" Ao fundo da escuridão ofuscante Um vulto condutor supera ventos Temporais, horas de desespero. Na terra erma, de fantasmas aterradores, O mundo cego nunca ouve a justiça E o feitiço das noites insanas Não se prolonga."
domingo, 20 de dezembro de 2009
domingo, 22 de novembro de 2009
SEAN RILEY & THE SLOWRIDERS


Os Slowriders são introspectivos na atmosfera melancólica que patenteia o som que produzem. A voz é de Dylan, sim senhor, apesar de Afonso (Sean Riley) sempre negar a semelhança entre a sua música e a do mentor do folk. A verdade é que Afonso não pode nunca negar a força e a imponência da sua voz, que marca indelevelmente a música da sua banda.Sean Riley and the Slowriders não são todavia, felizmente, só a voz do seu vocalista. Há folk, blues e rock nos acordes, há um som acústico muito marcado. No entanto, o além vem nas guitarras eléctricas que contrariam um pouco a tradição e o sonho americano, revelando um cariz mais europeu da banda.
Multi-instrumentistas que brincam muitas vezes com os instrumentos, numa roda-viva trepidante, estes rapazes de Coimbra (e Leiria) oferecem-nos músicas de uma alma maior, como se a vida desfilasse por corredores decorados por cores obscuras e impregnadas de sentimentos. No seu primeiro “Farewell”, a acústica é sombra preponderante, com Dylan e Waits bem presentes e um purismo ingénuo e inexperiente bem patente. Mas em “Only time will tell” surge uma sofisticação crescente, um esgar pretencioso e ambicioso, até pela preocupação em integrar convidados mais experientes.
Faixas como “Hold on” (o primeiro single) ou “Tell me why” trazem-me à memória tempos de glória, especialmente a última, para mim bem remniscente de “One of these things first” de Nick Drake. “Tell me why” será, de facto a minha música preferida, já “This woman” é um tema romântico por excelência, muito “Coheniano” no tom e até a lembrar Tindersticks e principalmente Flaming Stars ("A hell of a woman") na essência amargurada e pessimista das letras. De resto, “Working nights” será uma viagem ao Oeste Americano, aos saloons de portas que se abrem e fecham para bailarinas e suas saias de roda. No fundo, o sonho americano também visível na pose dos Slowriders.
Sábado 21, Casa das Artes de Famalicão
O concerto na Casa das Artes de Famalicão foi o esperado: desfile de baladas aconchegantes e impulsos mais ritmados e sonoramente volumosos. Uma atmosfera intimista até pelas dimensões do Café concerto: pessoas sentadas no chão a 2 metros de Sean Riley e uma única fila de lugares sentados com os seus Safaris-cola e Superbocks de lata, mais umas mesas de café num patamar superior. Casais de trintões bem identificados, não só pelas bebidas, mas pelo aspecto intelectualmente altivo e pretensamente maduro: o público dos Slowriders.
A entrada com “Working nights” serviu bem para apresentar aos menos atentos a banda e a sua estética subjacente. Vieram ainda outros hits sempre muito bem interpretados, quer por Sean Riley – sempre muito grato pelos aplausos e deveras preocupado com o impacto da banda e a sua imagem: passou o concerto a apresentar-se -, quer por seus comparsas, com destaque para um novo convidado e amigo da banda, Nuno Lopes no baixo. Destaques para “Houses and wives”, “Talk tonight” (aquele início pede “I used to love her…”), “Harry Rivers” ou “Moving on”. Algum vazio pela ausência do marcante "Hold on".
No final, e depois de um ligeiro incidente com um membro do público, ainda houve tempo para dois encores. E foi assim que Sean Riley se foi após pouco mais de uma hora de actuação, prometendo voltar a Famalicão. Por mim, espero que volte também ao Porto.
A entrada com “Working nights” serviu bem para apresentar aos menos atentos a banda e a sua estética subjacente. Vieram ainda outros hits sempre muito bem interpretados, quer por Sean Riley – sempre muito grato pelos aplausos e deveras preocupado com o impacto da banda e a sua imagem: passou o concerto a apresentar-se -, quer por seus comparsas, com destaque para um novo convidado e amigo da banda, Nuno Lopes no baixo. Destaques para “Houses and wives”, “Talk tonight” (aquele início pede “I used to love her…”), “Harry Rivers” ou “Moving on”. Algum vazio pela ausência do marcante "Hold on".
No final, e depois de um ligeiro incidente com um membro do público, ainda houve tempo para dois encores. E foi assim que Sean Riley se foi após pouco mais de uma hora de actuação, prometendo voltar a Famalicão. Por mim, espero que volte também ao Porto.
domingo, 1 de novembro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Cinema:

THE VISITOR
The Visitor (2008) conta a história do sexagenário professor de economia Walter (Richard Jenkins), personagem soturna e melancólica, cuja vida se arrasta num marasmo só atenuado pela música clássica e pelo vinho nocturno. Walter vagueia pela tela em “câmara lenta”, quiçá esperando uma morte libertadora. Vida vazia, felicidade perdida na monotonia diária: Jenkins adormece-nos qual zombie de pulsações cardíacas inaudíveis e alerta-nos para a rotina que corrói a vontade de viver.
À medida que avança o filme vai-se revelando: Walter desloca-se a Nova Iorque para uma conferência que mal domina e instala-se no seu apartamentozinho esquecido na cidade acordada. Ao chegar, depara-se porém com um casal de imigrantes ilegais - Zainab (senegalesa) e Tarek (sírio) - estranhamente instalados em sua casa. Perante o mal-entendido, o casal deixa o apartamento desculpando-se e fica à deriva. É Aqui que de repente se vislumbra a reviravolta emocional na película: Walter concede aos estrangeiros o direito de ficarem em sua casa e passa a desenvolver-se um nicho de relações verdadeiramente marcantes e surpreendentes.
A vida lenta e desinteressante do protagonista abre-se a um novo fôlego através da amizade que vai crescendo. A compassada música clássica dá progressivamente lugar ao ritmo do Djembé, que Tarek domina e cuja paixão transfere para Walter. É o retomar das emoções pelo peito gelado do professor.
Quando Tarek é detido pelas autoridades e se prepara para ser deportado, explode definitivamente a emoção descontrolada em Walter, a qual suplanta a sua outrora quietude silenciosa. Aí ressaltam os valores da amizade, mas uma amizade exótica, improvável e pura, guiada pelo poder incontornável da música, que nos enternecem – a amizade e a música - como o kitsch mais vulgar.
