" Ao fundo da escuridão ofuscante Um vulto condutor supera ventos Temporais, horas de desespero. Na terra erma, de fantasmas aterradores, O mundo cego nunca ouve a justiça E o feitiço das noites insanas Não se prolonga."
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
terça-feira, 21 de outubro de 2008
"dEUS é grande"
Hoje que os dEUS actuam no Porto e eu infelizmente não vou poder estar presente, apetece-me, em vez de discorrer sobre as cambiantes e estéticas musicais da banda, contar um episódio algo burlesco que marcou para sempre a minha ligação a esta banda belga de pop-rock progressivo de características mescladas onde o punk também faz aparição.Estudava eu em Coimbra, nos tempos em que os concertos da Queima ainda se desenrolavam no parque, do lado ocidental da cidade cuja alma não dorme. Por entre garrafas e copos de cerveja e de shots, de um cheiro nauseabundo a urina e muitas vezes a vómito; os acordes do rock, da electrónica e dos sons pimba das barracas espalhavam-se numa atmosfera zonza, onde as cabeças chocavam, os sorrisos patetas vagueavam expostos por cima de capas pretas ambulantes, em câmara lenta. Sempre em câmara lenta.
Era dia dos Gene Loves Jezebel, quem não se lembra desta banda mediana? Mas para mim e para os meus dois grandes companheiros de jornada académica, os dEUS chamavam-nos ao parque, queriamos "For the roses" e "Suds & soda". Os dEUS chamavam-nos e a boémia alcoólica, entenda-se, porque a Queima era mesmo para aliviar ao extremo neurónios cansados... de quê? talvez muitas vezes de estagnação.
Descemos pela Praça da República até à Ferreira Borges e contornámos até às bilheteiras não sem antes parar num café que havia ali junto ao stand nem me lembro de que marca, para atestar os depósitos, entenda-se. Uns finos e estávamos prontos para ver deus. Grande contrariedade: a multidão descontrolada em frente aos quiosques de bilhetes. Parecia que de bilhetes gerais ninguém tinha ouvido falar. O caos. Mas nós éramos respeitadores, correctos nas questões do civismo (...). Colocámo-nos na fila que era larga... aliás, não seria bem uma vulgar bicha, mas mais um amontoado anárquico de capas pretas sem braços, apenas com cabeças zoadas à espera de ver diante de si algo parecido com uma janela falante.
Mas há sempre quem não goste de cumprir questões de ética social e vai de dar o vulgo "golpe" da fila. Assim, como quem não quer a coisa, avançando em diagonal na direcção da janelinha dourada. Passa um, passa dois, encosta daqui, amassa dali e lá estava ele colado a nós na dianteira, de sorriso subtilmente triunfante, porque queria disfarçar. Lembro-me de olhar para os meus eternos comparsas, indignado. Um deles, indignado como eu e pronto a retaliar à sua maneira, sempre uma maneira veemente e comicamente marcante, mas o outro, calmo, sereno, como se tudo fosse normal, como se fossem momentos de alívio ou prazer.
O odor a urina nem se fazia notar, mas a capa académica do "amigo" golpista ia ter dias de fragrâncias difíceis.
"Estou a mijar e ele está-se a rir"... Palavras sábias e oportunas. Os golpes só resultavam mesmo connosco, nas filas das amarelas. Ali não, porque os dEUS estavam a actuar e não mereciam traições.
PS: Quem sabe "do que eu estou a falar" que se pronuncie...
segunda-feira, 6 de outubro de 2008
PARIS JE T'AIME
Perdoem-me o cliché, mas Paris é uma cidade fantástica. A paisagem é de uma beleza desconcertante, os parisienses têm um ar arrogante mas pertinente, as parisienses possuem uma beleza que é só delas, uma coqueterie muito distinta que marca definitivamente a atmosfera da cidade do amor.
Metrópole moderna, complexa e gigantesca, a Paris dos nossos dias parece tirada de séculos anteriores, tal é o ar janota e de vestes clássicas que exibe. A arquitectura é toda ela harmoniosa, gótica ou clássica, transmite melodias de acordeão e violino. A cultura vasta é patente por toda a parte, história viva de uma Europa sábia e vaidosa.
Por entre o metro de vagabundos e pedintes que dormem à espera da luz eterna, encontram-se artistas que pedem esmola exibindo dotes de jongleurs incompreendidos, a Babilónia de seres humanos coloridos a tons escuros esquecidos de ouvir o zoar cosmopolita que a cidade emana.
Visitei o Louvre, esse antro da cultura ocidental, disfrutei das cores originais da Mona Lisa e das rochas frias e ao mesmo tempo voluptuosas da Vénus de Milo, senti o arrepio extasiante inesperado diante da maior obra da pintura romântica, Liberdade guiando o povo, de Delacroix. Soube a pouco, mas o tempo…escasso, a pedir uma nova visita.
Passeei pela Butte de Montmartre, contemplei as cores garridas e libertinas do Moulin Rouge… subi ao Sacré Coeur e vi a Torre Eiffel ao longe na paisagem urbana interminável. Tinha que subir até ao topo da dama de ferro da cidade eterna francesa. E subi, foi soberbo. Senti o amor, na visita nocturna por entre gauffres e crêpes doces, friozinho que nos faz agarrar ainda mais o que gostamos e quem gostamos.
O Quartier Latin irradia charme nos alfarrabistas e nos bistrots e restaurantes gregos, asiáticos e mais ocidentais. Sente-se a boémia que se arrasta na madrugada. Não quero ser injusto com todos os outros locais que visitei. Não divagando sobre eles, elogio-os como mágicos, encantadores até na sua tristeza ou tons cinzentos, quer seja a Notre-Dame de Paris, o Père Lachaise, o fantasma da Bastilha ou, mais para fora, Versailles.
No final, a saudade que aperta e a certeza do regresso à cidade bela, depois do regresso a um inesperado silêncio torturante do Porto.
Metrópole moderna, complexa e gigantesca, a Paris dos nossos dias parece tirada de séculos anteriores, tal é o ar janota e de vestes clássicas que exibe. A arquitectura é toda ela harmoniosa, gótica ou clássica, transmite melodias de acordeão e violino. A cultura vasta é patente por toda a parte, história viva de uma Europa sábia e vaidosa.
Por entre o metro de vagabundos e pedintes que dormem à espera da luz eterna, encontram-se artistas que pedem esmola exibindo dotes de jongleurs incompreendidos, a Babilónia de seres humanos coloridos a tons escuros esquecidos de ouvir o zoar cosmopolita que a cidade emana.
Visitei o Louvre, esse antro da cultura ocidental, disfrutei das cores originais da Mona Lisa e das rochas frias e ao mesmo tempo voluptuosas da Vénus de Milo, senti o arrepio extasiante inesperado diante da maior obra da pintura romântica, Liberdade guiando o povo, de Delacroix. Soube a pouco, mas o tempo…escasso, a pedir uma nova visita.
Passeei pela Butte de Montmartre, contemplei as cores garridas e libertinas do Moulin Rouge… subi ao Sacré Coeur e vi a Torre Eiffel ao longe na paisagem urbana interminável. Tinha que subir até ao topo da dama de ferro da cidade eterna francesa. E subi, foi soberbo. Senti o amor, na visita nocturna por entre gauffres e crêpes doces, friozinho que nos faz agarrar ainda mais o que gostamos e quem gostamos.
O Quartier Latin irradia charme nos alfarrabistas e nos bistrots e restaurantes gregos, asiáticos e mais ocidentais. Sente-se a boémia que se arrasta na madrugada. Não quero ser injusto com todos os outros locais que visitei. Não divagando sobre eles, elogio-os como mágicos, encantadores até na sua tristeza ou tons cinzentos, quer seja a Notre-Dame de Paris, o Père Lachaise, o fantasma da Bastilha ou, mais para fora, Versailles.
No final, a saudade que aperta e a certeza do regresso à cidade bela, depois do regresso a um inesperado silêncio torturante do Porto.
domingo, 14 de setembro de 2008
ROMANCE, ARTE, CINEMA, PARIS, MOULIN ROUGE

Confesso alguma ansiedade pela visita à cidade de todos os sonhos, aquela a que Thomas Jefferson apelidou de segunda pátria da humanidade, que eu vejo mais como a morada onde o espírito de Vénus vagueia. Boa ideia esta de ver um filme que se enquadra na perfeição num ambiente nocturno romântico de uma cidade onde a luz não será apenas apelido.O filme de Baz Luhrmann é uma orgia de cor, romance, música, tristeza, dor, amor. Mas vamos por partes. A película, pretensamente musical, é um hino à boémia romântica parisiense do final do século XIX. Um escritor inglês de nome Christian (Ewan McGregor), novato em Paris, talentoso aspirante aos meandros artísticos da cidade-luz, mistura-se acidentalmente na troupe boémia de, imagine-se, Toulouse-Lautrec (John Leguizamo). Zidler (Jim Broadbent), o patrão do Moulin Rouge de então dirige uma casa que é mais do que uma sala de espectáculos. Toda a nobreza e alta burguesia parisiense ali desfila nas noites quentes potenciadas por belas mulheres, dispostas a tudo. Christian é proposto para escrever uma peça para o Moulin Rouge, cujo destino depende de um poderoso Duque (Richard Roxburg).
Conflito: Satine (Nicole Kidman), a mola que tudo despoleta. A mais bela cortesã de Paris, prometida ao Duque por Zidler, apaixona-se pelo escritor inglês como quem trai a sua própria natureza, adquirida com uma vida de sexo e luxúria. Christian encanta-a com as incontornáveis palavras de poeta, que chamam o amor nas noites frias. O argumento é todo ele clássico, de tragédia grega, ou não tivesse Luhrmann rodado Romeo And Juliet.
Ideologicamente, os valores presentes não fogem da convencional salvação do artista perante o poder materialista através da liberdade, da beleza e do amor. Convencional para os preceitos das vanguardas modernistas da Belle époque, entenda-se. De Resto, em termos de mecânica intertextual, são nítidas diversas referências de certa forma codificadas a músicas ou mesmo clássicos do cinema, como é exemplo a colagem a The sound of music, de Robert Wise, (1965). Por falar em música, a banda sonora, diacronicamente estranha ou mesmo inadequada, serve imperativos interpretativos e cognitivos dirigidos ao espectador. Quando Luhrman cola uma cena do filme a uma música dos Queen ou dos Police, espera do espectador um conhecimento à-priori, que leva a um entendimento perfeito da cena em si. De resto, em termos puramente comerciais e de propaganda às ambiências do espaço Moulin Rouge, a colagem funciona na perfeição.
O charme clássico de Moulin Rouge de Luhrmann é também alicerçado em A Dama das Camélias de Dumas filho ou no mito de Orfeu, o Deus grego da música que tem que salvar a sua Eurídice do submundo. Até o coro está presente nos boémios modernistas da companhia de teatro. Tem além disso, o filme, um charme contemporâneo que nos é dado inevitavelmente pela beleza pura e ao mesmo tempo sofisticada de Kidman, autêntica deusa grega dos nossos dias, e pela banda sonora marcadamente pop, a fazer lembrar os espectáculos da Broadway ou dos Cabarets. As cores são garridas, os trajes muito mais do que provocatórios, os ambientes escuros e quentes, românticos e muitas vezes poeticamente intimistas.
Quando me preparo para visitar Paris no final do mês, senti-me claramente deslumbrado com o filme, que incompreensivelmente ainda não tinha visto. Aconselho, mesmo àqueles que desconfiam da estética massiva das grandes produções de Hollywood. Um filme verdadeiramente marcante, come what may.
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Figueira que dá rosas
Incandescente noite a dourar o sonho do pescador
A febre da vertigem do arbítrio
Lançada em damas de copas aladas
Que vão descendo até ao leito do Mondego
Se perdendo no azul gélido imenso.
Mas a maresia voa e pinta o céu de ouro
Em incandescente e festivo fogo santo
Paisagem bela sobre o embarcadouro
Onde no Verão escaldante a noite varre o quente
E a folia é esguia, cosmopolita e densa.
