar simpatia, pela sua energia e por uma pose em palco feita de mutações baseadas em duas décadas de experiência enquanto intérprete: ora vibrava e empolgava o público com uma maneira ágil e quase apocalíptica de dançar (bem ao jeito dos interpretes das bandas pop britânicas); ora parava a contemplar a maravilha do efeito da sua música na multidão extasiada. Booth apresentou-se como uma espécie de Dandy descontraído, romântico esguio, em sua camisa branca a transmitir a ingenuidade de muitas das suas músicas.
O final do concerto foi altamente festivo, apoteótico, com várias dezenas de fãs a saltar para o palco para acompanhar ao som das palmas e dos saltos a performance final dos James, “Laid”. Nem sequer faltou um hilariante Jim Morrisson a esta celebração final da música pop. Quem lá esteve percebe porquê. Eu estive e confesso que foi pouco menos que arrepiante ver os olhos encovados de Tim Both emocionados pelo calor de um público que continua a adorar os James. O Porto, como os próprios disseram, é um sítio marcante para a banda.
O concerto foi marcante também para mim.

sábado, 12 de julho de 2008

PEQUENOS MAQUILHADORES DE MULTIDÕES


A feira de Custóias é uma feira como tantas outras, só que maior em tamanho e em quantidade de vendedores ciganos. Fui lá hoje, foi muito instrutivo e extremamente divertido. Com a crise, as pessoas atulham-se à volta das bancas dos ciganos que vendem produtos a preços impossíveis, atendendo à imagem dos mesmos artigos. Ele há t-shirts da D&G, Armani, Nike ou Lacoste; sapatilhas de marcas do mesmo nível; sapatos e roupas femininas da Zara e mais não sei de que boutiques de shopping e, principalmente, óculos de sol da Ray-Ban, Armani e tal. É uma autêntica loucura, um apinhar de gente que não olha para o lado, tão concentrada que está a remexer as quinhentas mil t-shirts à procura do seu número. Enquanto isso, o cigano alegre e acima de tudo consciente da sua missão naquele local, dá ares de “jongleur” das vendas, quer seja porque se sente vaidoso por conseguir apresentar material tão convidativo a um preço imbatível a fregueses incrédulos sedados pelas maravilhas expostas, quer seja pela linguagem e artimanhas verbais usadas para chamar a si a clientela.
Um cigano não tem tempo para perder, porque amanhã há outra feira em Fermentelos ou na Quinta do fim do mundo, por isso exprime a sua ânsia em despachar a carga prevista, antes que resolva aparecer alguém incómodo a cobrar taxas. A retórica parece simples, mas denota uma sapiência psicológica acumulada por décadas de experiência e gerações e gerações de clientes que, levados pela futilidade da aparência, preferem uma t-shirt contrafeita da Nike a outra qualquer de melhor qualidade. A imagem maquilhada com pó de arroz barato de uma sociedade consumista leva a classe média-baixa à banca do cigano janota e perspicaz.
O cigano é uma espécie de líder da plebe, conhecedor da psicologia das multidões. Usa e abusa de termos e expressões verbais proferidas em tom quase sempre histérico como: “Olha a cigana perdeu a cabeça, tudo a 5 euros!!!”; “Ai, ai, ai, ai, tudo a 5 euros!!”; ou “A cigana é uma porca!!! Venham ver!!!” (Esta mais difícil de descodificar). Ouvem-se ainda graçolas do género: “Venham à tenda do primo do Quaresma!”ou “Podem levar, convém é pagar, 1 euro!! Se não pagarem, levam de borla!”. Houve ainda uma cigana de meia idade que pegou no puto que estava a remexer em bijutaria debaixo da banca e, depois de lhe atirar com dois calhaus à cabeça, deu-lhe uns valentes bofetões. Era o filho. Hábitos diferentes e o respectivo choque cultural.
Há muito quem critique os ciganos. Não irei por aí. Acho-lhes demasiada graça para o fazer. Tenho a consciência que se não fossem eles, na sua tez escura, seus modos desconfiados e grosseiros, suas mulheres gordas de seios enormes e semi-descobertos e seus putos ranhosos e chorões, não haveria jovem de bairro deste país que vestisse Nike ou passeasse por essas ruas citadinas todo feliz em suas calças rasgadas e óculos de sol “marcados”, a dar ares de Cristiano Ronaldo. Isso para mim pode até não ter dignidade alguma, mas são pérolas para muita gente. E parece ser essa a função do cigano nesta sociedade em queda: Reequilibrar a balança da desigualdade social ao nível das aparências. Podem ser frágeis as máscaras e falsas as pérolas vendidas pelos ciganos, mas maquilham e enfeitam os sonhos dos pobres, nem que seja enquanto a T-shirt não vai à máquina de lavar.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Pásion