O guionista e realizador Thomas McCarthy, apresenta-nos pois um argumento recheado de temas interessantes e didácticos que explicitam várias visões sociais e culturais da sociedade americana, como os ideais antagónicos de xenofobia e abertura internacional. Todavia, sinto que o que importa verdadeiramente neste filme é a perspectiva psicológica e vanguardista sobre a amizade – que se sobrepõe aqui à mentalidade pós 11 de Setembro de desconfiança aterradora dos ocidentais diante de tudo o que sugira mundo árabe -, sobre as diferentes formas de procurar novos prazeres na vida e, sobretudo, sobre a pertinência de um novo começo vivencial, a que todo o ser humano tem direito na sua busca que deve ser incessante de felicidade.
Para terminar, não podia deixar de realçar esse enorme vulto da representação (outrora escondido em papéis secundários) que é indubitavelmente Richard Jenkins.
rodriguez 2009À medida que avança o filme vai-se revelando: Walter desloca-se a Nova Iorque para uma conferência que mal domina e instala-se no seu apartamentozinho esquecido na cidade acordada. Ao chegar, depara-se porém com um casal de imigrantes ilegais - Zainab (senegalesa) e Tarek (sírio) - estranhamente instalados em sua casa. Perante o mal-entendido, o casal deixa o apartamento desculpando-se e fica à deriva. É Aqui que de repente se vislumbra a reviravolta emocional na película: Walter concede aos estrangeiros o direito de ficarem em sua casa e passa a desenvolver-se um nicho de relações verdadeiramente marcantes e surpreendentes.
A vida lenta e desinteressante do protagonista abre-se a um novo fôlego através da amizade que vai crescendo. A compassada música clássica dá progressivamente lugar ao ritmo do Djembé, que Tarek domina e cuja paixão transfere para Walter. É o retomar das emoções pelo peito gelado do professor.
Quando Tarek é detido pelas autoridades e se prepara para ser deportado, explode definitivamente a emoção descontrolada em Walter, a qual suplanta a sua outrora quietude silenciosa. Aí ressaltam os valores da amizade, mas uma amizade exótica, improvável e pura, guiada pelo poder incontornável da música, que nos enternecem – a amizade e a música - como o kitsch mais vulgar.
O guionista e realizador Thomas McCarthy, apresenta-nos pois um argumento recheado de temas interessantes e didácticos que explicitam várias visões sociais e culturais da sociedade americana, como os ideais antagónicos de xenofobia e abertura internacional. Todavia, sinto que o que importa verdadeiramente neste filme é a perspectiva psicológica e vanguardista sobre a amizade – que se sobrepõe aqui à mentalidade pós 11 de Setembro de desconfiança aterradora dos ocidentais diante de tudo o que sugira mundo árabe -, sobre as diferentes formas de procurar novos prazeres na vida e, sobretudo, sobre a pertinência de um novo começo vivencial, a que todo o ser humano tem direito na sua busca que deve ser incessante de felicidade.
Para terminar, não podia deixar de realçar esse enorme vulto da representação (outrora escondido em papéis secundários) que é indubitavelmente Richard Jenkins.
The Visitor
Realização: Thomas McCarthy.
Elenco: Richard Jenkins, Haaz Sleiman, Danai Gurira, Hiam Abbass, Marian Seldes, Maggie Moore, Michael Cumpsty.
Nacionalidade: EUA, 2008.
domingo, 4 de outubro de 2009
terça-feira, 8 de setembro de 2009
AS MINHAS MELHORES
Não terá sido sensato limitar a lista de músicas de uma vida a 10, pelo menos a avaliar pelos comentários... eu próprio posso afirmar que foi terrível chegar a uma triagem de 26 músicas, das quais tive que eliminar mais 3 para chegar a umas razoáveis 23 (o número 23 é meramente casual). Daqui, tentei da forma mais justa possível elaborar o meu top-ten, se bem que olhe para ele e me venham à cabeça outras faixas que me fazem sentir extremamente injusto...
Em suma, apresento as minhas 10, consensuais ou não... é um risco que se explica pelo carácter pessoal da escolha. Muitos não concordarão, mas estou certo que todas as faixas incluídas têm um significado especial que é só nosso e que por isso legitima a sua preferência.
Top-ten:
David Bowie, Rock’n’ roll suicide
http://www.youtube.com/watch?v=9jg4ekLG9Zo
Radiohead, Paranoid Android
http://www.youtube.com/watch?v=sPLEbAVjiLA&feature=fvst
New Order, Blue Monday
http://www.youtube.com/watch?v=1BL-JCM8uMk
The Rolling Stones, Sympathy for the Devil
http://www.youtube.com/watch?v=zuTiTfbfy7Q
Serge Gainsbourg, Jane Birkin, Je t’aime… Moi non plus
http://www.youtube.com/watch?v=YL3MWmsWR_k&feature=related
Oasis, Don’t look back in anger
http://www.youtube.com/watch?v=r8OipmKFDeM
Cousteau, Black heart of mine
http://www.lastfm.com.br/music/Cousteau/Nova+Scotia/Black+Heart+of+Mine
Nick Cave and The Bad Seeds, Stagger Lee
http://www.youtube.com/watch?v=nssw909H8xE
Pixies, Where is my mind?
http://www.youtube.com/watch?v=4zP1IjgSO_E&feature=related
Joy Division, Atmosphere
http://www.youtube.com/watch?v=ZNoUi0mpBOc
Lado B:
The Beatles, Hey Jude
http://www.youtube.com/watch?v=BD3ovfZXO5Q
Iggy Pop, Lust for life
http://www.youtube.com/watch?v=jQvUBf5l7Vw
The Cure, Close to me
http://www.youtube.com/watch?v=MIDeUssDFE0
Frank Sinatra, My way
http://www.youtube.com/watch?v=8L1sg7RImyM
dEUS, For the Roses
http://www.youtube.com/watch?v=8Gj2MCf2G80&feature=related
Velvet Underground, Sweet Jane
http://www.youtube.com/watch?v=TN7pt6VWUts&feature=related
The Verve, Bitter Sweet Symphony
http://www.youtube.com/watch?v=1lyu1KKwC74&feature=related
Nancy Sinatra, Theese boots are made for walkin’
http://www.youtube.com/watch?v=yRkovnss7sg
Leonard Cohen, Hallelujah
http://www.youtube.com/watch?v=ttv5dyvtF4o&feature=fvst
Placebo, Bionic
http://www.youtube.com/watch?v=7B2C4RXORpU&feature=PlayList&p=2B1FC6A69B271443&playnext=1&playnext_from=PL&index=35
The Sound, Total recall
http://www.youtube.com/watch?v=70M5fR_8NtE&feature=related
Tindersticks, Marbles
http://www.youtube.com/watch?v=5ywm5rSnlSs
Flaming Stars, A Hell of a Woman
(sem link disponível)
terça-feira, 1 de setembro de 2009
AS MELHORES DE SEMPRE
Clássica, jazz, pop, rock, trip-hop, dance, alternativa... as melhores faixas de sempre podem variar naturalmente de pessoa para pessoa. Relativamente a este tema, há muito que ando para publicar aqui a minha lista das 10 músicas de uma vida, mas o que é certo é que a indecisão entre colocar uma ou outra e acabar por ser injusto tem-me feito hesitar e meditar mais um pouco. De qualquer forma o meu top-ten está quase pronto e um dia destes coloco-o aqui para quem quiser consultar e deliciar-se. Até lá estou aberto a sugestões, não vá eu esquecer-me de algum vulto incontornável. Comenta, amigo e deixa o teu voto. Não é preciso ligar para aqueles números começados por 800 e qualquer coisa, nem se paga sequer...
segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Caminho ausente sobre o fogo do presente
Pisando folhas azuis onde cairam chuvas salgadas naquele tempo de sol rosado
A silhueta que segue curvada é rainha do nada, sempre solta, sempre aguda
Escavando na alma chagas e no peito grutas sem fundo
Este mundo.
A beleza é finda, o fogo extinto
Certeza fugidia
Evadiu-se a alegria sadia
Como aquela visão que tive um dia
Eis a presente cegueira.
Porque é o pesar que me conduz pelas chuvas azuis
Folhas salgadas afundam-se em pauis
De afagar ânsias moribundas
Melancolias profundas.
Sentado olho o telhado de uma casa que já foi feliz
Daqui não vislumbro a raíz
Fantasma sigo. Sombra.
Baloiçante na espuma dos dias. Amanhã. Outro suspiro.
A amarga fé em renascer persigo.
Pisando folhas azuis onde cairam chuvas salgadas naquele tempo de sol rosado
A silhueta que segue curvada é rainha do nada, sempre solta, sempre aguda
Escavando na alma chagas e no peito grutas sem fundo
Este mundo.
A beleza é finda, o fogo extinto
Certeza fugidia
Evadiu-se a alegria sadia
Como aquela visão que tive um dia
Eis a presente cegueira.
Porque é o pesar que me conduz pelas chuvas azuis
Folhas salgadas afundam-se em pauis
De afagar ânsias moribundas
Melancolias profundas.
Sentado olho o telhado de uma casa que já foi feliz
Daqui não vislumbro a raíz
Fantasma sigo. Sombra.
Baloiçante na espuma dos dias. Amanhã. Outro suspiro.
A amarga fé em renascer persigo.
(Rodriguez2009)
domingo, 12 de julho de 2009
Optimus alive, dia 2

PLACEBO DE EFEITO RÁPIDO
Este festival tem muita publicidade, boa situação geográfica na capital, uma organização satisfatória para eventos do género, mas falta-lhe qualquer coisa… Confesso que não foi o que esperava. Seja porque não disfrutei do concerto dos Placebo conforme as expectativas por haver uma péssima visibilidade, mesmo furando para o meio da turba; seja porque os concertos foram curtíssimos (pelo menos foi essa a impressão com que fiquei).
Demasiadas bandas, horário demasiado alargado, um terreno em frente ao palco principal que parece descer na direcção traseira, daí a péssima visibilidade do palco, mesmo estando-se atrás de pessoas mais baixas… ou então, um palco mais baixo que o habitual. Seja como for, foram 50 euros vezes dois, mais 65 de gasolina, mais 35 de portagens, mais um regresso de cabeçadas no volante até ao Porto…300 km duríssimos… Tudo isto para ver, em condições precárias, pouco mais de uma hora de Placebo…
Mas a banda de Brian Molko actuou à sua (nova) imagem. Tiveram momentos muito bons e à altura do que esperava. O substituto de Steve Hewitt é mais jovem e enérgico, os músicos contratados dão uma nova dimensão à banda e as faixas do novo “Battle for the sun” são revivalistas nos acordes veementes das guitarras. Menos electrónica no ar, um regresso às origens em termos estéticos, mas uma maturidade crescente, até na pose mais sóbria de Molko. O belga aparece agora menos travestido e mais másculo nos movimentos e na postura. O rock é mais puro e vibrante, se bem que a marca punk-glam dos Placebo esteja visível, quer nas letras, quer mesmo nos acordes.
Em suma, uma emoção grande vê-los ali depois de 300 km e 200 euros fora do bolso, pela primeira vez, depois de anos e anos a esperar. Mas uma emoção também ela sóbria, porque afinal eles nem sequer foram cabeças de cartaz, mas principalmente porque as condições e o tempo de actuação não foram o que se esperava. Não tocaram “This picture”, nada do 1º album; pouco do segundo; nem sequer “Slave to the wage”! Do novíssimo, também ficaram no bolso o excelente “Kings of medicine” ou “Bright lights”. Em suma: Placebo fica para uma próxima, enquanto isso, há sempre o Lcd com as colunas a bombar.
Demasiadas bandas, horário demasiado alargado, um terreno em frente ao palco principal que parece descer na direcção traseira, daí a péssima visibilidade do palco, mesmo estando-se atrás de pessoas mais baixas… ou então, um palco mais baixo que o habitual. Seja como for, foram 50 euros vezes dois, mais 65 de gasolina, mais 35 de portagens, mais um regresso de cabeçadas no volante até ao Porto…300 km duríssimos… Tudo isto para ver, em condições precárias, pouco mais de uma hora de Placebo…
Mas a banda de Brian Molko actuou à sua (nova) imagem. Tiveram momentos muito bons e à altura do que esperava. O substituto de Steve Hewitt é mais jovem e enérgico, os músicos contratados dão uma nova dimensão à banda e as faixas do novo “Battle for the sun” são revivalistas nos acordes veementes das guitarras. Menos electrónica no ar, um regresso às origens em termos estéticos, mas uma maturidade crescente, até na pose mais sóbria de Molko. O belga aparece agora menos travestido e mais másculo nos movimentos e na postura. O rock é mais puro e vibrante, se bem que a marca punk-glam dos Placebo esteja visível, quer nas letras, quer mesmo nos acordes.
Em suma, uma emoção grande vê-los ali depois de 300 km e 200 euros fora do bolso, pela primeira vez, depois de anos e anos a esperar. Mas uma emoção também ela sóbria, porque afinal eles nem sequer foram cabeças de cartaz, mas principalmente porque as condições e o tempo de actuação não foram o que se esperava. Não tocaram “This picture”, nada do 1º album; pouco do segundo; nem sequer “Slave to the wage”! Do novíssimo, também ficaram no bolso o excelente “Kings of medicine” ou “Bright lights”. Em suma: Placebo fica para uma próxima, enquanto isso, há sempre o Lcd com as colunas a bombar.
terça-feira, 23 de junho de 2009
"Olá, Maria"
Era uma menina de cabelos negros e lisos, parecia uma pequena diva a querer ser grande na pose e nas maneiras de falar. Discreta mas com um ar simpático, amigável e terno. Aparecia bastas vezes, misturada no meio do turbilhão barulhento dos degraus das 17h45.