É preciso amar a praia das gaivotas dançantes
Sorver a aragem purificante sopro do Atlante
Presente de Vénus, perfume inebriante.
E então dormir ao luar dourado e triste
Sob pérolas suaves na noite estrelada
Contemplar a mais bela rosa, doce, rubra, encantada
Qual sereia apaixonada que, sorrindo, em terra persiste.
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
LIVROS


Para quem se habituou a gostar de Henry Miller, tem a oportunidade de descobrir o universo Bukowski com esta obra surpreendente pela sensibilidade extrema que irradia. “Mulheres” não é apenas literatura erótica ou sobre a psicologia feminina. Henry Chinaski, a personagem central, não é mais do que o alter-ego de Bukowski. Estamos perante uma espécie de autobiografia transformada em romance, por onde desfilam mulheres belas, interessantes e diversas pela passerelle que é o corpo de Chinaski, um escritor de 50 anos, divorciado e com uma filha ilegítima.
A personagem, um escritor à margem da sociedade politicamente correcta, vai escrevendo de forma crua, nitidamente realista, amiúde grotesca, violenta e sempre irónica, a sua decadência física provocada pelo álcool e por uma vida completamente desregrada. Por entre as bebedeiras, as ressacas permanentes, os vómitos, as corridas de cavalo, as leituras nas universidades, as festas, as cartas de admiradoras e as esperas no aeroporto, só há tempo para sexo. Relações, rupturas, reconciliações, novas rupturas, experiências sexuais intensas… é assim a vida de Chinaski tal como o vamos conhecendo ao longo do livro. Uma vida circular, onde não há lugar ao amor, apenas à experiência, à prova, à exploração do ser feminino, um ser que é forte e frágil e tremendamente original na sua relação com o sexo oposto. Os relatos das cenas sexuais são extremamente estimulantes e eróticos, de um realismo que ultrapassa todos os limites.
“O amor só convém aos que não são capazes de suportar essa sobrecarga psíquica. É como tentar atravessar um caudal de mijo com um caixote cheio de lixo às costas.”- diz ele, mas, no fundo, Chinaski é um sentimental, uma espécie de criança em corpo enorme, que procura o peito da mãe e cujas manias e gestos por vezes marcadamente kitsh, irradiam ternura. Obra muito sensual e explícita sexualmente, prima pela atracção quase fatal e dependência que provoca no leitor.
A personagem, um escritor à margem da sociedade politicamente correcta, vai escrevendo de forma crua, nitidamente realista, amiúde grotesca, violenta e sempre irónica, a sua decadência física provocada pelo álcool e por uma vida completamente desregrada. Por entre as bebedeiras, as ressacas permanentes, os vómitos, as corridas de cavalo, as leituras nas universidades, as festas, as cartas de admiradoras e as esperas no aeroporto, só há tempo para sexo. Relações, rupturas, reconciliações, novas rupturas, experiências sexuais intensas… é assim a vida de Chinaski tal como o vamos conhecendo ao longo do livro. Uma vida circular, onde não há lugar ao amor, apenas à experiência, à prova, à exploração do ser feminino, um ser que é forte e frágil e tremendamente original na sua relação com o sexo oposto. Os relatos das cenas sexuais são extremamente estimulantes e eróticos, de um realismo que ultrapassa todos os limites.
“O amor só convém aos que não são capazes de suportar essa sobrecarga psíquica. É como tentar atravessar um caudal de mijo com um caixote cheio de lixo às costas.”- diz ele, mas, no fundo, Chinaski é um sentimental, uma espécie de criança em corpo enorme, que procura o peito da mãe e cujas manias e gestos por vezes marcadamente kitsh, irradiam ternura. Obra muito sensual e explícita sexualmente, prima pela atracção quase fatal e dependência que provoca no leitor.
Os que preferem o cinema à leitura podem contemplar um cheirinho do que é a atmosfera Bukowski vendo Barfly, amor marginal, de 1987, realizado por Barbet Schroeder, com Mickey Rourke e Faye Dunaway, cujo guião é escrito pelo autor de "Mulheres".
sábado, 2 de agosto de 2008
Latitudes da tristeza
Vazio de mim nesta hora morta
Essência perdida como perdida a vida
Ausente lembrança da feliz criança
Tristeza sentida, luz solar dorida
A noite é clara, os gestos estáticos
Silêncios erráticos
No respirar maquinal
Já nada é normal
Invento razões, desenho vagos corações
Na mente indolente
Que não quer da fosca lua absorver um raio rosado.
Morro sentado, respiro cansado.
Talvez amanhã, talvez mais uma vez
Encontre o caminho perdido outra vez
Consiga da vida sorver a razão
Chegue ao fundo de meu coração
Tirando o amor que é dor, tirando o sabor a fel
Guardando teu gesto terno no calor do Inverno.
Fora isto que é nada
A madrugada é feliz.
Essência perdida como perdida a vida
Ausente lembrança da feliz criança
Tristeza sentida, luz solar dorida
A noite é clara, os gestos estáticos
Silêncios erráticos
No respirar maquinal
Já nada é normal
Invento razões, desenho vagos corações
Na mente indolente
Que não quer da fosca lua absorver um raio rosado.
Morro sentado, respiro cansado.
Talvez amanhã, talvez mais uma vez
Encontre o caminho perdido outra vez
Consiga da vida sorver a razão
Chegue ao fundo de meu coração
Tirando o amor que é dor, tirando o sabor a fel
Guardando teu gesto terno no calor do Inverno.
Fora isto que é nada
A madrugada é feliz.
domingo, 20 de julho de 2008
MARÉS VIVAS



Tim Both e os James; Ray Manzarek e Roby Krieger; Macey Gray
"EU FUI..."
A noite começou com uma francesinha, porque prometia ser longa e convinha "aconchegar" o estômago para o desgaste de energia, ainda mais quando se sabia que alguém dos míticos The Doors iriam estar mesmo ali, junto ao Douro, a esfregar guitarras e teclas como nos velhos tempos. Já lá vamos.
A organização do festival “Marés vivas” está ainda muito arcaica. Foi uma hora passada na fila para entrar, enquanto lá dentro Macey Gray soltava sons RMB e soul abafados pela turba. Mas o espírito festivaleiro faz esquecer o resto: as t-shirts de Jim Morrisson espalhavam-se pela margem do rio, penduradas em “carcaças” andantes na casa dos 20, 30, 40, 50 e até 60 anos, sentia-se o cheiro saudoso do haxixe numa atmosfera quente, o público notava-se em geral muito heterogéneo. Sinal dos tempos.
Já em frente ao palco, vi a entrada triunfal dos Riders on the Storm, onde pontificam 2 consagrados elementos da mítica banda de Jim Morrisson: Roby Krieger e Ray Manzarek, este o proclamado líder de uma banda que não é mais do que uma sombra obscura e incompreensível dos The Doors. Apesar dos acordes blues inconfundíveis, do som a lembrar flower power e sex, drugs and rock’n roll, Manzarek parece claramente senil e acaba por expor os restantes membros do grupo (Brett Scallions, ainda assim, consegue fazer lembrar Morrisson de forma nada forçada) a uma situação pouco menos que ridícula. Entoa o nome de Jim Morrisson em tom de oração inflamada, tentando cativar e entusiasmar a turba e exagera claramente no protagonismo que chama a si entre cada música, quer seja pelos gritos a lembrar James Brown, quer seja pela forma quase patética como se dirige ao público. A determinada altura, pelo discurso e pose de Manzarek, perguntei-me se os americanos já sabem que Portugal é hoje um país da moderna Europa, livre da ditadura e do atraso pelo menos cultural, em vez de uma qualquer obscura província espanhola.
Sentia-me à partida claramente entusiasmado por poder ver de perto e ouvir os míticos membros de uma das bandas que mais me marcaram a adolescência. Lembro-me de rabiscar cadernos com letras de Morrisson, de usar t-shirts, apesar de não ser contemporâneo da banda. The Doors, mais do que um estilo ou tipo musical, é um estado de espírito. É por isso que não dou por mal empregue o concerto. Apesar de penoso para os meus acompanhantes, foi emocionante qb ouvir ao vivo os acordes originais de "Light my fire", "Love me two times" ou "Love her maddly" (quem desdenharia?). Mas senti claramente as portas a fecharem-se. Fim.
James. Os James são outra referência da minha adolescência. Referência obviamente mais presente, pela contemporaneidade da banda e pela minha afinidade de longa data com a pop britânica. Estavam já 20 mil pessoas na plateia.
Banda consensual, os James conseguem fazer parar canções pop no tempo, como se o tempo não passasse e “sit down” fosse já ali. Mas não, é uma faixa de 89! Tim Booth e seus pares (destaque para um inesperado Andy Diagram de vestido vermelho) entoaram uma série infindável de autênticos hinos que ninguém ousa ignorar: “She’s a star”; "Say something", “Born of frustration”; “Out to get you”; “Sound”; “Ring the bells”; “Tomorrow” (talvez a minha faixa preferida); e o inevitável “Sometimes” (último encore antes do apoteótico “Laid”).
A organização do festival “Marés vivas” está ainda muito arcaica. Foi uma hora passada na fila para entrar, enquanto lá dentro Macey Gray soltava sons RMB e soul abafados pela turba. Mas o espírito festivaleiro faz esquecer o resto: as t-shirts de Jim Morrisson espalhavam-se pela margem do rio, penduradas em “carcaças” andantes na casa dos 20, 30, 40, 50 e até 60 anos, sentia-se o cheiro saudoso do haxixe numa atmosfera quente, o público notava-se em geral muito heterogéneo. Sinal dos tempos.
Já em frente ao palco, vi a entrada triunfal dos Riders on the Storm, onde pontificam 2 consagrados elementos da mítica banda de Jim Morrisson: Roby Krieger e Ray Manzarek, este o proclamado líder de uma banda que não é mais do que uma sombra obscura e incompreensível dos The Doors. Apesar dos acordes blues inconfundíveis, do som a lembrar flower power e sex, drugs and rock’n roll, Manzarek parece claramente senil e acaba por expor os restantes membros do grupo (Brett Scallions, ainda assim, consegue fazer lembrar Morrisson de forma nada forçada) a uma situação pouco menos que ridícula. Entoa o nome de Jim Morrisson em tom de oração inflamada, tentando cativar e entusiasmar a turba e exagera claramente no protagonismo que chama a si entre cada música, quer seja pelos gritos a lembrar James Brown, quer seja pela forma quase patética como se dirige ao público. A determinada altura, pelo discurso e pose de Manzarek, perguntei-me se os americanos já sabem que Portugal é hoje um país da moderna Europa, livre da ditadura e do atraso pelo menos cultural, em vez de uma qualquer obscura província espanhola.
Sentia-me à partida claramente entusiasmado por poder ver de perto e ouvir os míticos membros de uma das bandas que mais me marcaram a adolescência. Lembro-me de rabiscar cadernos com letras de Morrisson, de usar t-shirts, apesar de não ser contemporâneo da banda. The Doors, mais do que um estilo ou tipo musical, é um estado de espírito. É por isso que não dou por mal empregue o concerto. Apesar de penoso para os meus acompanhantes, foi emocionante qb ouvir ao vivo os acordes originais de "Light my fire", "Love me two times" ou "Love her maddly" (quem desdenharia?). Mas senti claramente as portas a fecharem-se. Fim.
James. Os James são outra referência da minha adolescência. Referência obviamente mais presente, pela contemporaneidade da banda e pela minha afinidade de longa data com a pop britânica. Estavam já 20 mil pessoas na plateia.
Banda consensual, os James conseguem fazer parar canções pop no tempo, como se o tempo não passasse e “sit down” fosse já ali. Mas não, é uma faixa de 89! Tim Booth e seus pares (destaque para um inesperado Andy Diagram de vestido vermelho) entoaram uma série infindável de autênticos hinos que ninguém ousa ignorar: “She’s a star”; "Say something", “Born of frustration”; “Out to get you”; “Sound”; “Ring the bells”; “Tomorrow” (talvez a minha faixa preferida); e o inevitável “Sometimes” (último encore antes do apoteótico “Laid”).