Noiva das horas amargas
Perfumes de fragas ao luar manhoso
Excerto de mágoa doce
Primavera alada
Tristeza sem nada.
Foge comigo para o eterno sol da aurora
Vamos agora, sem demora
Porque o fogo vai longe
Árdua figura que me afaga a amargura
Quando é pó meu pensamento
Quando o momento dura no ocaso da paz
Tanto faz que sejas espada alada
Ou copa cerrada
Se és tu, em tuas cores com dores e curvas
Sempre amparando lágrimas surdas
Sempre perene na madrugada rosada
Sempre ao leme por um mar onde o tempo jaz
Botão de rosa amante, andante pelo futuro radiante
Silhueta de bloquear o relógio sem rumo
Como numa melodia encantada
Porque és vida folha alva pela felicidade riscada
Porque serão sempre belos os versos que te afagam.
(para Daniela)

domingo, 29 de junho de 2008

COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL EM DAVID LYNCH

David Lynch, Mulholand Drive
(VERTENTE PSICOLÓGICA)

CASO PRÁCTICO



Situação seleccionada do filme Mulholland Drive de David Lynch (2001)


Uma jovem rapariga (Betty) vai ao encontro de um grupo de pessoas ligadas ao cinema no intuito de se dar a conhecer e entrar num pequeno casting para um filme. Entra numa sala onde se encontram os vários interlocutores, a saber: Wally (o homem que faz as apresentações); Woody Katz (o actor que com ela vai contracenar); Bob ( o realizador); Lynne James (famosa agente de casting) e ainda quatro interlocutores pouco interventivos na interacção ( Julie Chadwick, Jack Tutman, Martha Jonhson e Nikki). A análise irá incidir principalmente em cinco dos interlocutores , por ordem de importância na interacção: Wally, Betty, Woody Katz, Bob e Lynne James.