Quando vinha, trazia luz no seu olhar muito vivo e ansioso de conversar. Contava histórias de brincadeiras, sorria a dizer “olá” e quem a via chegar alegrava-se por cá a ter. Chegou a ensinar o caminho para casa, lembro-me de uma vez, a primeira que a levei, estava perdido, não conhecia o rumo e ela, muito esperta no banco de trás, cabecita levantada a indicar: - “Paulo, vai por ali!”. E eu sorria interiormente por ter a felicidade, afinal, de a ver crescer e aos outros, por sentir no fundo que um dia, quando fosse grande, ia lembrar-se de mim com o mesmo sorriso com que me dizia boa tarde no turbilhão traquina das escadas.
Às vezes ainda a ouço no meio de todos os outros que nos acompanham dia após dia. Parece estar ali a brincar como sempre esteve. Nem sequer olho, para não estragar o sonho.
Naquele dia, à hora de almoço, entrei no recreio à procura do Diogo e logo ouvi uma vozinha familiar vinda do meio da brincadeira, a voz dela a chamar-me : “- Paulo! Olá!!” – “Olá, Maria”- respondi, na rotina de quem tem que dizer dezenas de “olás” pelo dia fora. Porque um “olá” rotineiro não traduz os sentimentos que nos enchem em relação àqueles minúsculos seres humanos que se tornam bons gigantes connosco. São muito maiores e vêem-se verdadeiramente na ausência. No vazio. Mesmo assim sinto um buraco interior quando me lembro…
Quem me dera voltar à escola para ouvir de novo aquele “olá”. De certeza que lhe daria mais do que duas simples palavras. A Maria João brinca agora num recreio distante e não vai ser grande e tão pouco lembrar-se de mim. Nunca mais vai subir os degraus, nem os da vida, tão pouco os do Fantasiário. Todavia, tenho uma certeza: para nós ela continua aqui, e sempre que chegam as traquinas 17h45, vem a lembrança e a esperança, ainda que vã, de um novo “olá”.
Quando vinha, trazia luz no seu olhar muito vivo e ansioso de conversar. Contava histórias de brincadeiras, sorria a dizer “olá” e quem a via chegar alegrava-se por cá a ter. Chegou a ensinar o caminho para casa, lembro-me de uma vez, a primeira que a levei, estava perdido, não conhecia o rumo e ela, muito esperta no banco de trás, cabecita levantada a indicar: - “Paulo, vai por ali!”. E eu sorria interiormente por ter a felicidade, afinal, de a ver crescer e aos outros, por sentir no fundo que um dia, quando fosse grande, ia lembrar-se de mim com o mesmo sorriso com que me dizia boa tarde no turbilhão traquina das escadas.
Às vezes ainda a ouço no meio de todos os outros que nos acompanham dia após dia. Parece estar ali a brincar como sempre esteve. Nem sequer olho, para não estragar o sonho.
Naquele dia, à hora de almoço, entrei no recreio à procura do Diogo e logo ouvi uma vozinha familiar vinda do meio da brincadeira, a voz dela a chamar-me : “- Paulo! Olá!!” – “Olá, Maria”- respondi, na rotina de quem tem que dizer dezenas de “olás” pelo dia fora. Porque um “olá” rotineiro não traduz os sentimentos que nos enchem em relação àqueles minúsculos seres humanos que se tornam bons gigantes connosco. São muito maiores e vêem-se verdadeiramente na ausência. No vazio. Mesmo assim sinto um buraco interior quando me lembro…
Quem me dera voltar à escola para ouvir de novo aquele “olá”. De certeza que lhe daria mais do que duas simples palavras. A Maria João brinca agora num recreio distante e não vai ser grande e tão pouco lembrar-se de mim. Nunca mais vai subir os degraus, nem os da vida, tão pouco os do Fantasiário. Todavia, tenho uma certeza: para nós ela continua aqui, e sempre que chegam as traquinas 17h45, vem a lembrança e a esperança, ainda que vã, de um novo “olá”.
http://aeiou.visao.pt/menina-de-sete-anos-estrangulada-pelo-pai-com-video=f510605
(Junho 2009)
sexta-feira, 22 de maio de 2009
Contrariado ensaio

Vida é Morte. Morte de contrário é Vida. Destino. Homem o é sempre fantoche, dia de Natal. Frequentemente, amor é Fogo. Morte é Amor. Fogo original do amor o resultado mau Dá. Texto triste este que mais resulta estranho cantar aquele porque há falsamente escrita Aleatória.
Vaguear pelo mar ao barco de atirar vou saudade de gaivotas Doar. Sinto porque, sou alma de espuma na praia da Areia ,). Aquela lisa e Aguada.
Pensamentos obtusos tenho quando Adormeço. Cansados momentos passei quais a junto gaivotas e corvos que ora são macios, ora Soturnos.
Amanhã vou, dançar naquele sonho de tarde, completo em Noite.
Consigo ser, consigo amar, consigo Sonhar. Mar, amor, dor. Água faz falta em dia Árido. Lágrimas Sempre. Tédio torrado pelo Fumo espesso.
Padeço e Adormeço.
Vaguear pelo mar ao barco de atirar vou saudade de gaivotas Doar. Sinto porque, sou alma de espuma na praia da Areia ,). Aquela lisa e Aguada.
Pensamentos obtusos tenho quando Adormeço. Cansados momentos passei quais a junto gaivotas e corvos que ora são macios, ora Soturnos.
Amanhã vou, dançar naquele sonho de tarde, completo em Noite.
Consigo ser, consigo amar, consigo Sonhar. Mar, amor, dor. Água faz falta em dia Árido. Lágrimas Sempre. Tédio torrado pelo Fumo espesso.
Padeço e Adormeço.
Rodriguez 11/11/2008
quarta-feira, 29 de abril de 2009
VEM AÍ "BATTLE FOR THE SUN"!

É grande a minha expectativa, mais uma vez. Os Placebo anunciaram que vão lançar um novo álbum de estúdio em Junho. Será o primeiro álbum do grupo com o novo baterista, Steve Forrest. O sexto álbum de originais chega às lojas a 8 de Junho e será, segundo Brian Molko, o primeiro disco conceptual dos Placebo.
Eis as declarações de Molko acerca do novo trabalho:
«Acho que o "Battle for the Sun" é o nosso primeiro álbum a contar uma história ao longo dos seus 52 minutos. Os nossos lançamentos anteriores eram apenas uma compilação de canções».