Os James tocaram ainda muitas mais da sua famigerada panóplia de hits pop, com destaque para o incontornável “Getting away with it all (messed up)”, tendo encaixado pelo meio, de uma forma muito apropriada, algumas faixas do novo álbum “Hey Ma”, onde se destaca o politicamente correcto single homónimo.
Viu-se em Gaia um Tim booth a irradiar simpatia, pela sua energia e por uma pose em palco feita de mutações baseadas em duas décadas de experiência enquanto intérprete: ora vibrava e empolgava o público com uma maneira ágil e quase apocalíptica de dançar (bem ao jeito dos interpretes das bandas pop britânicas); ora parava a contemplar a maravilha do efeito da sua música na multidão extasiada. Booth apresentou-se como uma espécie de Dandy descontraído, romântico esguio, em sua camisa branca a transmitir a ingenuidade de muitas das suas músicas.
O final do concerto foi altamente festivo, apoteótico, com várias dezenas de fãs a saltar para o palco para acompanhar ao som das palmas e dos saltos a performance final dos James, “Laid”. Nem sequer faltou um hilariante Jim Morrisson a esta celebração final da música pop. Quem lá esteve percebe porquê. Eu estive e confesso que foi pouco menos que arrepiante ver os olhos encovados de Tim Both emocionados pelo calor de um público que continua a adorar os James. O Porto, como os próprios disseram, é um sítio marcante para a banda.
O concerto foi marcante também para mim.
Viu-se em Gaia um Tim booth a irradiar simpatia, pela sua energia e por uma pose em palco feita de mutações baseadas em duas décadas de experiência enquanto intérprete: ora vibrava e empolgava o público com uma maneira ágil e quase apocalíptica de dançar (bem ao jeito dos interpretes das bandas pop britânicas); ora parava a contemplar a maravilha do efeito da sua música na multidão extasiada. Booth apresentou-se como uma espécie de Dandy descontraído, romântico esguio, em sua camisa branca a transmitir a ingenuidade de muitas das suas músicas.
O final do concerto foi altamente festivo, apoteótico, com várias dezenas de fãs a saltar para o palco para acompanhar ao som das palmas e dos saltos a performance final dos James, “Laid”. Nem sequer faltou um hilariante Jim Morrisson a esta celebração final da música pop. Quem lá esteve percebe porquê. Eu estive e confesso que foi pouco menos que arrepiante ver os olhos encovados de Tim Both emocionados pelo calor de um público que continua a adorar os James. O Porto, como os próprios disseram, é um sítio marcante para a banda.
O concerto foi marcante também para mim.
sábado, 12 de julho de 2008
PEQUENOS MAQUILHADORES DE MULTIDÕES

A feira de Custóias é uma feira como tantas outras, só que maior em tamanho e em quantidade de vendedores ciganos. Fui lá hoje, foi muito instrutivo e extremamente divertido. Com a crise, as pessoas atulham-se à volta das bancas dos ciganos que vendem produtos a preços impossíveis, atendendo à imagem dos mesmos artigos. Ele há t-shirts da D&G, Armani, Nike ou Lacoste; sapatilhas de marcas do mesmo nível; sapatos e roupas femininas da Zara e mais não sei de que boutiques de shopping e, principalmente, óculos de sol da Ray-Ban, Armani e tal. É uma autêntica loucura, um apinhar de gente que não olha para o lado, tão concentrada que está a remexer as quinhentas mil t-shirts à procura do seu número. Enquanto isso, o cigano alegre e acima de tudo consciente da sua missão naquele local, dá ares de “jongleur” das vendas, quer seja porque se sente vaidoso por conseguir apresentar material tão convidativo a um preço imbatível a fregueses incrédulos sedados pelas maravilhas expostas, quer seja pela linguagem e artimanhas verbais usadas para chamar a si a clientela.
Um cigano não tem tempo para perder, porque amanhã há outra feira em Fermentelos ou na Quinta do fim do mundo, por isso exprime a sua ânsia em despachar a carga prevista, antes que resolva aparecer alguém incómodo a cobrar taxas. A retórica parece simples, mas denota uma sapiência psicológica acumulada por décadas de experiência e gerações e gerações de clientes que, levados pela futilidade da aparência, preferem uma t-shirt contrafeita da Nike a outra qualquer de melhor qualidade. A imagem maquilhada com pó de arroz barato de uma sociedade consumista leva a classe média-baixa à banca do cigano janota e perspicaz.
O cigano é uma espécie de líder da plebe, conhecedor da psicologia das multidões. Usa e abusa de termos e expressões verbais proferidas em tom quase sempre histérico como: “Olha a cigana perdeu a cabeça, tudo a 5 euros!!!”; “Ai, ai, ai, ai, tudo a 5 euros!!”; ou “A cigana é uma porca!!! Venham ver!!!” (Esta mais difícil de descodificar). Ouvem-se ainda graçolas do género: “Venham à tenda do primo do Quaresma!”ou “Podem levar, convém é pagar, 1 euro!! Se não pagarem, levam de borla!”. Houve ainda uma cigana de meia idade que pegou no puto que estava a remexer em bijutaria debaixo da banca e, depois de lhe atirar com dois calhaus à cabeça, deu-lhe uns valentes bofetões. Era o filho. Hábitos diferentes e o respectivo choque cultural.
Há muito quem critique os ciganos. Não irei por aí. Acho-lhes demasiada graça para o fazer. Tenho a consciência que se não fossem eles, na sua tez escura, seus modos desconfiados e grosseiros, suas mulheres gordas de seios enormes e semi-descobertos e seus putos ranhosos e chorões, não haveria jovem de bairro deste país que vestisse Nike ou passeasse por essas ruas citadinas todo feliz em suas calças rasgadas e óculos de sol “marcados”, a dar ares de Cristiano Ronaldo. Isso para mim pode até não ter dignidade alguma, mas são pérolas para muita gente. E parece ser essa a função do cigano nesta sociedade em queda: Reequilibrar a balança da desigualdade social ao nível das aparências. Podem ser frágeis as máscaras e falsas as pérolas vendidas pelos ciganos, mas maquilham e enfeitam os sonhos dos pobres, nem que seja enquanto a T-shirt não vai à máquina de lavar.
Um cigano não tem tempo para perder, porque amanhã há outra feira em Fermentelos ou na Quinta do fim do mundo, por isso exprime a sua ânsia em despachar a carga prevista, antes que resolva aparecer alguém incómodo a cobrar taxas. A retórica parece simples, mas denota uma sapiência psicológica acumulada por décadas de experiência e gerações e gerações de clientes que, levados pela futilidade da aparência, preferem uma t-shirt contrafeita da Nike a outra qualquer de melhor qualidade. A imagem maquilhada com pó de arroz barato de uma sociedade consumista leva a classe média-baixa à banca do cigano janota e perspicaz.
O cigano é uma espécie de líder da plebe, conhecedor da psicologia das multidões. Usa e abusa de termos e expressões verbais proferidas em tom quase sempre histérico como: “Olha a cigana perdeu a cabeça, tudo a 5 euros!!!”; “Ai, ai, ai, ai, tudo a 5 euros!!”; ou “A cigana é uma porca!!! Venham ver!!!” (Esta mais difícil de descodificar). Ouvem-se ainda graçolas do género: “Venham à tenda do primo do Quaresma!”ou “Podem levar, convém é pagar, 1 euro!! Se não pagarem, levam de borla!”. Houve ainda uma cigana de meia idade que pegou no puto que estava a remexer em bijutaria debaixo da banca e, depois de lhe atirar com dois calhaus à cabeça, deu-lhe uns valentes bofetões. Era o filho. Hábitos diferentes e o respectivo choque cultural.
Há muito quem critique os ciganos. Não irei por aí. Acho-lhes demasiada graça para o fazer. Tenho a consciência que se não fossem eles, na sua tez escura, seus modos desconfiados e grosseiros, suas mulheres gordas de seios enormes e semi-descobertos e seus putos ranhosos e chorões, não haveria jovem de bairro deste país que vestisse Nike ou passeasse por essas ruas citadinas todo feliz em suas calças rasgadas e óculos de sol “marcados”, a dar ares de Cristiano Ronaldo. Isso para mim pode até não ter dignidade alguma, mas são pérolas para muita gente. E parece ser essa a função do cigano nesta sociedade em queda: Reequilibrar a balança da desigualdade social ao nível das aparências. Podem ser frágeis as máscaras e falsas as pérolas vendidas pelos ciganos, mas maquilham e enfeitam os sonhos dos pobres, nem que seja enquanto a T-shirt não vai à máquina de lavar.
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Pásion
Noiva das horas amargas
Perfumes de fragas ao luar manhoso
Excerto de mágoa doce
Primavera alada
Tristeza sem nada.
Foge comigo para o eterno sol da aurora
Vamos agora, sem demora
Porque o fogo vai longe
Árdua figura que me afaga a amargura
Quando é pó meu pensamento
Quando o momento dura no ocaso da paz
Tanto faz que sejas espada alada
Ou copa cerrada
Se és tu, em tuas cores com dores e curvas
Sempre amparando lágrimas surdas
Sempre perene na madrugada rosada
Sempre ao leme por um mar onde o tempo jaz
Botão de rosa amante, andante pelo futuro radiante
Silhueta de bloquear o relógio sem rumo
Como numa melodia encantada
Porque és vida folha alva pela felicidade riscada
Porque serão sempre belos os versos que te afagam.
Perfumes de fragas ao luar manhoso
Excerto de mágoa doce
Primavera alada
Tristeza sem nada.
Foge comigo para o eterno sol da aurora
Vamos agora, sem demora
Porque o fogo vai longe
Árdua figura que me afaga a amargura
Quando é pó meu pensamento
Quando o momento dura no ocaso da paz
Tanto faz que sejas espada alada
Ou copa cerrada
Se és tu, em tuas cores com dores e curvas
Sempre amparando lágrimas surdas
Sempre perene na madrugada rosada
Sempre ao leme por um mar onde o tempo jaz
Botão de rosa amante, andante pelo futuro radiante
Silhueta de bloquear o relógio sem rumo
Como numa melodia encantada
Porque és vida folha alva pela felicidade riscada
Porque serão sempre belos os versos que te afagam.
(para Daniela)
domingo, 29 de junho de 2008
COMUNICAÇÃO NÃO VERBAL EM DAVID LYNCH
David Lynch, Mulholand Drive(VERTENTE PSICOLÓGICA)
CASO PRÁCTICO
Situação seleccionada do filme Mulholland Drive de David Lynch (2001)
Uma jovem rapariga (Betty) vai ao encontro de um grupo de pessoas ligadas ao cinema no intuito de se dar a conhecer e entrar num pequeno casting para um filme. Entra numa sala onde se encontram os vários interlocutores, a saber: Wally (o homem que faz as apresentações); Woody Katz (o actor que com ela vai contracenar); Bob ( o realizador); Lynne James (famosa agente de casting) e ainda quatro interlocutores pouco interventivos na interacção ( Julie Chadwick, Jack Tutman, Martha Jonhson e Nikki). A análise irá incidir principalmente em cinco dos interlocutores , por ordem de importância na interacção: Wally, Betty, Woody Katz, Bob e Lynne James.
ANÁLISE
Wally (o homem que faz as apresentações) – Tem uma postura expressiva, algo curvada devido à altura inferior de Betty. Faz gestos com as mãos aquando das apresentações. A dado momento adopta uma distância íntima relativamente a Betty, há contacto corporal, abraçando-a lateralmente, facto que dá indicações sobre a intenção de manter a conversação e de familiarizar Betty com a sua pessoa e com os outros. Adopta um tom de voz mais baixo e metódico relativamente a Betty, como se falasse a uma criança. Demonstra desta forma um certo sentido paternalista, pretende ser amistoso, colocá-la à vontade perante aquela situação de grupo.