ANÁLISE

Wally (o homem que faz as apresentações) – Tem uma postura expressiva, algo curvada devido à altura inferior de Betty. Faz gestos com as mãos aquando das apresentações. A dado momento adopta uma distância íntima relativamente a Betty, há contacto corporal, abraçando-a lateralmente, facto que dá indicações sobre a intenção de manter a conversação e de familiarizar Betty com a sua pessoa e com os outros. Adopta um tom de voz mais baixo e metódico relativamente a Betty, como se falasse a uma criança. Demonstra desta forma um certo sentido paternalista, pretende ser amistoso, colocá-la à vontade perante aquela situação de grupo.
Sorri frequentemente e de maneira expressiva, fala muito; é ele o mediador entre Betty e os outros, para ela desconhecidos; o cicerone que recebe aquela personagem e pretende causar laços de confiança ou até amizade. Fala a uma distância muito próxima de Betty, gesticula nas apresentações, ora apontando o dedo na direcção das pessoas que vai apresentando, ora movendo a mão com o mesmo objectivo. Pormenor curioso é visível aquando da apresentação do realizador, figura nitidamente altiva e autoritária que, mesmo sentado, sugere uma postura dominante-superior: Wally muda o tom de voz para mais grave e alto quando o apresenta, ao mesmo tempo que altera o gesto manual e até do tronco, como que em sinal de uma irónica veneração.
Ao apresentar Lynne, Wally mostra de novo alta expressividade, ora ao nível do tom de voz, ora das expressões faciais: falou como se estivesse a chorar, lamentando o facto de não poder comprar os serviços de Lynne e elogia-a na parte final da apresentação, facto que culmina na subida de tom de voz. Neste momento de interacção é interessante verificar as variações de postura de Wally, ao rodar o tronco expressivamente e ao curvar-se ligeiramente quando elogia Lynne. Este facto pode ser entendido à luz de Mehrabian (1972), o qual analisou a comunicação de atitudes (apreço e agrado) por meio de indicadores posturais, tendo concluído que a vizinhança física, um mais intenso contacto visual, uma inclinação para diante são tudo sinais que se destinam a comunicar uma atitude positiva perante o destinatário.
Outro autor, Scheflen (1964) considera a este respeito que o modo como um membro do grupo relaciona a sua postura com a do seu interlocutor pode ser um aspecto interessante do comportamento comunicativo.
Ao nível da orientação, outro sinal espacial, Wally coloca-se quase sistematicamente “lado a lado” com a sua principal interlocutora. Este tipo de orientação favorece, não só as apresentações, como vai de encontro à ideia expressa por Bitti e Zani de que “dois amigos íntimos ou duas pessoas em situação colaborante colocam-se lado a lado.”
Já na parte final da interacção, ou das apresentações, Wally intensifica alguns gestos que, à luz de Ekman e Friesen (1969) podem considerar-se ilustrativos. Tais gestos, efectuados com as mãos, servem precisamente para ilustrar uma mudança na interacção: o bater as mãos significa naquele contexto um incitamento à mudança de espaço por parte de Betty; podendo este gesto ser considerado também de simbólico. O contacto corporal inerente ao bater ao de leve sucessivas vezes nos braços da interlocutora pretende transmitir confiança e alguma empatia inerente a uma certa intimidade entretanto adquirida. Antes, ao oferecer café à sua interlocutora, Wally emprega semelhantes gestos manuais e também com a cabeça. Os gestos ilustrativos são aqueles que a maior parte dos indivíduos executa no decurso da comunicação verbal e que ilustram precisamente o que eles vão dizendo. Ainda à luz de Ekman e Friesen, poder-se-á considerar que, relativamente a Wally, muitos dos seus gestos poderão ter uma natureza de “adaptação”, ou seja, aqueles que são apreendidos geralmente na infância sendo parte de um modelo global de comportamento adaptativo, formando-se no adulto sinais habituais, geralmente inconscientes e que não pretendem comunicar nenhuma mensagem específica.
Alturas há em que o Wally utiliza aquilo a que Trager (1958) chama de caracterizadores vocais, os risos a sugerir contentamento, simpatia, etc. e secreções vocais como a interjeição que antecede a apresentação de Martha Jonhson, que é um sinal de lembrança súbita após aparente (neste caso) esquecimento.
Relativamente ao tom de voz e às suas características paralinguísticas poder-se-á concluir que as mesmas confirmam a classificação de Laver e Trudgill (1982) no que diz respeito a um timbre grave e com características típicas de um individuo do sexo masculino e numa idade já avançada. Sugere ainda o tom de voz alguma relativa emoção em alguns momentos da interacção, mas mais um contentamento e vontade de suscitar simpatia e confiança.
O comportamento mímico do rosto deste interlocutor está traduzido muito amplamente em sorrisos de circunstância, por vezes até forçados no sentido da instauração de um bom ambiente de grupo. É por este motivo, a juntar ao discurso algo exagerado e, num muito distante segundo plano, a um aspecto exterior algo descuidado ou descontraído, que este interlocutor parece suscitar algum desdém, indiferença e por vezes condescendência da parte grupo.