O novo disco contou com a produção de David Bottrill (Tool, dEUS e Muse) e é o primeiro desde a saída do baterista Steve Hewitt, entretanto substituído por Steve Forrest.
Os Placebo vão estar em Portugal a 10 de Julho no palco principal do Festival Optimus Alive!09 e eu estarei lá para os ver ao vivo pela primeira vez.
Alinhamento de «Battle for the Sun»:
1. Kitty Litter
«Acho que o "Battle for the Sun" é o nosso primeiro álbum a contar uma história ao longo dos seus 52 minutos. Os nossos lançamentos anteriores eram apenas uma compilação de canções».
O novo disco contou com a produção de David Bottrill (Tool, dEUS e Muse) e é o primeiro desde a saída do baterista Steve Hewitt, entretanto substituído por Steve Forrest.
Os Placebo vão estar em Portugal a 10 de Julho no palco principal do Festival Optimus Alive!09 e eu estarei lá para os ver ao vivo pela primeira vez.
Alinhamento de «Battle for the Sun»:
1. Kitty Litter
2. Ashtray Heart
3. Battle For The Sun
4. For What It's Worth
5. Devil In The Details
6. Bright Lights
7. Speak In Tongues
8. The Never-Ending Why
9. Julien
10. Happy You're Gone
11. Breathe Underwater
12. Come Undone
13. Kings Of Medicine
SINGLE DE APRESENTAÇÃO:
sábado, 18 de abril de 2009
KUSTURIKA FEZ A FESTA

Emir Kusturika em Gaia, em Novembro do ano passado. Desta vez a festa foi no Rosa Mota
O meu conhecimento acerca do realizador Emir Kusturika reduz-se a 2 dos seus filmes, que ficaram gravados na minha memória e comprovaram a ideia de um realizador marcante do cinema contemporâneo: Underground e Gato Preto, Gato Branco. Derivando a linha de opinião para sua música, conheço o suficiente para comprovar o que vi nos ditos filmes: a ideia que se faz deste sérvio de meia idade a partir por exemplo de Gato Preto, Gato Branco é sem dúvida aquela de alguém cujos cânones estéticos pouco importam quando entrando em colisão com uma cultura social dos balcãs impregnada de grotesco, de caos, de tragi-cómico, de bizarro ou simplesmente de um alegre exuberante sem limites.
E foi mesmo isso que pude viver ontem no Pavilhão Rosa Mota. A entrada em palco da "No Smoking Orchestra" foi tudo menos convencional: Um vinha vestido de revisor de comboio, outro com cartola de mágico "gingão"; um saxofonista que nunca foi a Kansas City, um cantor histérico com roupa de polvo-dragão; o filho de Emir, o irmão do vocalista; um fotógrafo que passou o concerto em pleno palco a exercer o seu ofício, entre os restantes não menos espampanantes. De tudo um pouco.
E foi mesmo isso que pude viver ontem no Pavilhão Rosa Mota. A entrada em palco da "No Smoking Orchestra" foi tudo menos convencional: Um vinha vestido de revisor de comboio, outro com cartola de mágico "gingão"; um saxofonista que nunca foi a Kansas City, um cantor histérico com roupa de polvo-dragão; o filho de Emir, o irmão do vocalista; um fotógrafo que passou o concerto em pleno palco a exercer o seu ofício, entre os restantes não menos espampanantes. De tudo um pouco.
Entre todos eles, um Senhor de pose serena com sua guitarra, por vezes divertido, é certo, mas sempre em compostura sábia, nem mesmo manchada pelo chapéu à... (hei-de lembrar-me do nome da personagem... é de uma série TV qualquer dos anos 80): o Senhor Emir Kusturika.
A música é folclore balcânico, é música gipsy, é clássica, é pop, é rock, é por vezes até rockabily. É alegria imprevisivelmente e inevitavelmente contagiante, mesmo para quem não gosta ou não conhece. É cinema, é comédia grotesca, é ópera bufa, é lenga-lenga de carrossel de feira, é circo, é festa!
Na verdade, ninguém consegue ficar indiferente ao espectáculo da No Smocking Orchestra; aos saltos demoníacos do seu vocalista, aos gritos de incitamento ao público; aos malabarismos do violino, da percussão, do acordeão, da tuba, dos tambores! O fôlego falta muitas vezes aos artistas, como falta a um público sedento de alegria em tempos de melancolia.
Nele Karajlić, o frenético e bizarro cantor, é um jongleur que incita o público através de impulsos corporais, de acrobacias, de gritos de clichés políticos irónicos, de diálogos quase patéticos, mas muito divertidos, que dão origem a situações completamente insólitas e a uma interactividade nova com o público. Desde miúdas vindas da plateia a dançar no meio do palco, possuídas pela energia dos rapazes sérvios, dando azo inclusivamente, pasme-se, a erros de tradução verdadeiramente inesperados (como explicar à moça que "are you ready" não se traduz por "eu amo-te"?); até à guitarra de Kusturika transformada em violino, passando pela confusão total em palco com invasões sucessivas de público.
Para a festa ser perfeita, só faltava Nele Karajlic apresentar-se como sendo Lisandro Lopez. Rubro no Pavilhão.
"Bubamara", o tema de culto, veio finalmente aconchegar os corações, enquanto a cerveja tardava a encher os copos e o grande "Bino" se regozijava por servir de cicerone espíritual - do meu contagiante grupo de comparsas da festa - de tamanho espectáculo. Mas esta é uma piada privada.
Rodriguez 2009
sexta-feira, 3 de abril de 2009
KENNY
Os gatos devem limitar-se a serem portadores de pouco disto. Percebem muito de tapetes e de futebol individual; dominam os sprints, dormem sem ressonar, porque ressonam acordados.
São mestres na arte do ócio, lavam-se a cada hora e vivem felizes. Parecem invisíveis às vezes, mas o aspirador sabe bem da sua existência. Outras, barram caminhares apressados no sono vertical da manhã indesejada.
São vidas dependentes, almas (in)conscientes do seu relevo na humana rotina. São corpos felpudos que vagueiam, mudos, pela mesa acima.
Amigos incondicionais, admiráveis animais. São gatos, nada mais.
segunda-feira, 9 de março de 2009
SONHO VII

"Escapismo"
A estrela amarga retorcida
Dá asas à imaginação que,
Leviana e cintilante
Como a água-sol do mar escarlate,
Atormenta, Tortura
Ressuscita a ânsia pseudo-devoradora
De um Além intocável
Ironicamente hipócrita
Que ri.
Como aquela mulher invisível
Que um dia te segredou
Lascivas palavras de Amor
E sonhas, sonhas, sonhas…
Dá asas à imaginação que,
Leviana e cintilante
Como a água-sol do mar escarlate,
Atormenta, Tortura
Ressuscita a ânsia pseudo-devoradora
De um Além intocável
Ironicamente hipócrita
Que ri.