Sorri frequentemente e de maneira expressiva, fala muito; é ele o mediador entre Betty e os outros, para ela desconhecidos; o cicerone que recebe aquela personagem e pretende causar laços de confiança ou até amizade. Fala a uma distância muito próxima de Betty, gesticula nas apresentações, ora apontando o dedo na direcção das pessoas que vai apresentando, ora movendo a mão com o mesmo objectivo. Pormenor curioso é visível aquando da apresentação do realizador, figura nitidamente altiva e autoritária que, mesmo sentado, sugere uma postura dominante-superior: Wally muda o tom de voz para mais grave e alto quando o apresenta, ao mesmo tempo que altera o gesto manual e até do tronco, como que em sinal de uma irónica veneração.
Ao apresentar Lynne, Wally mostra de novo alta expressividade, ora ao nível do tom de voz, ora das expressões faciais: falou como se estivesse a chorar, lamentando o facto de não poder comprar os serviços de Lynne e elogia-a na parte final da apresentação, facto que culmina na subida de tom de voz. Neste momento de interacção é interessante verificar as variações de postura de Wally, ao rodar o tronco expressivamente e ao curvar-se ligeiramente quando elogia Lynne. Este facto pode ser entendido à luz de Mehrabian (1972), o qual analisou a comunicação de atitudes (apreço e agrado) por meio de indicadores posturais, tendo concluído que a vizinhança física, um mais intenso contacto visual, uma inclinação para diante são tudo sinais que se destinam a comunicar uma atitude positiva perante o destinatário.
Outro autor, Scheflen (1964) considera a este respeito que o modo como um membro do grupo relaciona a sua postura com a do seu interlocutor pode ser um aspecto interessante do comportamento comunicativo.
Ao nível da orientação, outro sinal espacial, Wally coloca-se quase sistematicamente “lado a lado” com a sua principal interlocutora. Este tipo de orientação favorece, não só as apresentações, como vai de encontro à ideia expressa por Bitti e Zani de que “dois amigos íntimos ou duas pessoas em situação colaborante colocam-se lado a lado.”
Já na parte final da interacção, ou das apresentações, Wally intensifica alguns gestos que, à luz de Ekman e Friesen (1969) podem considerar-se ilustrativos. Tais gestos, efectuados com as mãos, servem precisamente para ilustrar uma mudança na interacção: o bater as mãos significa naquele contexto um incitamento à mudança de espaço por parte de Betty; podendo este gesto ser considerado também de simbólico. O contacto corporal inerente ao bater ao de leve sucessivas vezes nos braços da interlocutora pretende transmitir confiança e alguma empatia inerente a uma certa intimidade entretanto adquirida. Antes, ao oferecer café à sua interlocutora, Wally emprega semelhantes gestos manuais e também com a cabeça. Os gestos ilustrativos são aqueles que a maior parte dos indivíduos executa no decurso da comunicação verbal e que ilustram precisamente o que eles vão dizendo. Ainda à luz de Ekman e Friesen, poder-se-á considerar que, relativamente a Wally, muitos dos seus gestos poderão ter uma natureza de “adaptação”, ou seja, aqueles que são apreendidos geralmente na infância sendo parte de um modelo global de comportamento adaptativo, formando-se no adulto sinais habituais, geralmente inconscientes e que não pretendem comunicar nenhuma mensagem específica.
Alturas há em que o Wally utiliza aquilo a que Trager (1958) chama de caracterizadores vocais, os risos a sugerir contentamento, simpatia, etc. e secreções vocais como a interjeição que antecede a apresentação de Martha Jonhson, que é um sinal de lembrança súbita após aparente (neste caso) esquecimento.
Relativamente ao tom de voz e às suas características paralinguísticas poder-se-á concluir que as mesmas confirmam a classificação de Laver e Trudgill (1982) no que diz respeito a um timbre grave e com características típicas de um individuo do sexo masculino e numa idade já avançada. Sugere ainda o tom de voz alguma relativa emoção em alguns momentos da interacção, mas mais um contentamento e vontade de suscitar simpatia e confiança.
O comportamento mímico do rosto deste interlocutor está traduzido muito amplamente em sorrisos de circunstância, por vezes até forçados no sentido da instauração de um bom ambiente de grupo. É por este motivo, a juntar ao discurso algo exagerado e, num muito distante segundo plano, a um aspecto exterior algo descuidado ou descontraído, que este interlocutor parece suscitar algum desdém, indiferença e por vezes condescendência da parte grupo.
Betty (jovem rapariga que vai ao casting) – É uma jovem de agradável aspecto exterior e ambiciosa, não fosse ela capaz de se sujeitar à interacção apresentada. A sua mímica facial (boca entreaberta mesclada com o sorriso) no início da situação, mesmo antes da interacção, em que parece ficar deslumbrada a olhar para o sítio onde vai fazer o casting demonstra uma grande emoção por ela vivida naquela momento e deixa transparecer que um desejo seu está prestes a ser realizado. O respirar fundo e o olhar em frente mostra a determinação com que vai para àquele lugar, ao passo que a emoção demonstrada pela mímica facial, quando ainda não há interacção, pode remeter para um traço da personalidade de Betty. Bitti e Zani defendem o anterior conceito e juntam-lhe outro que também se aplica, na situação de interacção presente: o interagente vai mais tarde enviar sinais faciais inerentes à interacção em curso. Tal é o caso, por exemplo, do sorriso sistemático, sinal de cortesia nas apresentações e cumprimentos. Betty apresenta alguns sinais não verbais que são típicos de alguém que não se sente completamente à vontade num determinado espaço, o que se deve sobretudo ao facto de se sentir observada por um grupo de interlocutores que não fazem parte do seu território pessoal. Um desses sinais é a distância interpessoal que é instituída logo à partida por Betty. É certo que se trata de um ambiente que se pode considerar, à luz de Sommer(1961) e Little (1965), um ambiente privado, mas a privacidade individual da interlocutora parece ameaçada, daí o conservar de uma certa distância relativamente ao grupo, facto que não se verifica relativamente a Wally, pois é ele quem invade o território da recém-chegada. De resto, Betty não parece inicialmente muito à vontade perante essa invasão, por isso se retrai fisicamente, adoptando uma postura algo encolhida e de mãos inquietas a segurar as folhas que talvez sejam o guião do filme que se prepara para representar. O facto anterior vai ao encontro de Mehrabian (1972), segundo o qual, a postura varia com o estado emocional, especialmente segundo a dimensão descontracção - tensão. Voltando à ideia da invasão de território, Bonimo, Fonzi e Seglione (1982) consideram que uma forte vizinhança física constitui, fundamentalmente, uma forma de invasão do “território” pessoal do indivíduo, do qual tendem a ser excluídas as pessoas tidas por hostis ou antipáticas ou com as quais se tenha relações exclusivamente formais.
Relativamente ao comportamento motor-gestual de Betty, assinale-se os constantes acenos de cabeça, sinais não verbais que, segundo Bitti e Zani, são importantes indicadores sobre o andamento da interacção. Neste caso, simbolizam atenção ou assentimento perante o interlocutor (Wally). Argyle (1972) afirma que um aceno de concordância é um sinal enviado a quem fala para que confirme o seu discurso. Na presente situação de interacção, os acenos são também por vezes sinais de saudação ou cumprimento, sendo sempre complementados com os já referidos sorrisos. Para além disso, o olhar de Betty parece constantemente perscrutador, não querendo perder nada do que lhe é transmitido, nem dar uma imagem de indiferença. Essa atitude contempla primeiramente todos os presentes e depois concentra-se em Wally. A este propósito, destaca-se Exline (1972) que, com base em observações experimentais, concluiu que o ouvinte que não olha o falante dá uma impressão de rejeição ou de indiferença em relação a ele. Por outro lado, e segundo autores como Ricci Bitti, Giovannini e Palmondri (1974); Angyle e Cook (1976), as pessoas com forte tendência afiliativa, e as mulheres, mostram-se decididamente mais activas nos olhares recíprocos e não recíprocos.
É importante voltar ao comportamento espacial de Betty para analisar a parte final da interacção, quando a interlocutora muda de espaço e de interlocutor. Prepara-se nesta altura para a nova interacção, pondo-se mais confortável: tira a carteira e despe o casaco, dando a perceber que de seguida se vai concentrar no seu propósito: representar. Passa então a interagir directamente com Woosy Katz, o actor e, se anteriormente o contacto corporal com Wally era aparentemente amistoso, agora vai ser, ainda que encenado, um contacto de natureza sexual. A esse propósito, convém recordar Heslin (1974) e a já mencionada categorização do contacto corporal nas relações interpessoais. No que diz respeito à orientação e à postura, Betty adopta talvez inconscientemente uma postura algo retraída inicialmente, em parte devido à rápida invasão do seu espaço, mas também motivada pela orientação de cara a cara com um interlocutor que, naquela situação, está numa posição mais elevada (dominante) não só fisicamente, mas também profissionalmente. Gradualmente, a sua postura vai soltando-se após as indicações que recebe desse interlocutor, até tomar fôlego e cumprir o papel que lhe é exigido.
Woody Katz (o actor com quem Betty contracena)- Tem ares de gigolo do cinema, não só pelo aspecto exterior (bem vestido) mas também pelo rosto – a este respeito, Secord (1958) concluiu que existem estereótipos faciais -, e ainda pela postura e distância interpessoal. Para além de ser o único que, além dos dois principais interlocutores, se mantém de pé, Woody parece querer conservar distâncias relativamente aos outros.
Mas ele até começa por ser cordial (altivamente cordial) nos seus gestos, aquando da saudação a Betty: o seu movimento com as mãos e o aceno da cabeça parecem querer sugerir simpatia e um certo sentimento paternalista relativamente à interlocutora, bastante mais nova. De resto, estes gestos poderão também ter uma natureza sexual.
Na parte final da interacção apresentada, Woody adopta uma orientação “cara a cara” relativamente a Betty, o que atesta a ideia de Bitti e Zani de que numa relação hierarquizada o superior coloca-se em frente do dependente – inferior. Mas talvez a teoria defendida por Scheflen (1964), Argyle e Dean (1965) tenha uma melhor aplicação a esta situação: segundo estes autores, a orientação cara a cara no encontro de duas pessoas, está provavelmente correlacionada com a distância recíproca e a intensidade de participação mútua.
Bob Rooker ( realizador) - O seu silêncio, o leve aceno da cabeça aquando da apresentação a Betty, bem como uma postura física algo rígida sugerem uma atitude de superioridade e altivez, pelo menos inicialmente. Contudo, a sua postura dominante e passivamente autoritária vem a degradar-se com o decorrer da interacção, nomeadamente quando passa à comunicação verbal; aí demonstrando uma intensidade de voz, uma entoação e um ritmo muito pausado a querer suscitar sabedoria e inteligência que, a juntar a aspectos não verbais algo exagerados como olhar fixo e os movimentos da cabeça e mãos, acaba por provocar silêncio e olhares irónicos na plateia. De resto, antes disso, a sua postura é sempre de observação, mas uma observação que soa a avaliativa e é feita de um pedestal superior -aspecto este atestado pelo gesto da mão sob o queixo.
Bob, à semelhança de outros interlocutores não parece ser uma figura muito admirada ou sequer respeitada dentro do grupo apesar de, como já foi referido, raramente usar da palavra durante a presente interacção. Aliás, a este respeito, importa referir a multiplicidade de significados que o silêncio pode tomar no âmbito da interacção: segundo Bruneau (1973), o silêncio pode exprimir uma atitude cautelosa e atenta perante o interlocutor.