Betty (jovem rapariga que vai ao casting) – É uma jovem de agradável aspecto exterior e ambiciosa, não fosse ela capaz de se sujeitar à interacção apresentada. A sua mímica facial (boca entreaberta mesclada com o sorriso) no início da situação, mesmo antes da interacção, em que parece ficar deslumbrada a olhar para o sítio onde vai fazer o casting demonstra uma grande emoção por ela vivida naquela momento e deixa transparecer que um desejo seu está prestes a ser realizado. O respirar fundo e o olhar em frente mostra a determinação com que vai para àquele lugar, ao passo que a emoção demonstrada pela mímica facial, quando ainda não há interacção, pode remeter para um traço da personalidade de Betty. Bitti e Zani defendem o anterior conceito e juntam-lhe outro que também se aplica, na situação de interacção presente: o interagente vai mais tarde enviar sinais faciais inerentes à interacção em curso. Tal é o caso, por exemplo, do sorriso sistemático, sinal de cortesia nas apresentações e cumprimentos. Betty apresenta alguns sinais não verbais que são típicos de alguém que não se sente completamente à vontade num determinado espaço, o que se deve sobretudo ao facto de se sentir observada por um grupo de interlocutores que não fazem parte do seu território pessoal. Um desses sinais é a distância interpessoal que é instituída logo à partida por Betty. É certo que se trata de um ambiente que se pode considerar, à luz de Sommer(1961) e Little (1965), um ambiente privado, mas a privacidade individual da interlocutora parece ameaçada, daí o conservar de uma certa distância relativamente ao grupo, facto que não se verifica relativamente a Wally, pois é ele quem invade o território da recém-chegada. De resto, Betty não parece inicialmente muito à vontade perante essa invasão, por isso se retrai fisicamente, adoptando uma postura algo encolhida e de mãos inquietas a segurar as folhas que talvez sejam o guião do filme que se prepara para representar. O facto anterior vai ao encontro de Mehrabian (1972), segundo o qual, a postura varia com o estado emocional, especialmente segundo a dimensão descontracção - tensão. Voltando à ideia da invasão de território, Bonimo, Fonzi e Seglione (1982) consideram que uma forte vizinhança física constitui, fundamentalmente, uma forma de invasão do “território” pessoal do indivíduo, do qual tendem a ser excluídas as pessoas tidas por hostis ou antipáticas ou com as quais se tenha relações exclusivamente formais.
Relativamente ao comportamento motor-gestual de Betty, assinale-se os constantes acenos de cabeça, sinais não verbais que, segundo Bitti e Zani, são importantes indicadores sobre o andamento da interacção. Neste caso, simbolizam atenção ou assentimento perante o interlocutor (Wally). Argyle (1972) afirma que um aceno de concordância é um sinal enviado a quem fala para que confirme o seu discurso. Na presente situação de interacção, os acenos são também por vezes sinais de saudação ou cumprimento, sendo sempre complementados com os já referidos sorrisos. Para além disso, o olhar de Betty parece constantemente perscrutador, não querendo perder nada do que lhe é transmitido, nem dar uma imagem de indiferença. Essa atitude contempla primeiramente todos os presentes e depois concentra-se em Wally. A este propósito, destaca-se Exline (1972) que, com base em observações experimentais, concluiu que o ouvinte que não olha o falante dá uma impressão de rejeição ou de indiferença em relação a ele. Por outro lado, e segundo autores como Ricci Bitti, Giovannini e Palmondri (1974); Angyle e Cook (1976), as pessoas com forte tendência afiliativa, e as mulheres, mostram-se decididamente mais activas nos olhares recíprocos e não recíprocos.
É importante voltar ao comportamento espacial de Betty para analisar a parte final da interacção, quando a interlocutora muda de espaço e de interlocutor. Prepara-se nesta altura para a nova interacção, pondo-se mais confortável: tira a carteira e despe o casaco, dando a perceber que de seguida se vai concentrar no seu propósito: representar. Passa então a interagir directamente com Woosy Katz, o actor e, se anteriormente o contacto corporal com Wally era aparentemente amistoso, agora vai ser, ainda que encenado, um contacto de natureza sexual. A esse propósito, convém recordar Heslin (1974) e a já mencionada categorização do contacto corporal nas relações interpessoais. No que diz respeito à orientação e à postura, Betty adopta talvez inconscientemente uma postura algo retraída inicialmente, em parte devido à rápida invasão do seu espaço, mas também motivada pela orientação de cara a cara com um interlocutor que, naquela situação, está numa posição mais elevada (dominante) não só fisicamente, mas também profissionalmente. Gradualmente, a sua postura vai soltando-se após as indicações que recebe desse interlocutor, até tomar fôlego e cumprir o papel que lhe é exigido.

Woody Katz (o actor com quem Betty contracena)- Tem ares de gigolo do cinema, não só pelo aspecto exterior (bem vestido) mas também pelo rosto – a este respeito, Secord (1958) concluiu que existem estereótipos faciais -, e ainda pela postura e distância interpessoal. Para além de ser o único que, além dos dois principais interlocutores, se mantém de pé, Woody parece querer conservar distâncias relativamente aos outros.
Mas ele até começa por ser cordial (altivamente cordial) nos seus gestos, aquando da saudação a Betty: o seu movimento com as mãos e o aceno da cabeça parecem querer sugerir simpatia e um certo sentimento paternalista relativamente à interlocutora, bastante mais nova. De resto, estes gestos poderão também ter uma natureza sexual.
Na parte final da interacção apresentada, Woody adopta uma orientação “cara a cara” relativamente a Betty, o que atesta a ideia de Bitti e Zani de que numa relação hierarquizada o superior coloca-se em frente do dependente – inferior. Mas talvez a teoria defendida por Scheflen (1964), Argyle e Dean (1965) tenha uma melhor aplicação a esta situação: segundo estes autores, a orientação cara a cara no encontro de duas pessoas, está provavelmente correlacionada com a distância recíproca e a intensidade de participação mútua.