Como aquela mulher invisível
Que um dia te segredou
Lascivas palavras de Amor
E sonhas, sonhas, sonhas…
Rodriguez (Lux. 1997)
terça-feira, 24 de fevereiro de 2009
MATERIALIZAR VÍCIOS
I- Fotografia
Passa a infância, passa a juventude, passa o tempo, passam os sonhos.
Não passam, não. Podem até ser adiados, mas não têm que desaparecer.
Sempre fui um bom observador de fotografia, sempre me incomodou a forma como as pessoas tiram fotografias nos casamentos, nas festas idiotas de Carnaval ou até mesmo na praia e nas paisagens bonitas. Porque sempre me pareceram demasiado óbvias e previsíveis aquelas imagens, sempre muito "centradas" ou focadas em coisas parvas, como caras sorridentes e dias de céu azul.
Nada tenho contra dias de céu azul, admiro-os até bastante, mas sinto que podem ser diferentes quando captados de forma mais intimista ou inesperada... mas nunca soube como o fazer, nunca soube captar uma lágrima de paixão ou um sorriso de infelicidade, uma côr de alegria transparecida num rosto desconhecido. Porque nunca tive os meios.
Pois agora é que vai ser, com a prendinha que acabo de receber da minha mulherzinha muito querida e dedicada... A bela Sony DSLR A-200K, lentes reflex, claro está, 10 ou 11 mega píxeis, etc, etc, etc... uma pequena maravilha à espera de ser explorada, à espera de ser pintada com belas imagens!
Só falta aprender de forma o mais rigorosa possível... mas isso está em vias e em breve poderão apreciar aqui os primeiros resultados!
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
DIA 2: OASIS



Lisboa continua uma cidade intensa. A viagem foi rápida e calma. O Pavilhão Atlântico não estava cheio e a entrada foi psicadélica. Ver os Oasis ao vivo é como desfrutar de uma experiência fulgurante, daquelas que provavelmente só acontecem umas 10 vezes em toda uma vida.
A banda dos irmãos Gallagher oferece um espectáculo cuja produção é a das grandes bandas rock e cujo som feito de melódicos exageros eléctricos é um elixir contra o marasmo quotidiano. Os Oasis produzem uma música que é muito mais que meros resquícios beatlianos, canções cuja contemporaneidade é visível, não só no aparato mediático que é a própria banda, mas pela beleza toldada de alguma violência que a tonifica e lhe dá vida. Temas como "Wonderwall"; "Don't look back in anger " parecem destinados a eternizar-se. "Supersonic", "Rock'n roll star", " Cigarettes and alcohol" traduzem e resumem quase toda a música dos anos 90, e o novíssimo "Dig out your soul" parece constituir uma nova viragem depois da padronização dos últimos álbuns.
Liam Gallagher surgiu no palco do Pavilhão Atlântico , com um muito elegante casaco preto napoleónico, que não tirou até ao final do concerto. Sempre muito selecto e elegante, sempre muito fechado e distinto, até na forma única como se curva debaixo do microfone para cantar de lábios colados ao mesmo. Porém, desta vez afável ao ponto de oferecer ao público duas das suas famigeradas pandeiretas.
De facto, Liam é algo de importante e incontornável além do mero "enfant térrible" do rock. Trata-se de um vocalista de eleição, cuja voz dá um encanto quase infantil aos Oasis, por isso a banda não pode viver sem ele, mesmo quando se diz que é Noel o cérebro.
E Noel - depois de apelar ao público que pedisse a Mourinho para ir treinar o City - ofereceu à plateia belas interpretações incluídas no último álbum Dig out your soul, onde divide a interpretação vocal quase a meias com o irmão. Na verdade temas como "Bag it up", "I´m outta time" ou "Falling down" provaram ontem que os Oasis estão vivos e talvez numa nova era da sua música.
Depois das altas emoções vividas ontem no Pavilhão Atlântico, sinto-me hoje saudoso de "Supersonic", "Champagne supernova" ou do acústico "Don't look back in anger", interpretado pelos milhares do Atlântico, obedecendo em êxtase ao maestro Noel.
O concerto durou cerca de uma hora, logo secundada por mais 40 minutos de "encores" que, tal como acontecera na primeira hora, foram compostos por um intercalar de velhos temas com os novos. E a noite se foi com "I am the Walrus", o tema dos Beatles recorrente na banda de Manchester. Os Oasis a partir e o Porto como horizonte.
DIA 1: TINDERSTICKS


Os Tindersticks actuaram na Casa da MúsicaDia de São Valentim, 23h, Casa da Música. A entrada para a sala Suggia processa-se a uma lentidão incomodativa. Os bares e locais itinerantes que a circundam a isso ajudam, mas os hábitos dos portugueses continuam a negligenciar uma pontualidade que devia ser herança dos nossos aliados de sempre. Ingleses. Tindersticks. Começam a actuar às 00h30, depois de um rapaz de voz à Dylan e guitarra afinada ter trauteado umas letras bem interessantes em ritmo que me lembrou muito Spain.
Os Tindersticks, como dizia, são bem ingleses, mas têm muito em comum com a alma mal fadada lusitana. A melancolia que é deles também é nossa, o pessimismo e a dor, sempre a dor amarga e soturna. Continuam como nos velhos tempos, talvez menos pessimistas, mas ultra-românticos na pose, clássicos nos arranjos musicais. As composições orquestrais luxuosas e extremamente elegantes só poderiam ter complemento perfeito na voz grave, soturna, aveludada, danificada pelo Whisky e pelos cigarros, de Stuart Staples.
Já referi neste blog que se ouve Tindersticks e se chora um destino romântico adverso, se cai na depressão e na melancolia. Mas é uma melancolia que é doce e macia. Um sentimento de orgulho na dor, na dependência do amor.
O concerto foi aquilo que esperava, nada de novo, nenhuma desilusão. Apenas o lamento pela ausência de vozes femininas como Isabella Rosselini, Ann Magnusson ou Nancy Sinatra, pelo silêncio de "Buried bones", "Jism" ou "Marbles". De resto, os Tindersticks intercalaram velhas faixas como "Dying Slowly", "Sleepy song", "She's gone" ou "Her" com praticamente todas as faixas do último Hungry Saw. Destaco "Yesterday tomorrows", "The flicker of a little girl" ou esse hino aos apaixonados que é "Boobar, come back to me".
No final, alguma mágoa pessoal pelo ambiente de quase adeus aos Tindersticks ao vivo, a emoção de "Tiny tears" e a conviccção de que a maturidade estará próxima, tão próxima como estiveram os cabelos grisalhos de Staples.
Belo dia de S. Valentim, sim.