Lynne James (famosa agente de castings) – Torna-se importante fazer uma pequena análise a este interagente na medida em que no pouco tempo de interacção mais activa utiliza sinais não verbais pertinentes e merecedores de alguma atenção. Para além da sua postura, aspecto exterior e tom de voz a demonstrar segurança e um nível social alto, a distância corporal para com a sua assistente ( Nikki) indicia a proximidade da relação entre ambas. Quando confrontada com Betty, Lynne baixa ligeiramente a cabeça em sinal de saudação e não abandona o seu sorriso e expressão facial a suscitar simpatia e alguma condescendência perante alguém de posição social (profissional) inferior. A anterior atitude torna-se nitidamente irónica perante os exagerados elogios de Wally: o sinal é a rápida gargalhada simultânea ao agradecimento verbal. De resto, o seu tom de voz torna-se mais suave quando se dirige a Betty, pois acabou de lhe ser apresentada.
rodriguez 2004
terça-feira, 24 de junho de 2008
DOGMA 33
O rapaz chega ao quarto claro, senta na cadeira de madeira, olha para o tecto com as mãos na cara. Correm algumas lágrimas, fica sentado meia hora. Olha em várias direcções, nas paredes só figuras normais. Mais algumas lágrimas que baixam ao queixo, as mãos conseguem amparar outras. Parece meio sufocado pelo escuro que chegou devagar.O silêncio debaixo da cadeira de madeira vai subindo, ao longe a novela brasileira. Não pertence ali, porque se levanta e desce um túnel que conduz à noite. A cave. Fala aos degraus, confessa tristeza. Agarra o corrimão com a mão molhada de lágrimas salgadas. A madeira do corrimão é a mesma da cadeira, corroída pelo sal dos olhos. A sua pele é rugosa, rugosa só. Rugosa significa desidratada e gasta, corroída talvez pelas lágrimas.
Na manhã seguinte, quarto mais claro, paredes normais, cadeira nada mais rugosa, na mesma. Tudo igual. Apenas as lágrimas secaram. Mostra um sorriso numa manhã com um sol de 20 graus e de olhos semicerrados. Veste uma camisa preta, umas calças azuis e uns sapatos meio esfarrapados mas não pelas lágrimas, pelo pó. Corre para fora do quarto, cheira o ar e os odores de algumas poucas flores que estão ali. Ao longe um homem cava numa terra que não chega a ser completamente verde ao som leve da sirene dos bombeiros que estão mais longe. O homem cava curvado com uma enxada de cabo de madeira que um dia foi rugosa mas de ser nova, agora lisa do uso por mãos rugosas.
O rapaz cheira as flores e ouve a sirene, olha o homem e o espectro da enxada, e pode-se dizer que não sente nada. À noite sim, aí as lágrimas e a lembrança da madeira rugosa ou lisa ou as pétalas rubras guardadas no bolso da camisa.
(Rodriguez 2008)
sábado, 21 de junho de 2008
Saudade

Volta espuma negra que consome o peito agora lembrado do passado ofuscante e sufocante onde pássaros negros de cores rosadas dançam por colinas que são sábias que são altas próximas do além uno
E o sentimento de saudade a saudade sempre quente mas esquecida da (felicidade efémera e melancólica)
E o sentimento de saudade a saudade sempre quente mas esquecida da (felicidade efémera e melancólica)
Sempre serei esgar dessa espuma vulto curvado oriundo da terra que é feita de mágoa dobrada de água Olho perco a olhada num tempo eterno de madrugada nocturna e soturna sentindo o fundo do peito cada vez mais perto porque aberto desperto ameno calor noite de amor esquecida na lua perdida
A vida que fura por entre devaneios obtusos dormentes gestos sonhos lestos
Arestas de amor feitas de letais vértices de dor amargo vaguear
E à noite durmo por entre pontos curvos pintados sonhando ter encontrado enfim
Assim
Como este som grave autocarro de almas que não querem ficar aqui
Neste tempo
Tormento
Lento
Volta.
A vida que fura por entre devaneios obtusos dormentes gestos sonhos lestos
Arestas de amor feitas de letais vértices de dor amargo vaguear
E à noite durmo por entre pontos curvos pintados sonhando ter encontrado enfim
Assim
Como este som grave autocarro de almas que não querem ficar aqui
Neste tempo
Tormento
Lento
Volta.
(rodriguez Maio 2008)
sexta-feira, 13 de junho de 2008
Crise
A crise faz-nos vaguear por uma existência limitada em termos materiais, obviamente; atormenta-nos o sono e as horas imensas de trabalho, que se arrasta até a um quase pôr-do-sol que é uma vaga de ar fresco ao fim de mais uma jornada onde tudo parece cinzento, repetitivo, rotineiro ao limite. Rotineiro porque não parece haver esperança.O maldito crédito subprime americano, que é indissociável da hedionda subida das taxas de juro e da baixa dos mercados bolsistas que conduz ao aumento brusco do preço do petróleo, alterou toda a economia mundial. Este claro sinal da globalização imposta progressivamente pelos americanos é paradigma de uma nova ditadura que, apesar de tudo, nem é capaz de chegar aos países produtores de crude, cuja flexibilidade na oferta desse produto é como se sabe limitada. Daí a subida desenfreada do ouro negro.
Sem querer entrar em teorias políticas para as quais não creio ter vocação, sempre considero a globalização um factor de desagregação, não só cultural, mas também económica. Porque a liberdade comercial sai claramente afectada nesta dependência dos mercados americanos, como se uma peça de dominó caísse e fizesse desmoronar todo o resto. Enquanto português e europeu, sinto-me obviamente condicionado pela americanização do mundo onde vivemos, onde os mais poderosos ditam leis. Aquele adormecimento de que falava no início do texto é resultante do fenómeno anterior. Tudo é monótono e previsível, como se o nosso planeta fosse uma laranja mecânica onde tudo funciona em aparente harmonia. Aparente, sim, apenas. Estamos cada vez mais próximos da realidade profetizada pelos irmãos Wachowski, onde o ser humano é controlado por uma máquina que, neste caso, é uma máquina humana e de interesses económicos. Será a mente humana capaz de se libertar da opressão do tédio americano? Creio que sim, porque é uma mente complexa e inventiva, que passa por estados de adormecimento para depois acordar e se revoltar. A história prova-nos isso. A crise será fugaz também, acredito.
Portugal, pobre país da fragilizada Europa, sofre. Sofre porque a gasolina é mais cara do que em Espanha enquanto o salário mínimo é mais baixo. Que destino cruel este de um povo que parece ter a vertigem do sofrimento, o fado que também se arrasta pelo tempo fora. Já senti muitas vezes que teria sido benéfico para nós se essa mesma história nos tivesse conduzido a uma ausência de D. Afonso Henriques, a um país-potência que teria sido a Península Ibérica. Mas depois penso numa identidade que é de facto forte dentro da sua fragilidade. Portugueses são homens bravos que lutam pela vida como guerreiros cujo poder é incerto porque sofre com circunstâncias adversas. Lembro-me de palavras proferidas por génios lusos, desde Pessoa até Virgílio Ferreira ou Sophia. E sinto algo cá dentro, como quando se ouve o hino num campo verde rodeado de uma turba embalada pelo sentimento patriótico. Acredito que esta nossa capacidade de sofrimento, espírito de sacrifício é um dom tão belo como o fado. A bonança virá, só pode vir.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
Mais Música
PLACEBO
Almas gémeas que perduram
Lembro-me de ouvir Nancy boy pela primeira vez por volta de 96 ou 97, no Bergantim, ou Bergas para os clientes habituais, aqueles que se recolhiam de mente abafada às 9h da matina, depois de uma noite por entre fumo de tabaco (?) e vodka, whisky, cerveja, Smiths, The Cure ou Depeche mode. E soou-me muito bem, aquele rock frenético de acordes neo-punk, a lembrar Pixies. Aquela voz feminina agreste de um Brian Molko ainda na fase declaradamente andrógina e travestida. A agressividade dessa voz “caprina” (perdoem-me a analogia) que arranhava a guitarra vibrante do próprio e o baixo de Olsdale, entrando-nos pelos ouvidos num ritmo a suscitar movimento depressivo, numa dança decadente e voluntariamente pessimista e underground.Há quem o apelide de emo, mas o que é certo é que Molko quer afundar-nos na coqueterie e no glamour do seu rock de nuances pop e atmosfera obscura e depressiva, criando paralelamente ambiências de um romantismo subtil e claramente noctívago, que se funde com bares nocturnos de Londres ou chama a si um revivalismo da cultura Hacienda do início dos anos 80.
Como eu dizia, ouvia Nancy boy, e depois Teenage Angst, e perguntava-me como era possível criar sonoridades rock de tal forma agrestes e ao mesmo tempo voluptuosas e vibrantes. O purismo da voz e da guitarra de Molko em fusão com um baixo proeminente (nunca um baixo teve tal presença) de Stefan Olsdale, a criar faixas de ambiências pop-rock-punk de vertigens electrónicas: tem sido assim a carreira dos Placebo desde que foram criados em 1995 por um belga (Brian Molko) e por um sueco (Stefan Olsdale).
Apesar da associação a Londres, Os Placebo gostam de ser reconhecidos como uma banda europeia. Na verdade, os três elementos iniciais incluíam ainda o suíço Robert Schultzberg, que depressa daria lugar ao britânico Steve Hewitt. De resto, têm vindo a conquistar fama mundial à medida que vêm lançando álbuns de originais. “Without You I’m Nothing”(1998) vem consolidar um estatuto de banda referência do rock alternativo dos anos 90, já atingido com o álbum homónimo de 1996. Este trabalho prepara ainda os seguidores Indie para uma evolução - que já se vislumbrava no obscuro Pure Morning - por caminhos electrónicos que vão dar a “Black Market Music”(2000) e aos albuns subsequentes.
Além da componente electrónica, o terceiro álbum de originais oferece faixas de um rock progressivamente pacificado, de riffs inicialmente agressivos (Days before you came), posteriormente muito pop, e de letras sobre histórias de traumas sexuais de infância mescladas com clichés do mundo contemporâneo. Slave to the wage lembra Sonic Youth e até mesmo Joy Division, mas tem uma dinâmica e um ritmo muito próprios, seguindo uma cadência que impele para a dança, para a adrenalina pura.
“Sleeping with ghosts ”(2003) oferece-nos algumas das mais excitantes faixas pop do início do milénio. This Picture é o ícone do romantismo kitsh que se abateu sobre a banda. Mas a electrónica continua lá, e sairá vencedora em “Meds”(2006), talvez o melhor álbum de uma banda que soube manter uma coerência evolutiva inteligente, um pouco a lembrar o percurso de Depeche Mode.
Ouço hoje Placebo com o mesmo fascínio e entusiasmo do jovem estudante que procurava e descobria bandas independentes nos tempos de faculdade. Porque o tempo passa, mas há coisas (boas) que ficam. Placebo é uma delas. As almas gémeas perduram.
Rodriguez (Maio 2008)
sexta-feira, 16 de maio de 2008
Parágrafo (conto)
Maria sabia que não podia utilizar mais palavras para convencer o pai que dera abrigo àquele pobre homem porque ele estava encharcado e com aspecto muito decadente e frágil. O pai era muito severo, tinha a aura dos líderes incautos, ditadores caseiros que ferem com um simples olhar. Maria temia as represálias. Silenciou a voz suplicante mas terna e irradiante de honestidade. Era tarde, ele até estava fatigado pela faina da liderança rústica. Então ela respirou fundo e enfrentou a hora com coragem. Era uma moça consciente da responsabilidade com que a vida a tinha marcado. Enquanto mulher-divindade, tinha a castidade mas o furor da juventude, era humana, era carne e isso é um fardo. O mísero vulto que batera à porta seria a representação de um mito, o pedinte desprotegido, banido pela classe social que vagueia mais ou menos à toa pelos amargos e incertos ramos da planta mestra de tudo o que existe. Procurava talvez a torre onde tudo é decifrável, de rosto maleável e gasto pelos caprichos das horas. Bateu, de um bater incerto e forçado pelo instinto. Ela abriu, num movimento veemente e ardente, ansiando por Primavera. A máscara do pobre aparente homem caíra no preciso momento em que disse algumas palavras desarticuladas. Maria entregou o seu olhar àquele coração. Suspirou e lamentou interiormente sua sorte. O amor é um sentimento traidor, porque não tem condição nem princípios. O homem temia ter encontrado a morte naquele dia de atmosfera sombria. Desejou-a como quem deseja uma mulher voluptuosa e susceptível. Era a sua salvação. Mas Maria era vida. Entrou a pedido dela. Falou-lhe do seu destino de infortúnio e dor. Amor, nunca tinha conhecido, porque soube cair no seu estado marginal com competência. Nenhuma mulher alguma vez olharia para ele sem o sentimento da piedade. Bebeu um café que cheirava a rosas secas e ao sorvê-lo sentiu uma doce pulsação que podia entreabrir naquele instante as portas ao amor. Bastava um olhar terno. Mas o olhar não chegou naquela fracção de segundo. O Acaso, sempre leviano, impediu de forma descarada o florescer desse sentimento tão ardente quanto letal. A competência venceu mais uma vez. Mas a sorte é efémera. Um dia o mendigo seria vencido. Talvez pelo amor. Talvez pelo Acaso.