Bob Rooker ( realizador) - O seu silêncio, o leve aceno da cabeça aquando da apresentação a Betty, bem como uma postura física algo rígida sugerem uma atitude de superioridade e altivez, pelo menos inicialmente. Contudo, a sua postura dominante e passivamente autoritária vem a degradar-se com o decorrer da interacção, nomeadamente quando passa à comunicação verbal; aí demonstrando uma intensidade de voz, uma entoação e um ritmo muito pausado a querer suscitar sabedoria e inteligência que, a juntar a aspectos não verbais algo exagerados como olhar fixo e os movimentos da cabeça e mãos, acaba por provocar silêncio e olhares irónicos na plateia. De resto, antes disso, a sua postura é sempre de observação, mas uma observação que soa a avaliativa e é feita de um pedestal superior -aspecto este atestado pelo gesto da mão sob o queixo.
Bob, à semelhança de outros interlocutores não parece ser uma figura muito admirada ou sequer respeitada dentro do grupo apesar de, como já foi referido, raramente usar da palavra durante a presente interacção. Aliás, a este respeito, importa referir a multiplicidade de significados que o silêncio pode tomar no âmbito da interacção: segundo Bruneau (1973), o silêncio pode exprimir uma atitude cautelosa e atenta perante o interlocutor.

Lynne James (famosa agente de castings) – Torna-se importante fazer uma pequena análise a este interagente na medida em que no pouco tempo de interacção mais activa utiliza sinais não verbais pertinentes e merecedores de alguma atenção. Para além da sua postura, aspecto exterior e tom de voz a demonstrar segurança e um nível social alto, a distância corporal para com a sua assistente ( Nikki) indicia a proximidade da relação entre ambas. Quando confrontada com Betty, Lynne baixa ligeiramente a cabeça em sinal de saudação e não abandona o seu sorriso e expressão facial a suscitar simpatia e alguma condescendência perante alguém de posição social (profissional) inferior. A anterior atitude torna-se nitidamente irónica perante os exagerados elogios de Wally: o sinal é a rápida gargalhada simultânea ao agradecimento verbal. De resto, o seu tom de voz torna-se mais suave quando se dirige a Betty, pois acabou de lhe ser apresentada.


rodriguez 2004

terça-feira, 24 de junho de 2008

DOGMA 33

O rapaz chega ao quarto claro, senta na cadeira de madeira, olha para o tecto com as mãos na cara. Correm algumas lágrimas, fica sentado meia hora. Olha em várias direcções, nas paredes só figuras normais. Mais algumas lágrimas que baixam ao queixo, as mãos conseguem amparar outras. Parece meio sufocado pelo escuro que chegou devagar.
O silêncio debaixo da cadeira de madeira vai subindo, ao longe a novela brasileira. Não pertence ali, porque se levanta e desce um túnel que conduz à noite. A cave. Fala aos degraus, confessa tristeza. Agarra o corrimão com a mão molhada de lágrimas salgadas. A madeira do corrimão é a mesma da cadeira, corroída pelo sal dos olhos. A sua pele é rugosa, rugosa só. Rugosa significa desidratada e gasta, corroída talvez pelas lágrimas.
Na manhã seguinte, quarto mais claro, paredes normais, cadeira nada mais rugosa, na mesma. Tudo igual. Apenas as lágrimas secaram. Mostra um sorriso numa manhã com um sol de 20 graus e de olhos semicerrados. Veste uma camisa preta, umas calças azuis e uns sapatos meio esfarrapados mas não pelas lágrimas, pelo pó. Corre para fora do quarto, cheira o ar e os odores de algumas poucas flores que estão ali. Ao longe um homem cava numa terra que não chega a ser completamente verde ao som leve da sirene dos bombeiros que estão mais longe. O homem cava curvado com uma enxada de cabo de madeira que um dia foi rugosa mas de ser nova, agora lisa do uso por mãos rugosas.
O rapaz cheira as flores e ouve a sirene, olha o homem e o espectro da enxada, e pode-se dizer que não sente nada. À noite sim, aí as lágrimas e a lembrança da madeira rugosa ou lisa ou as pétalas rubras guardadas no bolso da camisa.
(Rodriguez 2008)