(fotos Blitz)quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009
TÉDIO BOYS

Banda de Coimbra com uma história ímpar em Portugal. Apesar de não terem tido grande mediatismo a sua influência na música portuguesa é enorme, por ter gerado várias bandas como d3Ö, Wraygunn e Bunnyranch. Nasceram como um lado B da banda É Mas Foice
Começaram por tocar nas ruas da cidade de Coimbra, tendo sido expulsos pela polícia. Mais tarde tocam no palco da Queima das fitas, espetáculo que ficou marcado pela actuação em nudez dos seus elementos.
O nome da banda vêm, segundo o vocalista Toni Fortuna, do tédio que se vivia na cidade de Coimbra na altura.
O grande sucesso da banda fez-se nos EUA, onde fizeram várias digressões.
"Filhos do Tédio", é um documentário com cerca de 48 minutos de Rodrigo Fernandes e Rita Alcaire sobre o percurso desta mítica banda.
Actualmente, os vários elementos têm outros projectos. Toni canta nos d3Ö, Kaló está nos Bunnyranch como baterista e vocalista. O guitarrista Vitinho agitou Londres com The Parkisons e Paulo Furtado conhece o êxito com os WrayGunn e o seu projecto a solo Lengendary Tiger Man.
Começaram por tocar nas ruas da cidade de Coimbra, tendo sido expulsos pela polícia. Mais tarde tocam no palco da Queima das fitas, espetáculo que ficou marcado pela actuação em nudez dos seus elementos.
O nome da banda vêm, segundo o vocalista Toni Fortuna, do tédio que se vivia na cidade de Coimbra na altura.
O grande sucesso da banda fez-se nos EUA, onde fizeram várias digressões.
"Filhos do Tédio", é um documentário com cerca de 48 minutos de Rodrigo Fernandes e Rita Alcaire sobre o percurso desta mítica banda.
Actualmente, os vários elementos têm outros projectos. Toni canta nos d3Ö, Kaló está nos Bunnyranch como baterista e vocalista. O guitarrista Vitinho agitou Londres com The Parkisons e Paulo Furtado conhece o êxito com os WrayGunn e o seu projecto a solo Lengendary Tiger Man.
Wikipedia
Os Tédio Boys eram uma referência musical sempre presente quando vagueava por Coimbra em tempos estudantis. Espécie de bandeira cosmopolita de circuitos independentes da música coimbrã, constava que os Tédio tinham sucesso nos liceus americanos como ninguém, mas o que é certo é que a música estridente de cariz rockabilly da banda do actual Legendary Tiger Man ecoava pelas noites tertulianas de atmosfera mais freak
e pelas latadas que acabavam em Maio.
e pelas latadas que acabavam em Maio. Recordo especialmente um concerto a que assisti no célebre (mini) auditório da AAC com o meu amigo João Paublita. Era, se bem me recordo, um dia de semana ao fim da tarde, ambiente até nada propício a esse tipo de eventos. Várias pessoas foram enchendo o auditório, não seriam mais do que umas 50, porque aquilo não levava mais.
Os Tédio Boys entraram como qualquer banda, mas a determinada altura lembro-me de cadeiras amontoadas no canto do auditório, outras ainda a voar para o mesmo sítio e o pessoal em saltos e gritos demoníacos, tal era o frenesim causado pelo som dos rapazes do rock. Ainda hoje recordo a metamorfose repentina que foi aquele micro-concerto, a dimensão gigantesca que de repente ganhou, com as janelas tapadas por caras ávidas para entrar.
E este é o melhor elogio que posso fazer à rapaziada que acompanhava um Paulo Furtado de pose serena e imperturbável, o único que mantinha a compostura.
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009
Cinema

DEAD MAN, DE JIM JARMUSCH
Dead Man (1995) é poético na sua fotografia, poético no seu enredo, poético na filosofia que transmite, poético na música, poético no idealismo transmitido pelo seu epílogo.
William Blake (Johnny Depp), um contabilista de Clevelend faz uma viagem, física e espiritual, a um território que lhe é pouco familiar, ao encontro de um emprego que lhe fora prometido numa dessas fábricas produto da Revolução Industrial. Estamos no oeste americano, algures na segunda metade do século XIX. Perdido e ferido, encontra-se com um índio solitário e excêntrico, chamado "nobody", que acredita que Blake é o falecido poeta inglês com o mesmo nome. Nobody e William Blake seguem juntos uma viagem por situações cómicas e violentas. Contrariamente à sua natureza, as circunstâncias transformam Blake num fora-da-lei perseguido, num assassino e num homem cuja integridade física é deficitária, como um cadáver que se arrasta ao sabor da amizade, à procura da paz só encontrada numa passagem etérea final, metaforizada na viagem de barco pelo mar.
Jim Jarmusch coloca o seu foco na mutação temporal entre dois mundos: uma América “índia” que se tranforma numa selva industrial que corrompe o homem. Atirado para um mundo que se revela cruel e caótico, os olhos de William Blake abrem-se para a fragilidade que define a esfera da vida, como se abrem para o valor do amparo das relações humanas e para as crenças num além intocável.
A presença do poeta e pintor Blake, apesar de aparentemente non-sense, é nítida nos cenários e na atmosfera obscura que rodeia o filme: planos de câmara parados, uma excelente fotografia de cenários americanos a preto e branco, um humor subtil e meio bizarro, amigos famosos do cenário underground a contracenarem num gosto musical igualmente underground e bizarro à mistura. Na verdade, a banda sonora do filme resume-se a acordes de guitarra eléctrica (Neil Young) por vezes violentos e sempre sombrios. Outros grandes destaques vão inteiros para um Jonnhy Depp verdadeiramente assombroso no papel de Blake e, faça-se justiça, também para Gary Farmer, personificação perfeita dos índios americanos.
A película pode ser um enfado para o mais comum dos espectadores, e na verdade, quando dei por mim absorvido pelo seu andamento, apercebi-me que nada de surpreendente poderia acontecer, todavia não conseguia parar de ver. Cenas muitas vezes paradas, sem foco de entusiasmo, mas que prendem como num transe hipnótico poderoso. Parece a vida inevitável a desfilar diante de nós, impotentes para a fazer parar ou alterar, apenas convictos da nossa integridade moral e da certeza da justiça final. A condição humana ao melhor estilo.
William Blake (Johnny Depp), um contabilista de Clevelend faz uma viagem, física e espiritual, a um território que lhe é pouco familiar, ao encontro de um emprego que lhe fora prometido numa dessas fábricas produto da Revolução Industrial. Estamos no oeste americano, algures na segunda metade do século XIX. Perdido e ferido, encontra-se com um índio solitário e excêntrico, chamado "nobody", que acredita que Blake é o falecido poeta inglês com o mesmo nome. Nobody e William Blake seguem juntos uma viagem por situações cómicas e violentas. Contrariamente à sua natureza, as circunstâncias transformam Blake num fora-da-lei perseguido, num assassino e num homem cuja integridade física é deficitária, como um cadáver que se arrasta ao sabor da amizade, à procura da paz só encontrada numa passagem etérea final, metaforizada na viagem de barco pelo mar.