(27 Jan. 2008)
terça-feira, 13 de maio de 2008
FINALMENTE FALO DE MÚSICA...
Descobri Cousteau há uns anos quando um amigo, que não era propriamente um fã da vida submarina, falava muito nesse nome. Os Cousteau são uma banda londrina cujo primeiro álbum, homónimo, data de 2000. depois do abandono do compositor Davey Ray Moor, a banda é composta basicamente por 3 elementos: Liam McKahey (lyrics, vocals, percussion), Robin Brown (guitars) e Joe Peet (bass guitar, violin).Quando se ouve faixas como Last good day of the year (Cousteau, 2000) ou Nothing so bad (Sirena, 2002) sentimos uma cumplicidade e um aconchego de alma que nos faz sentir bem sendo pessoas tristes. O Romantismo não é propriamente uma doença, antes um estilo nublado de sentir emoções fortes, uma forma de encanto etéreo que nos transporta ao limite da essência humana. E o Romantismo está na voz grave de McKahey como em nenhuma outra, voz cuja essência é whisky misturado com cigarros, é melancolia nocturna de desilusões turvadas por uma ânsia de novo amor. Black heart of mine (Nova Scotia, 2005) (sim, o nome deste blogue foi tirado daqui…) é a música do ano (2005), melodia épica que se transforma em música pop de matizes rock. A soberba guitarra de Robin Brown atinge patamares arrepiantes e, pese embora as devidas diferenças, as mutações da faixa quase lembram Paranoid Android (Radiohead). De resto, é notória uma viragem em Nova Scotia relativamente aos trabalhos anteriores, mais intimistas e acústicos, onde a voz de Liam McKahey se impunha como elemento proeminente. Nova Scotia cresce em teclas e bateria, como escurece nas letras, tornando-se um álbum claramente mais eléctrico e ao mesmo tempo mais obscuro do que os anteriores.
Cousteau tem tanto de Tindersticks como de David Bowie, de Burt Bacharach ou mesmo de Nick Cave, numa música a lembrar cortinas de rosas nubladas que tapam janelas de dias cinzentos e melancólicos. Hei-de falar aqui de Tindersticks, sim Senhor, mas para já começo esta “página musical” em grande, com uma banda marcante que aconselho vivamente.
Black Heart Of Mine
Sunny arid noon
It's the kind of day
That makes you pay for believing
In love
I can only ruin
Can the devil see
What's inside of me
How long can it be
I’ll see him soon
There's no fight left in me
I long for the touch of a valkyrie
But no heroe's feast is waiting down below
This blackheart of mine
Is stained beyond redemption
But I'm hoping your love will shine
And you'll make this one exception
Forgiving and divine
That is your reputation
But you're taking your time
Regarding my salvation
Cold lonely moon
Shines the kind of light that makes the night
Seem so evil These voices in my room
The whispers tell
Of an empty shell
Where my soul did dwell
Now the darkness looms
(Cousteau, Nova Scotia)
sexta-feira, 9 de maio de 2008
COUPLING
PARA OS AMANTES DE SEINFELD...
Coupling é hilariante no criar de situações a partir das complicadas relações entre os casais. O sexo, o amor, a insegurança masculina e a leviandade feminina mesclada com uma sagacidade relativamente ao sexo são aspectos muito bem tratados num jeito bem britânico de fazer humor. Não se pense que se trata aqui do típico humor inglês de Monty Python, por vezes rebuscado ou “erudito”. A série é um desfilar de personagens e situações modernas bem à maneira de “Seinfeld”, por vezes meio patetas (não tanto como em Seinfeld, sabemos como os americanos são imbatíveis na patetice…), mas sem dúvida inteligentes e corrosivas.
Jeff é uma espécie de fusão britânica de um George Constanza e de um Kramer, apesar das diferenças físicas relativamente ao primeiro: os seus caracteres têm muito em comum na insegurança perante o sexo oposto (Jeff-George), numa maturidade bem típica de uma criança de 10 anos (Jeff-Kramer-George), na versatilidade enquanto personagens puramente cómicas de gestos bizarros (Jeff-Kramer). De resto, poderíamos encontrar paralelo em algumas outras personagens de ambas as séries. Mesmo sendo fã incondicional de Seinfeld, considero Coupling mais inteligente. Pena que se tenha ficado, segundo sei, pela 4ª série, isto apesar de considerar que as últimas séries de Seinfeld estão gastas e claramente forçadas.
Jeff é uma espécie de fusão britânica de um George Constanza e de um Kramer, apesar das diferenças físicas relativamente ao primeiro: os seus caracteres têm muito em comum na insegurança perante o sexo oposto (Jeff-George), numa maturidade bem típica de uma criança de 10 anos (Jeff-Kramer-George), na versatilidade enquanto personagens puramente cómicas de gestos bizarros (Jeff-Kramer). De resto, poderíamos encontrar paralelo em algumas outras personagens de ambas as séries. Mesmo sendo fã incondicional de Seinfeld, considero Coupling mais inteligente. Pena que se tenha ficado, segundo sei, pela 4ª série, isto apesar de considerar que as últimas séries de Seinfeld estão gastas e claramente forçadas.
segunda-feira, 5 de maio de 2008
LOST
A série tem os ingredientes ideais para cativar a atenção de um espectador cansado das imagens actuais carregadas de tecnologia informática e de labirintos de investigações. Uma ilha paradisíaca onde parecemos mergulhar como numas férias impensáveis. À partida tudo parece entretenimento. Puro. Mas não é só. Está lá o imaginário de Júlio Verne, mas está muito mais. Está mistério, um mistério que parece indecifrável, mas que causa vertigem à medida que os episódios avançam em catadupa. Está lá essa fantástica técnica da analepse aplicada ao cinema em estilo de flash-back, utilizado em Lost com mestria e de uma forma inovadora, cruzando-se inclusivamente com os flash-forwards. A mistura resulta bem quando não é exagerada.A 1ª série foi a melhor. O mistério e o suspense estavam em índices máximos, porque tudo era possível, todas as hipóteses pertinentes, mas logo improváveis, porque afinal nada se sabia de concreto acerca da ilha. As personagens muito boas. Jack é o herói romântico, cuja queda pelo abismo lhe dá o encanto dos grandes heróis imperfeitos. Locke é complexo dentro da sua instintiva sede de sobrevivência, tem um charme e uma postura que lhe garantem uma presença muito forte na série. Os outros, todos desfilam nas suas histórias de encontros e desencontros, almas que estavam perdidas na vida do mundo cosmopolita, onde toda a comunicação é possível; que se encontram a si próprios e aos outros na ilha, numa forma de comunicação primitiva que realça a sua essência verdadeira.
Desde X-Files que não via uma série que me entusiasmasse tanto. Na verdade, os últimos tempos têm sido perdidos na série e sinto-me agora perdido. Porque os episódios da 4ª série estão a chegar ao fim, mas principalmente porque ela entrou num compassar lento e desinteressante. Os episódios arrastam-se entre flash-backs e flash-forwards cruzados ao extremo para confundir o espectador menos atento. de resto, o exagero das analepses e prolepses serve claramente objectivos comerciais. Em termos de argumento, nada de novo, tardam as revelações e cada vez mais é notório que essas revelações são previsíveis.
Para quem nunca acompanhou a série, aconselho vivamente porque suplanta de longe as séries sobre médicos e hospitais preferidas (começam a faltar doenças para o Dr. House tratar) dos espectadores. Mas previno que a excitante viagem ao desconhecido só dura até à 3ª série. Depois… é para os fãs se despedirem sem que fique a sensação de vazio.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
Pinto Da Costa e a democracia no futebol (crónica)
Lembro-me da forma como sentia as vitórias e as derrotas do FCP em criança. Vibrava como nenhum outro portista. Ficava eufórico quando o FCP ganhava. Chorava por dentro quando perdia, os dias a seguir às derrotas eram penosos... o FCP era quase uma doença que, ora era vibrante como uma febre positiva, uma espécie de ópio que dá moral, confiança, grande "élan"; ora abatia, fazia cair no fundo como numa depressão sonolenta e negra que nos oprime.
Era sempre assim. Poucas outras coisas me afectavam tanto como o meu clube de sempre. Ainda recordo o dia em que me tornei portista: era muito pequeno, não gostava de futebol, detestava mesmo, porque numa época em que a televisão ainda era um fenómeno emergente, um objecto raro, os desenhos animados faziam as delícias dos mais pequenos, e eu não era excepção. O futebol, quando aparecia, estragava esses momentos. Até que um dia... lembro-me que jogava uma equipa vestida de branco listado vertical escuro, não sei se era azul, porque a televisão era naturalmente a preto e branco. Não sei que jogo era, hoje creio que terá sido uma partida das competições europeias. Lembro-me de ver um guarda-redes fabuloso a fazer uma defesa a punhos e a ficar lesionado, largos minutos no chão. Aquele episódio marcou-me, não sei bem porquê, e o meu gosto pelo futebol tinha nascido ali, o meu clube para a vida estava encontrado. Ah, o guarda-redes era o Zé Beto...
Hoje sinto um enorme regozijo e um orgulho incomensurável por ter tido a sorte de, num zapping entre a RTP1 e a RTP2, cair naquele jogo. Não interessa quem era o adversário, nem o resultado (até creio que o FCP perdeu), apenas o momento feliz de ter encontrado um clube que até aí era um desconhecido. Os grandes amores nascem assim.
O FCP acaba de vencer mais um campeonato ou "Liga", e foi um campeonato fácil no campo mas difícil fora dele. Neste país de invejas e sentimentos mesquinhos, existem lobbies e jogos de influência a empurrar o povo para ideologias singulares, para o clube do regime. Sempre foi assim. Para os mais amnésicos ou desconhecedores convenientes da história do futebol em Portugal, recordo as décadas em que o SLB era empurrado pelos Calabotes da arbitragem e pelos Salazares da política, enquanto o FCP era o bobo da corte, o bombo da festa... Não havia reclamações nem apitos dourados, porque o povo e a pressão da imprensa... esses, eram pelo "glorioso", o resto era conversa.
Bom, tempo chegou em que o bobo da corte se fez rei. e fez-se rei à custa de décadas de guerra pela independência, de luta contra a "ditadura". Nas guerras pela democracia, sempre existirão golpes menos éticos, mas a luta é por uma boa causa. Hoje fala-se do Pinto Da Costa e do saneamento do futebol português que tem que acontecer à custa dele. Esse saneamento é o regresso à ditadura, o processo é uma artimanha vil da comunicação social lisboeta que tem eco e apoio na população maioritariamente benfiquista. Por isso tudo é normal e aceitável. O Vieira é o patrono da "limpeza". Só que o Vieira esqueceu-se da mística portista. Esqueceu-se da classe enorme da equipa campeã. Esqueceu-se da organização ímpar de um clube de nível mundial, que ainda há bem pouco tempo arrecadou a Champions league. E o Sr. Vieira está a pagar pela sua conduta. Se Deus existe, ele não dorme, e o resultado está à vista.
Somos os campeões. Ontem custou-me ver a equipa do Benfica a arrastar-se pelo estádio do Dragão. Mas é o sinal dos tempos. O FCP manda dentro dos relvados. Perdoem-me os 6 milhões, mas... os gloriosos somos nós.