sábado, 21 de junho de 2008

Saudade


Volta espuma negra que consome o peito agora lembrado do passado ofuscante e sufocante onde pássaros negros de cores rosadas dançam por colinas que são sábias que são altas próximas do além uno
E o sentimento de saudade a saudade sempre quente mas esquecida da
(felicidade efémera e melancólica)
Sempre serei esgar dessa espuma vulto curvado oriundo da terra que é feita de mágoa dobrada de água Olho perco a olhada num tempo eterno de madrugada nocturna e soturna sentindo o fundo do peito cada vez mais perto porque aberto desperto ameno calor noite de amor esquecida na lua perdida
A vida que fura por entre devaneios obtusos dormentes gestos sonhos lestos
Arestas de amor feitas de letais vértices de dor amargo vaguear
E à noite durmo por entre pontos curvos pintados sonhando ter encontrado enfim
Assim
Como este som grave autocarro de almas que não querem ficar aqui
Neste tempo
Tormento
Lento
Volta.
(rodriguez Maio 2008)

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Crise

A crise faz-nos vaguear por uma existência limitada em termos materiais, obviamente; atormenta-nos o sono e as horas imensas de trabalho, que se arrasta até a um quase pôr-do-sol que é uma vaga de ar fresco ao fim de mais uma jornada onde tudo parece cinzento, repetitivo, rotineiro ao limite. Rotineiro porque não parece haver esperança.
O maldito crédito subprime americano, que é indissociável da hedionda subida das taxas de juro e da baixa dos mercados bolsistas que conduz ao aumento brusco do preço do petróleo, alterou toda a economia mundial. Este claro sinal da globalização imposta progressivamente pelos americanos é paradigma de uma nova ditadura que, apesar de tudo, nem é capaz de chegar aos países produtores de crude, cuja flexibilidade na oferta desse produto é como se sabe limitada. Daí a subida desenfreada do ouro negro.
Sem querer entrar em teorias políticas para as quais não creio ter vocação, sempre considero a globalização um factor de desagregação, não só cultural, mas também económica. Porque a liberdade comercial sai claramente afectada nesta dependência dos mercados americanos, como se uma peça de dominó caísse e fizesse desmoronar todo o resto. Enquanto português e europeu, sinto-me obviamente condicionado pela americanização do mundo onde vivemos, onde os mais poderosos ditam leis. Aquele adormecimento de que falava no início do texto é resultante do fenómeno anterior. Tudo é monótono e previsível, como se o nosso planeta fosse uma laranja mecânica onde tudo funciona em aparente harmonia. Aparente, sim, apenas. Estamos cada vez mais próximos da realidade profetizada pelos irmãos Wachowski, onde o ser humano é controlado por uma máquina que, neste caso, é uma máquina humana e de interesses económicos. Será a mente humana capaz de se libertar da opressão do tédio americano? Creio que sim, porque é uma mente complexa e inventiva, que passa por estados de adormecimento para depois acordar e se revoltar. A história prova-nos isso. A crise será fugaz também, acredito.
Portugal, pobre país da fragilizada Europa, sofre. Sofre porque a gasolina é mais cara do que em Espanha enquanto o salário mínimo é mais baixo. Que destino cruel este de um povo que parece ter a vertigem do sofrimento, o fado que também se arrasta pelo tempo fora. Já senti muitas vezes que teria sido benéfico para nós se essa mesma história nos tivesse conduzido a uma ausência de D. Afonso Henriques, a um país-potência que teria sido a Península Ibérica. Mas depois penso numa identidade que é de facto forte dentro da sua fragilidade. Portugueses são homens bravos que lutam pela vida como guerreiros cujo poder é incerto porque sofre com circunstâncias adversas. Lembro-me de palavras proferidas por génios lusos, desde Pessoa até Virgílio Ferreira ou Sophia. E sinto algo cá dentro, como quando se ouve o hino num campo verde rodeado de uma turba embalada pelo sentimento patriótico. Acredito que esta nossa capacidade de sofrimento, espírito de sacrifício é um dom tão belo como o fado. A bonança virá, só pode vir.