Jim Jarmusch coloca o seu foco na mutação temporal entre dois mundos: uma América “índia” que se tranforma numa selva industrial que corrompe o homem. Atirado para um mundo que se revela cruel e caótico, os olhos de William Blake abrem-se para a fragilidade que define a esfera da vida, como se abrem para o valor do amparo das relações humanas e para as crenças num além intocável.
A presença do poeta e pintor Blake, apesar de aparentemente non-sense, é nítida nos cenários e na atmosfera obscura que rodeia o filme: planos de câmara parados, uma excelente fotografia de cenários americanos a preto e branco, um humor subtil e meio bizarro, amigos famosos do cenário underground a contracenarem num gosto musical igualmente underground e bizarro à mistura. Na verdade, a banda sonora do filme resume-se a acordes de guitarra eléctrica (Neil Young) por vezes violentos e sempre sombrios. Outros grandes destaques vão inteiros para um Jonnhy Depp verdadeiramente assombroso no papel de Blake e, faça-se justiça, também para Gary Farmer, personificação perfeita dos índios americanos.
A película pode ser um enfado para o mais comum dos espectadores, e na verdade, quando dei por mim absorvido pelo seu andamento, apercebi-me que nada de surpreendente poderia acontecer, todavia não conseguia parar de ver. Cenas muitas vezes paradas, sem foco de entusiasmo, mas que prendem como num transe hipnótico poderoso. Parece a vida inevitável a desfilar diante de nós, impotentes para a fazer parar ou alterar, apenas convictos da nossa integridade moral e da certeza da justiça final. A condição humana ao melhor estilo.
Jim Jarmusch (born January 22, 1953 in Akron, Ohio)
Filmografia:
Permanent Vacation (1980)
The New World (1981)
Stranger Than Paradise (1982)
Down by Law (1983)
Coffee and Cigarettes (1986)
Mystery Train (1989)
Coffee and Cigarettes - Memphis Version (1989)
Night on Earth (1991)
Coffee and Cigarettes - Somewhere in California (1993)
Dead Man (1995)
Year of the Horse (1997)
Ghost Dog: The Way of the Samurai (1999)
Ten Minutes Older: The Trumpet (2002)
Coffee and Cigarettes (2003)
Broken Flowers (2005)
terça-feira, 3 de fevereiro de 2009
Também este crepúsculo...

Também este crepúsculo nós perdemos.
Ninguém nos viu hoje à tarde de mãos dadas
enquanto a noite azul caía sobre o mundo.
Olhei da minha janela
a festa do poente nas encostas ao longe.
Às vezes como uma moeda
acendia-se um pedaço de sol nas minhas mãos.
Eu recordava-te com a alma apertada
por essa tristeza que tu me conheces.
Onde estavas então?
Entre que gente?
Dizendo que palavras?
Porque vem até mim todo o amor de repente
quando me sinto triste, e te sinto tão longe?
Caiu o livro em que sempre pegamos ao crepúsculo,
e como um cão ferido rodou a minha capa aos pés.
Sempre, sempre te afastas pela tarde
Para onde o crepúsculo corre apagando estátuas.
Pablo Neruda
terça-feira, 20 de janeiro de 2009
"Ela sorriu, e Ele foi atrás"
A rádio trouxe uma notícia triste pelo amanhecer escuro e frio, como uma naifa gélida a cortar corações aquecidos. Faleceu em Lisboa com 39 anos João Aguardela, artista na verdadeira acepção, criador de sonhos que são canções tradutoras de uma essência nova e ancestral.
Talvez o maior visionário moderno da música portuguesa, Aguardela trouxe-nos temas de uma portugalidade de metamorfoses cosmopolitas, sempre a misturar notas de guitarra portuguesa triste com o festivo acordeão, numa dança inovadora a absorver tendências universais. A evolução da música portuguesa.
Há muito que não acompanhava de perto os trabalhos do fundador dos Sitiados, mas sabia que estava ali, a ensaiar a dança da música pop, a contar histórias de tristezas saltitantes e fugidías.
Era adolescente quando ouvia a "Vida de Marinheiro", a "Cabana do pai Tomás" ou até "Vamos ao circo". Lembro-me de 2 concertos marcantes, na Figueira da Foz, onde Aguardela transpirava numa apoteose que era para mim a expressão do orgulho musical nacional. Na verdade, um casal como ele e Sandra Baptista (sua mulher) arrastavam o público para a farra, para a dança imparável, como que a desafiar as notas retrógradas do acordeão para ritmos pop modernos.
Depois veio ainda o projecto Megafone e A Naifa, sempre a inovar na defesa da Língua de Camões, das raízes que nos correm no sangue, a nós lusos.
Guardo o LP homónimo cuja compra me terá custado umas calças novas. Valeu a pena, porque o disco continua, perdura num gira-discos que conhece bem os Sitiados. E a Vida de Marinheiro continua pelo tempo fora, sempre alegre, sempre exaltante, a activar memórias, a contar histórias que são bem nossas.
Então, João, leva contigo o acordeão, porque o conheces como ninguém. Por cá, não posso deixar de cair no feliz cliché: "Os dias sem ti / são todos iguais / são estrelas sem brilho / são dias a mais".
segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
TINDERSTICKS REGRESSAM AO PORTO

Os Tindesticks vão voltar ao Porto no dia 14 de Fevereiro. Excelente notícia para os namorados, que podem dar prolongamento a um jantar romântico dirigindo-se à Casa da Música para ver e ouvir um Stuart Staples cuja voz é veludo, mas um velúdo melancólico e pessimista. Mas não é assim mesmo o Romantismo?
Romantismo negro explícito e sem precedentes. É assim mesmo a música de Staples, que fez furor em circuitos mais independentes nos anos 90 e continua ainda hoje a encantar os mais sentimentais. Quem não se apaixonou por "Curtains", quem não caiu numa melancolia depressiva ao ouvir "Marbles"? Quem não deixou fugir uma lágrima ao som de "Let's pretend"? - Eu sim.
Já vi Tindersticks ao vivo em tempos de Coimbra, mas considero-a uma banda de espectáculo de interior, pelo tom intimista da sua música, pela atmosfera fechada e nocturna que consegue transmitir.
Vamos à Casa da Música ver os Tindersticks. Será um prévio agasalho, um aperitivo suave 24 horas antes da viagem à capital para os Oasis.
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