Era sempre assim. Poucas outras coisas me afectavam tanto como o meu clube de sempre. Ainda recordo o dia em que me tornei portista: era muito pequeno, não gostava de futebol, detestava mesmo, porque numa época em que a televisão ainda era um fenómeno emergente, um objecto raro, os desenhos animados faziam as delícias dos mais pequenos, e eu não era excepção. O futebol, quando aparecia, estragava esses momentos. Até que um dia... lembro-me que jogava uma equipa vestida de branco listado vertical escuro, não sei se era azul, porque a televisão era naturalmente a preto e branco. Não sei que jogo era, hoje creio que terá sido uma partida das competições europeias. Lembro-me de ver um guarda-redes fabuloso a fazer uma defesa a punhos e a ficar lesionado, largos minutos no chão. Aquele episódio marcou-me, não sei bem porquê, e o meu gosto pelo futebol tinha nascido ali, o meu clube para a vida estava encontrado. Ah, o guarda-redes era o Zé Beto...
Hoje sinto um enorme regozijo e um orgulho incomensurável por ter tido a sorte de, num zapping entre a RTP1 e a RTP2, cair naquele jogo. Não interessa quem era o adversário, nem o resultado (até creio que o FCP perdeu), apenas o momento feliz de ter encontrado um clube que até aí era um desconhecido. Os grandes amores nascem assim.
O FCP acaba de vencer mais um campeonato ou "Liga", e foi um campeonato fácil no campo mas difícil fora dele. Neste país de invejas e sentimentos mesquinhos, existem lobbies e jogos de influência a empurrar o povo para ideologias singulares, para o clube do regime. Sempre foi assim. Para os mais amnésicos ou desconhecedores convenientes da história do futebol em Portugal, recordo as décadas em que o SLB era empurrado pelos Calabotes da arbitragem e pelos Salazares da política, enquanto o FCP era o bobo da corte, o bombo da festa... Não havia reclamações nem apitos dourados, porque o povo e a pressão da imprensa... esses, eram pelo "glorioso", o resto era conversa.
Bom, tempo chegou em que o bobo da corte se fez rei. e fez-se rei à custa de décadas de guerra pela independência, de luta contra a "ditadura". Nas guerras pela democracia, sempre existirão golpes menos éticos, mas a luta é por uma boa causa. Hoje fala-se do Pinto Da Costa e do saneamento do futebol português que tem que acontecer à custa dele. Esse saneamento é o regresso à ditadura, o processo é uma artimanha vil da comunicação social lisboeta que tem eco e apoio na população maioritariamente benfiquista. Por isso tudo é normal e aceitável. O Vieira é o patrono da "limpeza". Só que o Vieira esqueceu-se da mística portista. Esqueceu-se da classe enorme da equipa campeã. Esqueceu-se da organização ímpar de um clube de nível mundial, que ainda há bem pouco tempo arrecadou a Champions league. E o Sr. Vieira está a pagar pela sua conduta. Se Deus existe, ele não dorme, e o resultado está à vista.
Somos os campeões. Ontem custou-me ver a equipa do Benfica a arrastar-se pelo estádio do Dragão. Mas é o sinal dos tempos. O FCP manda dentro dos relvados. Perdoem-me os 6 milhões, mas... os gloriosos somos nós.
sexta-feira, 18 de abril de 2008
Os "meus" filmes
Quando comecei a entrar na atmosfera criada pelo filme, senti-me a vaguear no meu próprio mundo, tais são as cores pintadas na tela em que me revejo, o silêncio que amiúde me invade numa melancolia sonolenta e pessimista. Na verdade, Sofia coppola realiza uma película magistral quanto à criação de estados de alma adormecidos, solitários e incompreendidos.Tóquio serve de ambiente perfeito para que as personagens se percam na tradução, na incompreensão da língua, no isolamento que é mais do que aquele do estrangeiro num país estranho. É o isolamento nas relações. Uma belíssima Scarlett Johansson é Charlotte, acompanhada pelo marido fotógrafo no Japão, mas abandonada pelo mesmo por questões profissionais. Vagueia pelo hotel até encontrar Bob (Bill Murray no seu melhor), um actor de meia idade cujas relações humanas gelaram. Ambos se arrastam “abandonados” à sua sorte, num lugar remoto onde o silêncio forçado corta a comunicação com o mundo humano “exterior”. Envolvem-se na sua tristeza e silêncios. Procuram o sentido para as suas vidas por entre sussurros e suspiros contidos. Amizade? Amor? A resposta é incerta e camuflada, como o ambiente.
O filme é uma espécie de sonho de contornos vagos. Um sonho onde ressaltam interrogações relativamente à nossa essência, ao nosso caminho a percorrer num mundo indecifrável, de respostas frágeis. A emoção galopa ao longo do longo suspiro que é a película, mas é um suspiro hipnótico e cansado, tendo como pano de fundo as cores garridas de uma Tóquio de néons nocturnos ou de suave pastel diurno. No final, o silêncio que se arrastou desde o início, a incerteza quanto ao desfecho que é a certeza do percurso escolhido, do sentido atingido.
O silêncio, o minimalismo dos diálogos contrastam claramente com a opulência da banda sonora, onde se destacam nomes como Air, My Bloody Valentine ou The Jesus and Mary Chain. De resto, “Lost in Translation” não é apenas a sequência do interessante caminho que Sofia Coppola está a seguir no cinema. Trata-se de um filme humanamente enriquecedor e tão tumultuoso quanto apaziguador. Absolutamente incontornável.
Lost in Translation
Realização: Sofia Coppola
Intérpretes: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris
EUA, 2003
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Poema do retorno derradeiro
Bem sei que por mais que faça tudo o que faço
O negro é sempre a cor que reina
Cores invento com meus olhos que sinto ternos
Mas são cores pálidas num calor de Inverno
São cores tortas, distorcidas, mortas
Que só encontram corações que são de aço
Às vezes é alegre o meu andar
É desejoso de felicidade e flores festivas
É optimista nas horas da vigília ao serão
E quer saltar, quer sonhar, quer voar
Um dia sei que a tristeza vai voltar para ficar
Um dia sei que as cores vão fugir com os amores
Um dia sei que vou olhar para as minhas mãos de água
Mãos trémulas, ressequidas, chagadas de amargas dores
E vou chorar outra vez, vou sentir a solidão de outrora
Mas agora é para valer, agora chegou a Hora.
O negro é sempre a cor que reina
Cores invento com meus olhos que sinto ternos
Mas são cores pálidas num calor de Inverno
São cores tortas, distorcidas, mortas
Que só encontram corações que são de aço
Às vezes é alegre o meu andar
É desejoso de felicidade e flores festivas
É optimista nas horas da vigília ao serão
E quer saltar, quer sonhar, quer voar
Um dia sei que a tristeza vai voltar para ficar
Um dia sei que as cores vão fugir com os amores
Um dia sei que vou olhar para as minhas mãos de água
Mãos trémulas, ressequidas, chagadas de amargas dores
E vou chorar outra vez, vou sentir a solidão de outrora
Mas agora é para valer, agora chegou a Hora.
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Os que são doutores e os que tiram telemóveis: a sociedade actual (artigo de opinião)
A atitude da miúda a "arrancar" o telemóvel das mãos da professora fez-me corar de vergonha e consolidar a ideia que há muito habita o meu entendimento: ser professor nesta espécie de país é pior que ser vendedor de areia no Sahara. Porque a areia é o que não falta no deserto e é uma areia gasta, seca, inútil. Um professor neste país, mesmo que seja óptimo, daqueles que fazem parte do nosso imaginário infantil, é um alvo perfeito para chacota.
Os professores encontram-se completamente expostos a uma sociedade que os criou aos milhares, a um governo que se verga perante as “ordens” dos doutores que só servem para diagnosticar gripes e receitar os brufens que mais lhes convém, pavoneando-se como alarves perante a vassalagem de um povo para quem só os médicos são dignos do título… Senhor Doutor, grande especialista… da treta, digo eu. O povo nunca ouviu falar do Derrida e da desconstrução, os doutores também não. Mas eles é que “ordenam”. Os professores são serventes da formação social, serventes em desordem, que já não servem para uma sociedade demasiado avançada em termos técnicos e científicos. A ciência é a prioridade maior deste governo. Veja-se a nova cara do site da DGRHE: um professor, mas de Matemática.
Foi a ciência quem trouxe os objectos da discórdia. Mas não foi com certeza a ciência portuguesa. Tudo começou com os ZX Spectrum, os Amiga; depois vieram os Nintendos, os Segas, as PlayStations e mais não sei o quê, e os telemóveis. Os telemóveis são objectos cujo relevo na vida do ser humano actual faz lembrar o Everest. Ninguém está sem eles, ninguém consegue sobreviver sem a sua privacidadezinha invadida. A aldeia global funciona a partir destes prismas rectangulares minúsculos, antes de se basear na Internet. A dependência deles, que vai muito além da sua utilidade – que é de facto muita – é uma questão real, mas uma questão que devia ser de adultos conscientes da primacia da máquina sobre o ser humano.
O Homem do século XXI depende mais da máquina do que vice-versa e a consciencialização deste fenómeno ainda não é uma dado adquirido, porque a evolução foi demolidora e não deu tempo ao criador para se preparar. É por isso que uma sociedade adulta mal formada ofereceu de bandeja o telemóvel aos seus filhos. O mau exemplo vem de cima, porque não existiram nunca regras claras da utilização de tais aparelhos.
Uma criança com um telemóvel na mão sente-se quase dona do mundo, porque adquire uma liberdade para a qual não está preparada e porque sabe que os pais lhe deram aquela máquina mais por vaidade do que por necessidade. Começa aqui o mau exemplo.
Os professores são pois entidades impotentes perante hábitos enraizados em casa. As crianças, quer queiramos quer não, continuarão sempre a ser um reflexo nítido dos seus progenitores, porque se revêem neles por questões biológicas e porque, em geral, o proteccionismo exacerbado faz parte da educação de qualquer bom pai que se preze.
As referências deturpadas alicerçadas em pais deformados pela sociedade de consumo criam nas crianças valores artificiais e estereotipados. O comodismo inerente à evolução económica e tecnológica fez perder-se no tempo valores humanos genuínos. Já não há humildade para obedecer a um professor como havia outrora – perdoem-me o saudosismo -, já não há o espírito de sacrifício que fez crescer grandes homens às suas custas. O consumismo colocou a Playstation onde antes havia uma bola de futebol num campo de terra negra. Era preciso sujar as mãos para a diversão, hoje suja-se a mente.
A evolução tecnológica é inevitável e útil, bem como uma democratização progressiva da educação, onde crianças têm o direito da crítica que não tinham outrora. Mas o homem actual falha em critério, falha em educação para a tecnologia, falha no abandonar de valores que já foram seus e na sua transmissão aos mais novos, falha no comodismo extremo que oferece aos seus filhos, falha na autoridade. Resultado: crianças providas de espíritos inquietos estimulados pela evolução têm falta de referências sólidas, adquiriram uma liberdade podre.
Muitos professores, à imagem dos pais, estão mal preparados para enfrentar o fenómeno. Porque foram abandonados e descredibilizados em praça pública pela carrancuda doutora ministra. Os pais encontraram nos docentes o seu bode expiatório, limpando a sua consciência de forma leviana. E os doutores continuam a receitar sem avaliação porque são poucos e bons (?) e não têm que tirar o telemóvel a ninguém.
Os professores encontram-se completamente expostos a uma sociedade que os criou aos milhares, a um governo que se verga perante as “ordens” dos doutores que só servem para diagnosticar gripes e receitar os brufens que mais lhes convém, pavoneando-se como alarves perante a vassalagem de um povo para quem só os médicos são dignos do título… Senhor Doutor, grande especialista… da treta, digo eu. O povo nunca ouviu falar do Derrida e da desconstrução, os doutores também não. Mas eles é que “ordenam”. Os professores são serventes da formação social, serventes em desordem, que já não servem para uma sociedade demasiado avançada em termos técnicos e científicos. A ciência é a prioridade maior deste governo. Veja-se a nova cara do site da DGRHE: um professor, mas de Matemática.
Foi a ciência quem trouxe os objectos da discórdia. Mas não foi com certeza a ciência portuguesa. Tudo começou com os ZX Spectrum, os Amiga; depois vieram os Nintendos, os Segas, as PlayStations e mais não sei o quê, e os telemóveis. Os telemóveis são objectos cujo relevo na vida do ser humano actual faz lembrar o Everest. Ninguém está sem eles, ninguém consegue sobreviver sem a sua privacidadezinha invadida. A aldeia global funciona a partir destes prismas rectangulares minúsculos, antes de se basear na Internet. A dependência deles, que vai muito além da sua utilidade – que é de facto muita – é uma questão real, mas uma questão que devia ser de adultos conscientes da primacia da máquina sobre o ser humano.
O Homem do século XXI depende mais da máquina do que vice-versa e a consciencialização deste fenómeno ainda não é uma dado adquirido, porque a evolução foi demolidora e não deu tempo ao criador para se preparar. É por isso que uma sociedade adulta mal formada ofereceu de bandeja o telemóvel aos seus filhos. O mau exemplo vem de cima, porque não existiram nunca regras claras da utilização de tais aparelhos.
Uma criança com um telemóvel na mão sente-se quase dona do mundo, porque adquire uma liberdade para a qual não está preparada e porque sabe que os pais lhe deram aquela máquina mais por vaidade do que por necessidade. Começa aqui o mau exemplo.
Os professores são pois entidades impotentes perante hábitos enraizados em casa. As crianças, quer queiramos quer não, continuarão sempre a ser um reflexo nítido dos seus progenitores, porque se revêem neles por questões biológicas e porque, em geral, o proteccionismo exacerbado faz parte da educação de qualquer bom pai que se preze.
As referências deturpadas alicerçadas em pais deformados pela sociedade de consumo criam nas crianças valores artificiais e estereotipados. O comodismo inerente à evolução económica e tecnológica fez perder-se no tempo valores humanos genuínos. Já não há humildade para obedecer a um professor como havia outrora – perdoem-me o saudosismo -, já não há o espírito de sacrifício que fez crescer grandes homens às suas custas. O consumismo colocou a Playstation onde antes havia uma bola de futebol num campo de terra negra. Era preciso sujar as mãos para a diversão, hoje suja-se a mente.
A evolução tecnológica é inevitável e útil, bem como uma democratização progressiva da educação, onde crianças têm o direito da crítica que não tinham outrora. Mas o homem actual falha em critério, falha em educação para a tecnologia, falha no abandonar de valores que já foram seus e na sua transmissão aos mais novos, falha no comodismo extremo que oferece aos seus filhos, falha na autoridade. Resultado: crianças providas de espíritos inquietos estimulados pela evolução têm falta de referências sólidas, adquiriram uma liberdade podre.
Muitos professores, à imagem dos pais, estão mal preparados para enfrentar o fenómeno. Porque foram abandonados e descredibilizados em praça pública pela carrancuda doutora ministra. Os pais encontraram nos docentes o seu bode expiatório, limpando a sua consciência de forma leviana. E os doutores continuam a receitar sem avaliação porque são poucos e bons (?) e não têm que tirar o telemóvel a ninguém.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Romantismo Ultra

Lembro-me quando te vi naquele baile de estátuas
Rochas amargas que depois toquei em tuas mãos
Tua face era de cera lavada por água de rosas
E teus cabelos eram o fio da vela que ardia sobre ti
Depois vi-te dançar por entre os monumentos
Que foram felizes, tocavas em alguns deles
E sorriam, depois ajoelhavam-se
Já com auréolas de arco-íris
E morriam…
Tocavas sempre nos mais incolores e sombrios
Lembro-me de ouvir a melodia por ti encomendada
Era de glaciar luzente e fervente, das montanhas
Do esquecimento
Era de fumo azul-negro, de melancolia frenética
E o teu olhar…
Olhei o chão de pregos invertidos, caminhavas sobre eles
Olhei o céu da cor de chão de sangue…
Olhei enfim teus olhos
E vi o céu que outrora conhecera.
Lux. Jan. 2003
Rochas amargas que depois toquei em tuas mãos
Tua face era de cera lavada por água de rosas
E teus cabelos eram o fio da vela que ardia sobre ti
Depois vi-te dançar por entre os monumentos
Que foram felizes, tocavas em alguns deles
E sorriam, depois ajoelhavam-se
Já com auréolas de arco-íris
E morriam…
Tocavas sempre nos mais incolores e sombrios
Lembro-me de ouvir a melodia por ti encomendada
Era de glaciar luzente e fervente, das montanhas
Do esquecimento
Era de fumo azul-negro, de melancolia frenética
E o teu olhar…
Olhei o chão de pregos invertidos, caminhavas sobre eles
Olhei o céu da cor de chão de sangue…
Olhei enfim teus olhos
E vi o céu que outrora conhecera.
Lux. Jan. 2003
domingo, 23 de março de 2008
A Irmandade: Reflexo de Alma
Tu sabes que já cruzámos estradas distantes
Rimos na amargura, bebemos da fonte segura
Chorámos para nós, no silêncio da noite gélida.
Sei que a dor que foi tua, física, crua
Foi minha, de uma alma nua.
Quando te segurei em meus braços frágeis
Eles foram aço que ergue a glória, ontem, agora e sempre
Quando te sorri na tarde mais negra
Foi de tristeza, mas queria que visses esperança
Sempre criança, sempre a criança da minha lembrança.
Quando subtil, seguro, te vejo cumprir teu destino puro
Alegro-me, vejo as flores que pintas na Primavera.
Olho para trás e contemplo toda uma era.
Um tempo de vida colorida, cumplicidade jamais esquecida
Que perdurará no ocaso dos nossos dias.
Agora,
Mesmo quando pareço estar distante
Vejo-te seguir, qual estrela andante
Que guia o perdido caminhante.
E sigo-te, porque és o meu paradigma
Porque me habituei a contemplar-te como pedaço de minha alma
Irmão desta eterna caminhada.
Almas que seguem em frente, ora distantes ora sempre presentes
Onde um abraço e uma lágrima definem a amizade mais sábia.
Poema para o mais brilhante dos super-heróis, meu grande ídolo: João.
sexta-feira, 14 de março de 2008
Farol dissipado
Chega-se àquele porto onde
Já o Oriente é passado
Nada há a fazer agora
Que a ilusão está moribunda e
Teus olhos são o farol de uma terra distante
Impossível.
Tudo o que vai atrás são folhas de
Esplendorosos versos,
Mas já gastas, inúteis,
Uma poesia que não te encanta.
Vai,
Segue a mundana ilusão!
Se é isso que faz bater teu coração.
Oh, quem me dera poder admirar
Tua imagem maquilhada
Em vez de amar essa tua aura,
Esse teu brilho abrasador…
Que me acompanha sempre ao luar.
Já o Oriente é passado
Nada há a fazer agora
Que a ilusão está moribunda e
Teus olhos são o farol de uma terra distante
Impossível.
Tudo o que vai atrás são folhas de
Esplendorosos versos,
Mas já gastas, inúteis,
Uma poesia que não te encanta.
Vai,
Segue a mundana ilusão!
Se é isso que faz bater teu coração.
Oh, quem me dera poder admirar
Tua imagem maquilhada
Em vez de amar essa tua aura,
Esse teu brilho abrasador…
Que me acompanha sempre ao luar.
(Texto: Rodriguez; Foto: Rob Gonsalves)
quinta-feira, 13 de março de 2008
Os "meus" filmes
Corpse Bride (A Noiva Cadáverl) é um filme de animação em stop motion de 2005, produzido por Tim Burton e realizado por Tim Burton e Mike Johnson.
O argumento é clássico na sua fragilidade, valendo o filme pela atmosfera visual deslumbrante que consegue criar de raíz. As ambiências underground superiormente montadas adensam o clima romântico que se pretende juntar a essa atmosfera. De facto, "A Noiva Cadáver" continua a tradição de clássicos negros, ocultos e românticos realizados por Tim Burton, iniciada com filmes como "Eduardo Mãos de Tesoura".
Passado no século XIX numa vila europeia, "A Noiva Cadáver" é pois um filme de animação que relata a história de Victor, um jovem que vai parar a um mundo subterrâneo povoado pelos mortos e onde, devido a um juramento acidental, ele deve desposar uma misteriosa noiva falecida, enquanto a sua noiva real, Victoria, espera por ele no mundo dos vivos.
A história é baseada num conto popular russo-judaico do século XIX e é ambientada numa fictícia Inglaterra da era vitoriana. A rivalidade de classes é espelhada nos interesses de uma família aristocrata falida que tenta, através do casamento da filha, aproveitar-se de membros milionários da burguesia. De um lado, a classe e as maneiras, o bom nome e estatuto social; do outro, o poder do dinheiro, apesar das maneiras pouco educadas e mesmo grosseiras dos novos-ricos. Até mesmo aqui, o filme gera encanto e um ritmo à boa maneira dos filmes sobre diferenças e desigualdades sociais.
Tematicamente, acentue-se ainda a ideia de que o mundo dos mortos possui uma vida muito acima da dos vivos. Lá em baixo, tudo é colorido, alegre, festivo e irónico, enquanto que cá em cima reina o escuro, o taciturno, o protocolar e rígido e o jogo de interesses. Esta espécie de “monde à l’envers” reinventado pelo fantasista Burton serve uma perspectiva pouco romântica, porque optimista, relativamente à vida para além da morte. Talvez por isso o filme é tão divertido e cativante.
O argumento é clássico na sua fragilidade, valendo o filme pela atmosfera visual deslumbrante que consegue criar de raíz. As ambiências underground superiormente montadas adensam o clima romântico que se pretende juntar a essa atmosfera. De facto, "A Noiva Cadáver" continua a tradição de clássicos negros, ocultos e românticos realizados por Tim Burton, iniciada com filmes como "Eduardo Mãos de Tesoura".
Passado no século XIX numa vila europeia, "A Noiva Cadáver" é pois um filme de animação que relata a história de Victor, um jovem que vai parar a um mundo subterrâneo povoado pelos mortos e onde, devido a um juramento acidental, ele deve desposar uma misteriosa noiva falecida, enquanto a sua noiva real, Victoria, espera por ele no mundo dos vivos.
A história é baseada num conto popular russo-judaico do século XIX e é ambientada numa fictícia Inglaterra da era vitoriana. A rivalidade de classes é espelhada nos interesses de uma família aristocrata falida que tenta, através do casamento da filha, aproveitar-se de membros milionários da burguesia. De um lado, a classe e as maneiras, o bom nome e estatuto social; do outro, o poder do dinheiro, apesar das maneiras pouco educadas e mesmo grosseiras dos novos-ricos. Até mesmo aqui, o filme gera encanto e um ritmo à boa maneira dos filmes sobre diferenças e desigualdades sociais.
Tematicamente, acentue-se ainda a ideia de que o mundo dos mortos possui uma vida muito acima da dos vivos. Lá em baixo, tudo é colorido, alegre, festivo e irónico, enquanto que cá em cima reina o escuro, o taciturno, o protocolar e rígido e o jogo de interesses. Esta espécie de “monde à l’envers” reinventado pelo fantasista Burton serve uma perspectiva pouco romântica, porque optimista, relativamente à vida para além da morte. Talvez por isso o filme é tão divertido e cativante.
Uma certeza: o herói romântico Victor (voz de Johnny Depp – o actor fetiche de Tim burton) descobre que não há força neste mundo ou no próximo capaz de o afastar do seu verdadeiro amor.
Ficha técnica:
País: Reino Unido
Ano: 2005
Ficha técnica:
País: Reino Unido
Ano: 2005
Género: Animação, Fantástico, Comédia
RealizaçãoTim Burton, Mike Johnson
Intérpretes (vozes): Johnny Depp, Helena Bonham Carter, Emily Watson, Tracey Ullman, Joanna Lumley, Albert Finney, Christopher Lee
Etiquetas:
cavaleiro nas trevas,
corpse bride,
perfume,
romantismo,
segredo
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